O CUIDADO DE SI.
- Carlos A. Buckmann
- 28 de mai. de 2025
- 3 min de leitura

O CUIDADO DE SI
Sobre a encosta do Monte Parnaso, entre rochas calcinadas pelo tempo e o perfume agreste dos ciprestes, erguia-se o Templo de Apolo, em Delfos. Ali, onde a terra parecia sussurrar verdades antigas através da boca da Pítia, o oráculo falava em nome do deus da luz, da harmonia e da razão. O templo não era apenas um espaço sagrado, era o coração pulsante da sabedoria helênica, o ponto onde os mortais buscavam sentido para a existência. E logo à entrada, entalhada na pedra como uma advertência eterna, uma frase se impunha com singeleza pétrea: “Epiméleia Heautoû” - “Cuida de ti mesmo”.
Transportemos essa reflexão para o turbilhão da vida contemporânea. Atolados em agendas frenéticas, bombardeados por informações e pressionados por expectativas sociais, muitas vezes relegamos o cuidado pessoal a um plano secundário, quase como um luxo dispensável. Adiar o sono reparador em prol de mais uma tarefa, ignorar os sinais de exaustão em nome da produtividade, negligenciar a nutrição em função da pressa; esses são apenas alguns exemplos de como, cotidianamente, nos distanciamos do princípio délfico. Esquecemos que somos o nosso próprio templo, e que a sua manutenção é condição sine qua non para habitarmos um espaço de paz e equilíbrio.
Diz-se que essa máxima, atribuída a Sócrates, era mais do que um conselho, era uma convocação à alma. Ao contrário do que nossa vaidade moderna gostaria, cuidar de si não implica mimar-se com excessos ou esconder-se do mundo. É antes um chamado à responsabilidade interior, à manutenção da ordem que precede qualquer possibilidade de justiça ou verdade no convívio humano.
Entendi essa lição não em um templo, mas num espelho. E não num espelho qualquer, mas naquele que, em silêncio, me acusa nas manhãs em que me negligencio, quando deixo de ouvir o que em mim pede pausa, cuidado ou reflexão. Cuidar de mim tornou-se, então, um exercício de ética e não de egoísmo, pois como posso desejar o bem ao outro, se habito um corpo exausto, uma mente dispersa e um espírito adoecido de pressa?
Nos dias de hoje, em que a velocidade é confundida com valor e a distração virou rotina, cuidar de si é quase um ato de rebeldia filosófica. E pode começar com pequenas insurreições cotidianas: dormir com o celular fora do quarto; caminhar sem fones de ouvido, apenas para ouvir os próprios passos; escolher o silêncio como companhia antes de dormir. Ou, quem sabe, aprender a dizer “não” e, com isso, dizer “sim” ao que nos preserva.
O despertar para o autocuidado pode começar com gestos aparentemente insignificantes. Uma caminhada consciente em meio à natureza, a leitura de um livro que nutre a alma, a prática da meditação para aquietar a mente, o preparo de uma refeição nutritiva com atenção, o estabelecimento de limites saudáveis em nossos relacionamentos. São pequenas sementes que, cultivadas com constância, florescem em bem-estar duradouro. Como nos ensinou Epicuro, a busca pela ataraxia, a ausência de perturbação na alma, passa invariavelmente pelo cultivo de prazeres simples e pela moderação dos desejos. Da mesma forma, Sêneca, em suas cartas a Lucílio, exortava à introspecção e ao domínio das paixões como caminhos para a serenidade.
Michel Foucault, ao estudar a ética dos gregos, reafirmou a importância do “cuidado de si” como fundamento para qualquer forma de autoconhecimento e, por extensão, de liberdade. Pierre Hadot, por sua vez, nos lembra que a filosofia era antes de tudo um modo de vida, uma prática constante de transformação de si mesmo. E já dizia Epicteto, com sua lógica estoica: “Nenhum homem é livre, se não é senhor de si.”
A filosofia perene nos recorda que o cuidado de si não é um ato isolado, mas um processo contínuo de autoconhecimento e autocompaixão. É reconhecer nossas vulnerabilidades, acolher nossas emoções e nutrir nossas necessidades mais profundas. É entender que somos seres integrais, e que a saúde do corpo está intrinsecamente ligada à saúde da mente e do espírito. Cuidar de mim é, portanto, o mais político dos atos. Pois um sujeito em harmonia consigo torna-se menos refém dos extremos e mais disponível para a escuta, para a construção, para o amor, esse cuidado de si que transborda e se oferece ao outro.
E se hoje você ainda acha que isso é conversa de templo antigo, lembre-se: até o carro precisa de revisão para não fundir o motor. Agora, imagine o estrago quando esquecemos de revisar a alma.
Afinal, quem não cuida de si... acaba dando trabalho até pro espelho.




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