O CREPÚSCULO DA IGNORÂNCIA E A AURORA DA LIBERDADE
- Carlos A. Buckmann
- 24 de jun. de 2025
- 4 min de leitura

O CREPÚSCULO DA IGNORÂNCIA E A AURORA DA LIBERDADE
Encontro-me, como cronista e observador da condição humana, a meditar sobre a perenidade de certas verdades literárias. Victor Hugo, com sua monumental obra Os Miseráveis, não apenas nos legou um romance, mas um tratado sociológico, filosófico e, ousaria dizer, profético. Escrito em meados do século XIX, um período efervescente de transformações sociais, revoluções e a gestação de novos paradigmas, o livro é um espelho implacável da miséria humana em suas múltiplas facetas: material, moral e espiritual. Hugo, um humanista convicto, denunciava a chaga da pobreza, a injustiça social e a opressão que esmagavam os mais vulneráveis, ao mesmo tempo em que exaltava a capacidade de redenção e a inextinguível chama da dignidade humana.
Ao transpor essa lente para o presente, o comparativo é, no mínimo, contundente, senão doloroso. As guilhotinas físicas foram substituídas por guilhotinas econômicas e sociais, invisíveis, mas igualmente letais. A miséria, embora reconfigurada em suas manifestações, persiste com uma tenacidade que desafia a retórica do progresso. As periferias do mundo, e mesmo os bolsões de pobreza nas nações abastadas, ecoam os lamentos dos Valjean e Fantine de outrora, talvez com roupagens distintas, mas com a mesma privação de oportunidades e dignidade. A injustiça, outrora visível nos tribunais arbitrários, agora se manifesta em sistemas complexos que perpetuam desigualdades, na perpetuação de estruturas que beneficiam poucos em detrimento de muitos. A leitura de Os Miseráveis hoje não é um exercício de arqueologia literária; é um diagnóstico agudo da nossa persistente patologia social.
É nesse cenário, então, que a frase de Hugo ressoa com uma potência quase atávica:
“A liberdade começa onde a ignorância termina.”
Que profunda e inquestionável verdade. A ignorância, aqui, não se restringe à ausência de instrução formal. Ela abarca a miopia moral, a cegueira para a dor alheia, a incapacidade de discernir a verdade em meio ao turbilhão de informações e desinformações. Ela é a servidão voluntária de quem prefere o conforto da não-reflexão à inquietude do conhecimento. É a ignorância que aprisiona mentes em dogmas, que acorrenta a capacidade de escolha e que, em última instância, rouba a mais preciosa das posses: a autonomia do ser. A liberdade, portanto, não é um mero estado físico de ausência de grilhões, mas um florescimento da consciência, um despertar que permite ao indivíduo transcender as amarras impostas pela falta de entendimento, seja ele sobre si mesmo, sobre o outro ou sobre as engrenagens do mundo.
Victor Hugo, por sua vez, foi um titã literário e um proeminente pensador político de seu tempo. Nasceu em Besançon, França, em 1802, e faleceu em Paris, em 1885. Sua vida foi um misto de glória e exílio, uma jornada marcada por um profundo engajamento social e político. Os Miseráveis, publicado em 1862, foi um sucesso estrondoso e imediato, causando um impacto cultural e social sem precedentes. A obra ressoou profundamente com as ansiedades de uma Europa em transformação, e sua crítica social angariou tanto admiradores fervorosos quanto detratores. A repercussão foi tamanha que o livro se tornou um símbolo de luta por justiça e dignidade para as gerações vindouras, consolidando Hugo não apenas como um escritor magistral, mas como uma voz da consciência social.
E os “miseráveis” de hoje? Eles se enquadram em nossas vidas de maneiras por vezes sutis, por vezes gritantes. No tecido social, são os invisíveis nas grandes cidades, os que vivem à margem das políticas públicas, os que padecem de um acesso precário à saúde, educação e justiça. São, metaforicamente, os excluídos do banquete da prosperidade, os esquecidos nos discursos grandiloquentes. No universo dos negócios, os “miseráveis” se manifestam na precarização do trabalho, na exploração de mão de obra, nas práticas desleais que esmagam os pequenos empreendedores e concentram riqueza nas mãos de poucos. São os que veem seus sonhos e aspirações tolhidos por um sistema impiedoso que prioriza o lucro acima do bem-estar humano. Em suma, a miséria de Hugo se metamorfoseou, adaptando-se aos novos contornos da opressão, mas mantendo sua essência desumanizadora.
A jornada do herói, conceito popularizado por Joseph Campbell, encontra em Os Miseráveis uma de suas mais emblemáticas representações. Jean Valjean, o condenado que se redime, é o arquétipo do indivíduo que, confrontado com a adversidade e a injustiça, escolhe o caminho da virtude e da compaixão. Sua odisseia é uma série de provações, quedas e renascimentos, um testamento à resiliência do espírito humano e à capacidade de transformação. Sua luta contra Javert, a personificação da lei inflexível e sem misericórdia, é uma metáfora para o embate entre a letra fria da lei e o espírito da justiça.
Em nossa jornada cotidiana, cada um de nós é, à sua maneira, um herói em potencial. Enfrentamos nossos próprios “Javerts”: as pressões do dia a dia, os desafios profissionais, as crises pessoais, a inércia da comodidade. Nossa caverna, por vezes, é a zona de conforto que nos impede de crescer. Nosso elixir, a sabedoria adquirida nas quedas e nos acertos. A jornada de Valjean nos lembra que a verdadeira vitória não reside na ausência de erros, mas na capacidade de se levantar, de aprender e de continuar a trilhar o caminho da ética e da empatia. A liberdade, nesse contexto, é a recompensa final da jornada, o estado de ser alcançado quando confrontamos nossa própria ignorância e abraçamos a luz do conhecimento e da ação consciente.
Confesso que, por vezes, a mente divaga, e me pergunto se o próprio Hugo, em sua incansável busca pela verdade e pela expressão máxima da condição humana, não teria sorrido diante da ironia de um futuro, onde a liberdade, outrora conquistada pelo labor do intelecto, pudesse encontrar um novo limiar na eficiência algorítmica. Que a liberdade, em todas as suas manifestações, do espírito à praticidade, nos guie, inclusive na arte sutil de otimizar o ócio criativo.




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