O FICCIONISTA DO IMPOSSÍVEL
- Carlos A. Buckmann
- 16 de ago. de 2025
- 3 min de leitura

O FICCIONISTA DO IMPOSSÍVEL
Há dias em que me pego folheando um velho exemplar de “Da Terra à Lua”, com suas capas gastas pelo tempo e o cheiro de papel amarelado que insiste em lembrar que certas ideias são eternas. Júlio Verne, esse visionário do século XIX, escreveu não apenas histórias, mas profecias disfarçadas de ficção. Ele imaginou submarinos antes de existirem, viagens ao centro da Terra quando a geologia mal arranhava a crosta, e até previsões de videocomunicação, algo que hoje chamamos de chamada de vídeo, banalizada em nossos bolsos. O homem não apenas sonhou o futuro: ele o desenhou com palavras, como quem traça um mapa em meio à névoa do desconhecido.
E enquanto folheio suas páginas, não posso deixar de pensar: o que torna um sonho impossível? Onde exatamente traçamos a linha entre o que é viável e o que é mera ilusão? Então me deparo com aquela frase, aparentemente simples, mas de uma profundidade abissal: “Não há nada impossível; há só vontades mais ou menos enérgicas.” Júlio Verne não estava apenas defendendo a ciência ou a tecnologia, ele estava falando da alma humana, do seu poder mais primordial: a vontade.
Essa frase, tão serena e contundente, é um espelho. Reflete não apenas o que somos, mas o que poderíamos ser. Em nível pessoal, quantas vezes abandonamos um sonho não por falta de condições, mas por falta de energia interior? Quantos projetos foram enterrados sob o manto do “não consigo”, quando, na verdade, o que faltou foi persistência, coragem, a decisão de continuar mesmo quando o caminho escurece? A vontade, nesse sentido, não é apenas desejo, é uma força ativa, uma centelha que se recusa a se apagar. É o que move o alpinista ao cume, o artista diante da tela em branco, o pai que trabalha três turnos por um futuro melhor. A impossibilidade, então, não reside no mundo externo, mas na fraqueza da nossa intenção.
Na esfera social, essa ideia é ainda mais urgente. Nossa civilização avança não por milagres, mas por atos de vontade coletiva, com ideias carregadas de pólvora, prontas para explodir. A erradicação de doenças, a construção de redes de transporte, a democratização do conhecimento, tudo isso nasceu de mentes que se recusaram a aceitar o “não se pode”. A sociedade que duvida da própria capacidade de transformação é uma sociedade doente, anestesiada pela resignação. Mas quando a vontade se torna comum, quando se espalha como um vírus benéfico, o impensável se torna rotina. O impossível, então, é apenas o possível adiado.
Nos negócios, essa filosofia é a alma do empreendedorismo. Quantas empresas nasceram de ideias consideradas insanas? Steve Jobs não inventou o computador, mas teve a vontade enérgica de torná-lo belo, intuitivo, acessível. A Netflix não inventou o entretenimento, mas teve a coragem de sepultar seu próprio modelo de negócio (DVDs por correio) para reinventar a indústria com streaming. Nenhuma dessas empresas citou Verne, mas todas agiram como discípulas silenciosas de sua máxima: não há impossíveis, apenas vontades insuficientes.
E é aqui que a crítica se impõe, ácida e necessária. Há quem viva como se o mundo fosse um destino fixo, uma linha já traçada. São os que se escondem atrás de “não é possível”, “isso não dá certo”, “já tentaram antes”. Vivem na sombra da inércia, confundindo prudência com covardia, e rotina com realidade. São os que, diante de um problema, fecham os olhos e dizem “não tem jeito”, enquanto os outros, os que têm vontade enérgica, já estão construindo a ponte sobre o abismo.
Júlio Verne não via o futuro com telescópio, mas com a mente. E sua grande lição não é sobre tecnologia, mas sobre coragem: o mundo muda não quando as máquinas avançam, mas quando os homens decidem, de verdade, que querem mudá-lo. O resto é consequência.
Então, guardo seu livro na estante, mas sua frase permanece comigo, como um lembrete diário de que o limite não está lá fora. Está aqui, pulsando no ritmo da nossa vontade. E se ela for forte o suficiente, até a Lua deixará de ser um sonho distante e se tornará, simplesmente, o próximo passo.
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora.




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