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O CUIDADO QUE TRANSBORDA

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

O CUIDADO QUE TRANSBORDA

            O cuidado ético não é mero protocolo, nem simples obrigação de ofício. É um modo de estar no mundo, uma postura que nasce do reconhecimento do outro como sujeito de dignidade, de dor, de desejo. Não se limita ao silêncio compassivo do consultório, nem ao sigilo profissional que cerca a confissão íntima.

            Ele pulsa, insiste, transborda.

            E quando transborda, exige que o ético se torne político, que o individual se torne coletivo.

            Na psicologia clínica, especialmente na tradição humanista de Carl Rogers, o cuidado ético se manifesta como *consideração positiva incondicional: um olhar que acolhe sem julgar, que vê no outro não um caso, mas uma história em construção.

            Já na psiquiatria crítica, aquela que se inspira em Foucault e em Basaglia, o cuidado ético implica desmontar os mecanismos de exclusão que transformam sofrimento em patologia institucionalizada.

            Para essas vertentes, o consultório não pode ser uma ilha de empatia cercada por um mar de indiferença social. Se a angústia de um jovem nasce da violência escolar, do abandono estatal, da pobreza estrutural, então cuidar dele é também cuidar do ambiente que o fere.

            A filosofia, por sua vez, há muito entende o cuidado como fundamento ético.

            Emmanuel Levinas, com sua ética da alteridade, nos lembra que o rosto do outro me interpela antes mesmo de eu decidir agir: “Tu não matarás” não é um mandamento, mas um apelo originário. O cuidado, nessa perspectiva, é anterior à liberdade, é o que me constitui como sujeito moral.

            Já Martha Nussbaum, com sua ética das capacidades, propõe que a justiça social deve ser medida pela possibilidade real que cada pessoa tem de viver uma vida digna. Para ela, o cuidado ético exige políticas públicas que garantam educação, saúde mental, moradia, não como favores, mas como condições mínimas de humanidade.

            Mas e quando a psicologia e a filosofia se abraçam? Quando o diagnóstico clínico se entrelaça com a reflexão existencial?

            É aí que nasce a psicofilosofia, essa ciência híbrida que não se contenta em curar sintomas, nem apenas em interpretar o mundo, mas em transformá-lo com sabedoria e sensibilidade. A psicofilosofia entende que o sofrimento psíquico não é um defeito individual, mas muitas vezes um sintoma de uma sociedade doente. Por isso, intervém não só na subjetividade do paciente, mas no tecido social que a molda. Leva o filósofo para a escola, o psicólogo para o conselho municipal, o pensador para a periferia. Acredita que cuidar da alma exige cuidar da cidade.

            No contexto atual, marcado por crises de sentido, individualismo exacerbado, colapso ecológico e esgarçamento dos laços comunitários, a psicofilosofia surge como uma bússola ética. Ela não oferece respostas prontas, mas pergunta com coragem: “Como viver juntos sem nos destruirmos? Como cuidar sem domesticar? Como curar sem normalizar?” Sua força está em articular o íntimo e o coletivo, o afeto e a justiça, o cuidado de si e o cuidado do mundo.

            Vivemos tempos em que a indiferença se disfarça de neutralidade, e a omissão se veste de prudência.

            Mas o cuidado ético não é opcional, é urgente.

            E não cabe apenas aos terapeutas ou aos filósofos. Cabe a todos nós. Porque, no fundo, cuidar é um ato de resistência: contra a banalização da dor, contra a mercantilização da vida, contra a ideia de que alguns merecem menos atenção, menos escuta, menos futuro.

            Que o cuidado transborde, então. Que ele invada as salas de aula, os corredores do poder, os becos esquecidos. Que se torne política, poesia, prática cotidiana.

            Porque só assim, cuidando do outro como se cuida de si, e cuidando do mundo como se cuida de um corpo vivo, poderemos construir uma humanidade que não apenas sobrevive, mas floresce.

 
 
 

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