O DIREITO À VULGARIDADE
- Carlos A. Buckmann
- 8 de ago. de 2025
- 4 min de leitura

O DIREITO À VULGARIDADE
Há um instante, enquanto observava o mundo por entre os interstícios da tela, essa janela digital que nos prometeu o universo e nos entregou um espelho deformado, senti um calafrio filosófico. Não foi medo, nem tristeza. Foi reconhecimento. A sensação de que vivemos não um tempo de crise, mas de consumação: a consumação de uma lógica que há muito se incubava nas entranhas da modernidade. A lógica da massa que, não mais envergonhada, ergue a cabeça e declara: eu sou vulgar, e isso me dá direito a tudo.
Olho ao redor, ou melhor, olho para dentro da máquina que me conecta ao mundo, e vejo: líderes que jamais leram um livro além de seus discursos, que confundem retórica com razão, e poder com propriedade. Na arena política mundial, os palanques são ocupados por homens e mulheres cuja biografia se resume a uma sequência de ofensas, promessas vazias e gestos teatrais de "autenticidade". Nos Estados Unidos, um ex-presidente que incendiou o Capitólio é tratado como mártir por milhões, e volta ao poder. Na Europa, partidos que negam o clima, a ciência, a história, avançam com o ímpeto de quem descobriu um novo evangelho: o do ressentimento legitimado. No Brasil, o circo permanece aberto, não há interlúdio, apenas um show contínuo de espetáculos grotescos: o exibicionismo do poder, a sacralização da ignorância, o culto ao homem que se diz "do povo", mas só conhece o povo como plateia.
E tudo isso se passa sob o manto de uma democracia que, em vez de educar, agora legitima. Legitima o mais baixo como se fosse o mais verdadeiro. Legitima o impulso como se fosse princípio. Legitima o grito como se fosse pensamento.
Então me veio à mente a frase de José Ortega y Gasset, escrita em 1930, no limiar do colapso europeu:
"O característico do momento é que a alma vulgar, sabendo-se vulgar, tem a audácia de afirmar o direito à vulgaridade e o impõe em toda parte.”
Ortega, espanhol, nascido em 1883, foi um dos últimos filósofos do século XIX que ousou viver no XX. Fundador da “Revista de Occidente*” professor na Universidade Central de Madrid, exilado após a Guerra Civil, pensador da "razão vital", da vida como projeto, da cultura como exigência. Ele não desprezava o povo, desprezava a abdicação. O que o horrorizava não era a simplicidade, mas a vontade de ser simples diante do complexo. O que ele via, já em 1930, era o triunfo da mentalidade da massa: não mais o indivíduo que se esforça para transcender suas limitações, mas o homem médio que exige que o mundo se rebaixe ao seu nível.
É exatamente aí que estamos. A política deixou de ser o lugar da mediação, do debate, da responsabilidade. Tornou-se um reality show onde o mais barulhento vence, o mais agressivo encanta, o mais ignorante convence. Por quê? Porque a massa, essa entidade difusa, amorfa, impulsionada por algoritmos e ressentimentos, não deseja líderes. Deseja espelhos. Espelhos que confirmem suas mágoas, que legitimem suas certezas, que lhes digam: você está certo em odiar, em duvidar, em não saber.
Daí o sucesso dos truculentos. Dos que falam de "corrupção" enquanto desviam milhões. Dos que pregam moralidade enquanto acumulam processos. Dos que prometem "salvar o povo" enquanto o empobrecem. Eles são eleitos não apesar de sua ignorância, mas por causa dela. Sua ignorância é sua credencial. É a prova de que "não são da elite", de que "não foram corrompidos pela cultura". E o povo, seduzido pela ilusão de pertencimento, vota neles como quem se vinga da própria incapacidade de ascensão.
Os algoritmos, claro, são cúmplices. Eles não julgam. Eles amplificam. O ódio gera engajamento. O escândalo gera cliques. O absurdo vira trending topic. A inteligência, o equilíbrio, a moderação, tudo isso é silenciado pela lei do volume. O que é sensato não viraliza. O que é sensacional, sim. Assim, a vulgaridade não apenas se afirma, ela se multiplica, se naturaliza, se institucionaliza.
E se continuarmos assim? Se a alma vulgar não apenas afirmar seu direito, mas o transformar em lei?
Teremos cidades governadas por palhaços com gravatas coloridas.
Teremos escolas onde se ensina que a Terra é plana, porque "a verdade é o que eu sinto".
Teremos hospitais sem remédios, mas com outdoors celebrando o "homem forte".
Teremos universidades fechadas, enquanto estádios lotados aplaudem quem as despreza.
Teremos um mundo onde o conhecimento será visto como traição, e a sabedoria, como arrogância.
E, no ápice dessa tragédia cômica, imaginei um futuro próximo, satírico, mas plausível:
Um plebiscito global decide que a matemática é opressiva, pois exclui quem não entende equações.
A ONU é substituída por um reality show chamado Governando o Mundo, onde o vencedor é escolhido por likes.
O candidato anuncia, com lágrimas nos olhos, que abolirá a gravidade, "porque ela puxa as pessoas para baixo, e o povo quer voar".
E, no dia da posse, todos juram fidelidade não à Constituição, mas a um meme.
E eu, o cronista, sentado em meu canto, com meus livros empoeirados e minha razão cansada, serei levado ao paredão por promover "elitismo cognitivo".
Meu crime? Ter lido Ortega.
Minha sentença? Ser obrigado a assistir, em loop, ao discurso do novo líder, que diz:
"Se você pensa, está errado. Se duvida, é traidor. Se sabe, é inimigo.
Mas se sente, se grita, se acredita em mim, então, você é o futuro."
E a multidão, em uníssono, responde:
- AMÉM.
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora.




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