O ESPELHO SUPORTÁVEL
- Carlos A. Buckmann
- 8 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

O ESPELHO SUPORTÁVEL
Um Ensaio sobre o Limiar da Verdade
Sempre me intrigou a natureza plástica do "verdadeiro". Se busco a verdade como quem busca um objeto sólido no escuro, logo percebo que minhas mãos não tateiam a coisa em si, mas as ranhuras da minha própria percepção.
A verdade não é um monumento público, erigido em praça para o usufruto de todos; é, antes, um fenômeno da individualidade. O que eu chamo de "realidade" nada mais é do que o resíduo do que meus sentidos e meu intelecto conseguiram processar sem entrar em colapso.
Existe um abismo entre o que os olhos veem e o que a alma tolera. É aqui que os limites da verdade se manifestam como um paradoxo social: convivemos em um mundo supostamente compartilhado, mas habitamos ilhas de compreensão radicalmente distintas.
O que para um homem é o despertar de uma consciência libertadora, para outro é o horror absoluto. Esse desencontro cria uma fricção inevitável. Tentar "entregar" a verdade a quem não tem estrutura para recebê-la é como tentar despejar o oceano em um copo de cristal: o resultado não é a hidratação, mas a destruição do recipiente.
Nesse labirinto de subjetividades, a voz de Jacques Lacan ecoa com uma precisão cirúrgica:
“Cada um alcança a verdade que é capaz de suportar.”
Essa não é uma frase sobre a ignorância, mas sobre a capacidade de contenção. Lacan nos aponta que o "Real" é traumático. A verdade pura, desprovida de véus ou metáforas, é insuportável para o psiquismo humano. Por isso, criamos narrativas, sintomas e defesas. A verdade que acessamos é aquela que conseguimos domesticar para que ela não nos devore.
A aplicação dessa máxima é vasta e, por vezes, cruel:
Na Vida Pessoal, amamos não quem as pessoas são, mas a versão delas que nossa psique suporta processar. O fim de uma ilusão amorosa é, muitas vezes, o momento em que a verdade excede nossa capacidade de suporte.
Na Sociedade, vivemos em bolhas ideológicas não por maldade, mas por economia psíquica. O grupo oferece uma verdade "pré-mastigada", suportável, que evita o peso esmagador de lidar com a complexidade do Outro.
No Mundo dos Negócios, líderes e organizações operam sob o signo da eficácia. Muitas vezes, a verdade sobre a insustentabilidade de um modelo ou a ética de um processo é sacrificada. O executivo alcança a verdade que os lucros, e o seu bônus, lhe permitem suportar. Se a verdade ameaça o sistema, ela é rotulada como "ruído".
Entendido. Para integrar esse pensamento à crônica, o parágrafo abaixo deve ser inserido logo após a seção que discute a aplicação da frase na vida pessoal e nos negócios, servindo como uma ponte para a citação dos pensadores:
No cenário contemporâneo, essa economia psíquica de que falava Lacan encontrou sua arquitetura definitiva nas redes sociais.
O algoritmo é o alfaiate da verdade: ele corta, ajusta e entrega apenas o fragmento de realidade que o usuário é capaz de suportar sem desconectar-se.
Na era da pós-verdade, o paradoxo atinge seu ápice: nunca tivemos tanto acesso aos fatos, e nunca fomos tão eficientes em evitá-los. Construímos câmaras de eco que funcionam como úteros intelectuais, protegendo-nos do desconforto da alteridade. Ali, a verdade não é o que corresponde ao real, mas o que confirma o eu.
O suporte de que Lacan falava tornou-se digital, e o resultado é uma sociedade fragmentada em mil facções, cada uma aferrada à sua pequena e suportável fatia de "verdade", enquanto o mundo lá fora queima em sua complexidade total.
Lacan não está só nessa constatação.
Friedrich Nietzsche, muito antes, já questionava: "Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito?". Para Nietzsche, a verdade é uma ferramenta de poder, e o acesso a ela define a força do indivíduo.
Søren Kierkegaard também tangenciou esse limite ao tratar da angústia, o momento em que o indivíduo encara a vacuidade de suas certezas e a vastidão da verdade existencial.
Até mesmo no mito da caverna de Platão, o retorno do liberto é recebido com violência; os que ficaram na sombra não suportam a luz que ele traz.
Algo que precisamos admitir, e que raramente se diz com honestidade, é que a mentira, ou a "meia-verdade", possui uma função biológica e social de preservação. Se fôssemos expostos à crueza total de nossas motivações inconscientes, de nossa finitude e do caos do universo, a civilização pararia. A cultura é, em última análise, um conjunto de ficções úteis que nos permitem caminhar sobre o abismo sem olhar para baixo.
Ao fim e ao cabo, essa busca febril pela "Verdade" com V maiúsculo parece pouco mais do que um fetiche intelectual. O conceito de verdade tornou-se o mais refinado instrumento de tortura e autoengano.
Orgulhamo-nos de nossa lucidez enquanto selecionamos cuidadosamente quais fatos ignorar para conseguirmos dormir à noite.
A verdade não é um prêmio para os sábios; é um peso que esmaga os incautos.
Vivemos em um mercado de pulgas de certezas baratas, onde cada um compra a dose de realidade que não lhe causa indigestão.
A verdade, essa entidade que juramos perseguir, é apenas o nome que damos à mentira que melhor se adapta à nossa estrutura de conforto.
Ou talvez, a verdade seja apenas o disfarce mais elegante da mentira e, nesse disfarce, encontramos não só o cinismo que nos protege, mas também a potência criativa das ficções que nos permitem continuar existindo
Somos todos especialistas em suportar apenas o que não nos fere.




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