O ESPINHO E A FLOR
- Carlos A. Buckmann
- 30 de mai.
- 3 min de leitura

O ESPINHO QUE NÃO FERE (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Apesar do lirismo singelo, quase minimalista, “A Flor e o Espinho” foi o maior sucesso de Nelson Cavaquinho.
Tocava várias vezes por dia nas rádios de sua época, e segue tocando, décadas depois, em corações que insistem em se machucar por amor.
Há nela uma verdade tão nua que assusta. E o assustador é que Nelson, com tão poucas palavras, conseguiu um lirismo de fazer inveja a Paul Géraldy, aquele poeta francês das confidências amorosas, e até ao nosso Vinicius de Moraes, tão pródigo em versos, mas que jamais resumiu uma desilusão em tão poucas sílabas.
A MPB, aliás, é um grande curso de filosofia às avessas. Enquanto os filósofos escrevem tratados, nossos compositores escrevem sambas. Cartola nos ensinou sobre o esquecimento, Noel sobre a solidão, e Nelson, este Nelson, sobre a ética do sofrimento. Porque “A Flor e o Espinho” não é apenas uma canção de amor desfeito. É uma lição de como não propagar a dor.
“Tire o seu sorriso do caminho / Que eu quero passar com a minha dor”
Schopenhauer diria que a dor é a realidade, e o sorriso, uma ilusão.
Mas Nelson inverte: ele não nega o sorriso, apenas pede licença. “Tire o seu sorriso do caminho” não é uma agressão; é um gesto de honestidade. Minha dor é grande demais para caber ao lado da sua alegria. Não quero contaminá-la. Quero apenas passar. Há aqui uma delicadeza feroz, uma ética quase budista: cada um com seu fardo, sem fingimentos.
“Hoje pra você eu sou espinho / Espinho não machuca a flor”
Eis o paradoxo central. O espinho, na natureza, é parte da planta que protege a flor. Mas o eu lírico se define como espinho separado, ciente de sua aspereza. E afirma: espinho não machuca a flor. Ora, isso é filosoficamente notável. Não há vingança, não há desejo de ferir quem um dia se amou.
Espinho e flor são do mesmo talo, mas agora em estações diferentes. Como ensina Espinosa: o corpo não determina a alma; a alma é ideia do corpo. O espinho, consciente de si, escolhe não machucar. Escolha rara.
“Eu só errei quando juntei minh'alma a sua / O sol não pode viver perto da lua”
Nelson toca num erro cósmico. Não errou por maldade, nem por traição. Errou por desarmonia de naturezas.
Platão, no Banquete, conta que os andróginos primordiais foram cortados ao meio, e cada metade busca a outra. Mas Nelson nos lembra: nem todas as metades se encaixam. O sol e a lua são opostos complementares no céu, mas não podem habitar o mesmo espaço. A união que parece destino pode ser, na verdade, equívoco. E reconhecer o equívoco é o primeiro passo para a lucidez.
“É no espelho que eu vejo a minha mágoa / E minha dor e os meus olhos rasos d'água”
O espelho é o lugar da verdade sem piedade.
Sartre dizia que o olhar do outro me constitui; mas Nelson nos mostra que o olhar sobre mim mesmo é ainda mais implacável. Ele não foge do rosto molhado, não enfeita a dor. A mágoa é vista de frente. Isso é coragem fenomenológica: descrever o que há, não o que gostaríamos que houvesse. Olhos rasos d’água não são fraqueza; são transparência.
“Eu na sua vida já fui uma flor / Hoje sou espinho em seu amor”
A metamorfose está consumada.
Não por escolha ativa, mas por tempo e ferida.
Hegel diria que o espírito se nega para se superar. A flor se nega em espinho, mas não desaparece, permanece como memória. O espinho não é a antítese da flor; é a flor que aprendeu a se proteger. E, ao se proteger, descobre que não pode mais voltar a ser o que era. Há nessa frase uma melancolia sem autopiedade. É o luto do que se foi, aceito sem negociação.
“A Flor e o Espinho” tocou nas rádios tantas vezes porque todos nós, em alguma noite, fomos flor ou espinho de alguém.
A filosofia que Nelson nos lega é simples e total: a dor não precisa gerar mais dor. O espinho pode apenas se afastar. O erro foi juntar sol e lua; o acerto é saber separar sem destruir.
Enquanto houver rádio, haverá esse samba. Enquanto houver coração partido, haverá esse espinho que, por sabedoria, recusa-se a machucar a flor.
E nós, cronistas de ouvido atento, só podemos agradecer.
E calar.
E deixar Nelson cantar mais uma vez.
(*) Assista o clipe no YouTube




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