O DALAI LAMA E OS PASSOS DE UMA JORNADA
- Carlos A. Buckmann
- 3 de mai. de 2025
- 4 min de leitura

O DALAI LAMA E OS PASSOS DE UMA JORNADA
JORNADA! Palavra que evoca a imagem de longas estradas poeirentas, picos nevados a serem escalados e a suave cadência dos passos que, um a um, nos conduzem ao destino almejado. Cada pegada na terra, cada inspiração ofegante na altitude, cada pequena vitória sobre o cansaço são partículas infinitesimais, mas absolutamente cruciais, na tessitura da nossa “odisseia” pessoal. Ao longo da vida, aprendi que cada jornada é composta por passos que, individualmente, podem parecer insignificantes, mas, coletivamente, desenham o mapa que nos leva aos nossos objetivos. A verdade é que nenhuma trilha se concretiza sem o movimento constante, sem o seguir adiante, mesmo que os horizontes pareçam distantes ou incertos. É nesse contexto de paciência perseverante que ressoa com particular eloquência a assertiva do Dalai Lama, proferida à perspicaz jornalista Felizistas von Schönborn: “A fim de mudar algo a longo prazo temos de aprender, se necessário, a apenas seguir adiante a curto prazo.”
A profundidade dessa declaração reside na paradoxal sabedoria de que, para alcançar transformações significativas e duradouras, por vezes, a estratégia mais eficaz reside em aceitar um progresso aparentemente lento e modesto no imediato. É a arte de cultivar a paciência como virtude cardinal, compreendendo que o crescimento genuíno não floresce sob o ímpeto ansioso da pressa, mas sim sob o sol constante da dedicação e a chuva miúda da persistência.
Analisando a frase com acuidade, percebemos que ela nos convida a abandonar a ilusão de saltos quânticos instantâneos. As grandes metamorfoses, sejam elas individuais, coletivas ou organizacionais, são invariavelmente o resultado de um acúmulo gradual de esforços, de aprendizados sequenciais e de adaptações contínuas. É como a lenta erosão da água sobre a rocha, que, com o tempo, esculpe paisagens majestosas.
Na esfera pessoal, essa filosofia se manifesta na construção de hábitos saudáveis, no aprimoramento de habilidades ou na superação de traumas. Ninguém se torna um exímio pianista da noite para o dia, nem se liberta de uma dependência com um estalar de dedos. Requer-se a prática diária, a tolerância aos erros iniciais e a celebração dos pequenos avanços.
No âmbito profissional, a máxima do Dalai Lama ecoa na trajetória de ascensão na carreira, na aquisição de expertise e na consolidação de projetos. O sucesso raramente é um golpe de sorte fulminante, mas sim a culminação de anos de estudo, de trabalho árduo e de resiliência diante dos obstáculos. Empresas que almejam o sucesso sustentável compreendem a importância de construir bases sólidas, de inovar continuamente e de cultivar um ambiente de aprendizado constante, mesmo que os resultados imediatos pareçam modestos. Planejar o crescimento a longo prazo requer a humildade de respeitar cada etapa: do desenvolvimento de um produto até o ganho de confiança dos consumidores. Pular etapas pode levar a desastres. Quantas vezes vemos empreendedores falhando ao se apressarem em expandir antes de consolidar sua base? Ignorar o processo pode ser fatal.
Pensadores de diversas épocas e áreas do conhecimento corroboram essa visão. Sêneca, com sua sabedoria estoica, nos lembrava da importância da paciência e da perseverança como pilares da virtude. No campo da ciência, a teoria da evolução de Darwin ilustra como mudanças complexas e significativas emergem de um lento e gradual processo de seleção natural. Caminhar passo a passo não significa renunciar às ambições grandiosas; ao contrário, é a única maneira de alcançá-las de forma sustentável. Muitos autores convergem para esse ponto. Stephen Covey, em “Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes”, enfatiza a importância de focar no que está ao alcance antes de se projetar para o futuro. Até mesmo o filósofo Aristóteles já nos ensinava que “o sucesso é a soma de pequenos esforços repetidos dia após dia.”
Na literatura, inúmeras narrativas celebram a jornada do herói, marcada por desafios superados passo a passo. Thomas Edison, por exemplo, falhou milhares de vezes antes de inventar a lâmpada elétrica. A persistência em pequenos avanços, testando novas ideias e aprendendo com os erros, foi o alicerce do sucesso de Edison. No mundo corporativo, a filosofia do “seguir adiante” encontra eco em Jim Collins, que, em seu livro Empresas Feitas para Vencer, defende que os negócios bem-sucedidos são construídos com consistência e não por saltos abruptos.
Ao refletir sobre a sabedoria do Dalai Lama, chego à conclusão de que seguir adiante a curto prazo é mais do que uma técnica, é uma filosofia de vida. E, como disse Edison: “O caminho para o sucesso está pavimentado com tijolos de tentativa e erro.” Afinal, quem busca atingir grandes metas deve estar disposto a percorrer os pequenos passos — e se algum tropeço ocorrer pelo caminho, que seja uma oportunidade para aprender com graça e humor. Afinal, “o segredo não está em não cair, mas em levantar-se com estilo.”
O perigo de negligenciar essa filosofia reside na tentação de atalhos ilusórios. Pular etapas, seja na vida pessoal, na carreira ou na gestão de negócios, invariavelmente conduz a alicerces frágeis e a resultados efêmeros. A busca desenfreada por ganhos rápidos pode levar a decisões precipitadas, a negligenciar o aprendizado essencial e, em última instância, ao fracasso. As consequências podem ser desde a frustração pessoal até o colapso de uma empresa.
Portanto, a sabedoria contida na singela frase do Dalai Lama nos convida a cultivar a arte da paciência ativa, a abraçar a jornada com suas lentidões necessárias e a encontrar alegria nos pequenos progressos. Afinal, como diria um velho sábio, com sua peculiar sagacidade: "Quem corre muito, tropeça no futuro. E o futuro, meus caros, não tem pressa de chegar. Ele vem passo a passo, no seu devido tempo. – Mas como chega rápido."




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