O ESPÍRITO DAS LEIS NAS PRATELEIRAS
- Carlos A. Buckmann
- 23 de jan. de 2025
- 4 min de leitura

O Espírito das Leis nas Prateleiras
Vocês que me seguem e me leem periodicamente já sabem que gosto de trazer o que escreveram os grandes pensadores para analisar o mercado varejista, não só na minha especialidade de farmácias, mas no varejo em geral. Então, aqui vai mais um:
Montesquieu, em sua obra monumental "Do Espírito das Leis", nos convida a uma profunda reflexão sobre a complexa relação entre as leis e as sociedades. O filósofo francês, com sua perspicácia ímpar, nos mostra que as leis não são estáticas, mas sim produtos de um tempo e de um lugar específicos, moldadas pelas peculiaridades de cada cultura e pelas circunstâncias históricas.
Uma das ideias mais marcantes de Montesquieu é a da separação dos poderes. Para ele, a concentração do poder nas mãos de uma única pessoa ou grupo levaria inevitavelmente à tirania. A divisão do poder em legislativo, executivo e judiciário seria a garantia da liberdade e da justiça. Essa teoria, que pode parecer abstrata à primeira vista, encontra eco no dia a dia das pequenas e médias empresas do varejo.
Imagine um pequeno comerciante que concentra todas as decisões em suas mãos. Ele decide o que comprar, como vender, quanto cobrar e como lidar com os funcionários. A princípio, essa centralização pode parecer eficiente. No entanto, à medida que a empresa cresce, o comerciante pode se sobrecarregar e tomar decisões precipitadas, prejudicando o negócio. A separação de poderes dentro da empresa, com a delegação de responsabilidades para outros funcionários, pode trazer mais organização, agilidade e, consequentemente, melhores resultados.
Outra ideia importante de Montesquieu é a de que as leis devem ser adaptadas às condições de cada país. O que funciona em um país pode não funcionar em outro. Essa máxima também se aplica ao varejo. Um pequeno comerciante de uma cidade interior pode ter que adaptar suas estratégias de venda às necessidades e aos hábitos de consumo daquela comunidade. Já um comerciante de uma grande metrópole pode precisar investir em tecnologia e em um atendimento mais personalizado para se destacar da concorrência.
"As leis devem ser tais que a sua observância traga mais felicidade do que o seu desprezo." Essa frase de Montesquieu nos lembra que as leis não são apenas um conjunto de regras, mas sim um instrumento para promover o bem comum. No varejo, isso significa oferecer produtos e serviços de qualidade, tratar os clientes com respeito e agir de forma ética e responsável.
"É preciso que as leis sejam tão claras que qualquer cidadão possa conhecê-las." A clareza das leis é fundamental para garantir a justiça e a segurança jurídica. No contexto empresarial, isso significa ter contratos claros e objetivos, além de políticas internas que sejam conhecidas e compreendidas por todos os funcionários.
Montesquieu acreditava que o clima e a geografia de um lugar exerciam uma influência significativa sobre as leis e os costumes de seus habitantes. Por exemplo, ele argumentava que os povos que viviam em climas quentes tendiam a ser mais passivos e menos propensos à participação política, enquanto aqueles que viviam em climas frios eram mais ativos e enérgicos.
Mas, como se aplicam essa ideias ao varejo?
- Uma empresa de varejo que atua em diferentes regiões do país deve adaptar seus produtos, serviços e estratégias de marketing às particularidades climáticas e geográficas de cada local. Por exemplo, uma loja de roupas em uma cidade litorânea pode oferecer uma maior variedade de trajes de banho e roupas leves, enquanto uma loja em uma região montanhosa pode focar em produtos para atividades ao ar livre.
- A consciência ambiental tem se tornado cada vez mais importante para os consumidores. Ao considerar os aspectos climáticos e geográficos, as empresas podem desenvolver produtos e serviços mais sustentáveis, contribuindo para a preservação do meio ambiente.
Outra teoria de Montesquieu que se aplica perfeitamente às leis do mercado é a dos freios e contrapesos.
No contexto empresarial, esses freios e contrapesos podem ser entendidos como mecanismos que equilibram os interesses dos diferentes stakeholders, como acionistas, funcionários, clientes e comunidade.
Vejamos alguns exemplos reais:
- A concorrência é um importante freio para o abuso de poder econômico por parte das empresas. Ao oferecerem produtos e serviços de qualidade a preços competitivos, as empresas são incentivadas a inovar e a atender às necessidades dos consumidores.
- As leis e regulamentações governamentais estabelecem limites para as atividades das empresas, protegendo os consumidores e o meio ambiente.
- As empresas que adotam práticas de responsabilidade social demonstram respeito aos seus stakeholders e à sociedade em geral, o que pode gerar uma imagem positiva da marca e fortalecer seus relacionamentos com os clientes.
Encontrar casos reais de empresas que explicitamente declaram ter se inspirado em Montesquieu pode ser desafiador. No entanto, muitos dos princípios defendidos pelo filósofo francês estão presentes nas práticas de gestão de diversas empresas, especialmente aquelas que valorizam a governança corporativa, a ética e a responsabilidade social.
Neste contexto, como já citamos em outras crônicas, se enquadram:
- Empresas B, que são certificadas por cumprirem padrões rígidos de desempenho social e ambiental, além de transparência e responsabilidade. - As cooperativas, que são organizadas de forma democrática, com a participação de todos os membros nas decisões.
- Empresas com conselhos de administração independentes: A presença de conselheiros independentes nos conselhos de administração ajuda a garantir a imparcialidade nas decisões e a evitar conflitos de interesse.
Quem diria que um filósofo do século XVIII teria tanto a nos ensinar sobre o mundo do varejo. Montesquieu, com sua sabedoria e seu senso de justiça, nos mostra que as leis não são apenas regras a serem seguidas, mas sim princípios que podem guiar nossas ações e construir um mundo mais justo e equitativo. E, afinal, quem não quer fazer compras em um lugar onde os direitos dos consumidores são respeitados e as empresas são socialmente responsáveis?
Montesquieu, se estivesse vivo hoje, provavelmente estaria analisando as leis do mercado de criptomoedas, tentando entender como é possível que um meme de cachorro possa valer milhões de dólares. Ou talvez estivesse tentando decifrar os algoritmos das redes sociais e se perguntando se a tirania da maioria não se transferiu das ruas para os feeds de notícias. Mas uma coisa é certa: o espírito das leis, assim como a moda, sempre volta. E, se depender dos varejistas, as ideias de Montesquieu estarão por aí por muito tempo, garantindo que nossas compras sejam feitas com um pouco mais de justiça e um pouco menos de caos.
Você já tinha pensado em tudo isso ou sua loja vai na base do “tanto faz”?




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