O ENCONTRO DOS ABISMOS
- Carlos A. Buckmann
- 21 de jul. de 2025
- 2 min de leitura

O ENCONTRO DOS ABISMOS
Sou o bartender do Café Entre Fluxos, e mais do que servir o líquido escuro que desperta consciências, preparo o espaço onde o pensamento repousa para saltar ao abismo. “Cada pensamento que se serve aqui é como um gole de eternidade: forte, denso e transformador.” Hoje, o aroma de café moído paira no ar como uma convocação ao espírito: Nietzsche, Kierkegaard e Sartre se instalam em suas poltronas, que mais parecem tronos existenciais, e deixam que a atmosfera dissolva a rigidez de seus sistemas.
O Café Entre Fluxos nunca é o mesmo. Hoje, a luz que entra pelas cortinas translúcidas projeta sombras longas, como se o tempo se arrastasse para ouvir melhor. Os quadros nas paredes mudam conforme o tom das conversas, e hoje se veem relógios desconstruídos, espelhos sem reflexo e silhuetas em fuga. A música ambiente é um lamento de saxofone, grave e vagaroso, como quem hesita em existir. E há livros, muitos livros, mas todos abertos em páginas escolhidas por ninguém e que parecem sempre saber o que falta em quem os lê.
Nietzsche gira o levemente o café em sua xícara e sorri com um brilho enigmático nos olhos.
- "A vida é vontade de potência. O café que você serve, meu caro, não é apenas líquido: é combustão para o espírito criar novos valores."
Kierkegaard, em sua postura recolhida, segura a xícara com ambas as mãos como quem segura sua angústia.
- "Mas se o homem não escolher a si mesmo em sua própria aflição, de que lhe serve a potência? Sem salto, não há existência verdadeira."
Sartre, com seu olhar penetrante, inclina-se como quem irá desferir uma frase que não espera resposta:
- "A existência precede a essência. Estamos condenados à liberdade. Não há essência a ser descoberta, há apenas escolha que nos define, mesmo que em meio ao desespero."
Nietzsche retruca com um sorriso provocador:
- "E no fim, essa liberdade é apenas um novo nome para o niilismo disfarçado. Sem a transvaloração dos valores, continuamos escravos da negação."
Kierkegaard se levanta e recita com voz firme:
- "O salto é para o infinito. O desespero é pedagógico. O sujeito o torna-se ao enfrentar o paradoxo da fé."
Sartre balança a cabeça:
- "Vocês ainda procuram um além. Mas o inferno são os outros, e a responsabilidade começa no aqui e agora. Recusar isso é escapar da própria liberdade."
E entre goles e silêncios, percebo que cada um deles se inclina para o abismo por caminhos distintos, Nietzsche dança com os instintos, Kierkegaard se ajoelha diante da fé, Sartre caminha contra o vento da essência. Mas todos, inevitavelmente, chegam ao mesmo café onde eu os recebo.
Enquanto limpo os últimos traços do encontro das xícaras e das almas, penso:
“Aqui, onde o café borbulha como pensamento e o tempo escorre como angústia, aprendi que o existir não é um verbo, é uma vertigem.”




Um brinde meu pai!