O CORPO QUE SENTE O TEMPO
- Carlos A. Buckmann
- 24 de out. de 2025
- 3 min de leitura

O CORPO QUE SENTE O TEMPO
Bom dia. Ou talvez boa madrugada, pois o tempo, aqui, já não é o que o relógio marca, mas o que o corpo sente.
Acordo com os ombros enrijecidos, como se carregassem não apenas as horas mal dormidas, mas também os pensamentos que insistiram em não se calar. Levanto-me e, ao caminhar até a janela, percebo que cada passo arrasta consigo não só o peso do sono, mas a inércia de hábitos antigos: a postura curvada diante das telas, a respiração curta sob a ansiedade do prazo, o silêncio forçado onde deveria haver escuta.
É nesse entrelaçamento entre gesto e pensamento que reside a unidade do ser humano. Não somos mente separada de corpo, nem espírito flutuando acima da carne.
Somos um todo em constante diálogo consigo mesmo e, cada gesto cotidiano, por mais banal que pareça, é uma escolha ontológica. Sentar-se com coluna ereta não é apenas uma postura física; é uma postura existencial. Respirar fundo não é apenas oxigenar os pulmões; é abrir espaço para o novo.
O corpo, nesse sentido, é o primeiro filósofo: ele pensa com músculos, sente com nervos, recorda com cicatrizes.
A psicologia clássica, especialmente na tradição fenomenológica de Merleau-Ponty, já nos ensinou que “o corpo é nossa generalidade no mundo”. Ele não é um objeto entre outros, mas o meio pelo qual habitamos a realidade.
Já a psiquiatria contemporânea, sobretudo nas abordagens somáticas e na neurociência afetiva, reconhece que traumas não ficam apenas na memória declarativa, mas se inscrevem na fisiologia, na tensão muscular, na frequência cardíaca, na maneira como os olhos evitam o contato.
O corpo guarda o tempo não como uma linha, mas como uma camada sedimentada de vivências.
Mas a filosofia vai além. Para Nietzsche, “só há realidade onde há corpo”. Ele via na dança, na música, na força física, não meros exercícios estéticos, mas formas de resistência contra a decadência do pensamento abstrato.
Para Spinoza, mente e corpo são dois atributos de uma mesma substância, o que acontece na mente ecoa no corpo, e vice-versa.
E Bergson, com sua noção de duração, nos lembra que o tempo vivido não é o tempo medido, mas aquele que pulsa na consciência corporal, na espera ansiosa, no suspiro aliviado, na lentidão do abraço.
Aqui se impõe, a psicofilosofia, essa ciência que não se contenta em analisar o sintoma, nem em apenas interpretar o mundo, mas em transformar a maneira como nele habitamos.
A psicofilosofia não pergunta apenas “o que você pensa?”, mas “como você respira enquanto pensa?”. Não se limita a diagnosticar a ansiedade, mas investiga como a respiração curta a alimenta, como o movimento interrompido a congela, como o silêncio não vivido a distorce.
Ela propõe práticas corporais não como técnicas de relaxamento, mas como exercícios de verdade, no sentido socrático. Respirar conscientemente é treinar a presença. Caminhar com atenção plena é desacelerar a voracidade do tempo social. Sentar-se em silêncio não é ausência de som, mas presença radical ao que é. Essas práticas são ferramentas psicofilosóficas porque nos devolvem à unidade perdida entre pensar, sentir e agir. Elas nos lembram que a liberdade começa no corpo, e que a opressão muitas vezes começa com um gesto repetido sem consciência.
Vivemos em uma era de hiper conexão e desencarnação. Estamos todos online, mas poucos estão presentes. A mente corre, o corpo resiste, e a alma se perde no meio. Nesse contexto, a psicofilosofia não é um luxo intelectual, mas uma necessidade ética. É uma forma de resistência contra a fragmentação do eu, contra a alienação do próprio corpo, contra a tirania do tempo produtivo que nos rouba o tempo vivido.
Por isso, hoje, ao sentir o sol nos olhos e o chão sob os pés, decido: não mais viver como se o corpo fosse um veículo descartável para a mente. Decido escutá-lo. Decido movê-lo com intenção. Decido respirar como se cada ar fosse um ato de coragem. Porque o tempo não está lá fora, está aqui, pulsando nas veias, nos pulmões, no silêncio entre dois pensamentos. E é nesse corpo-tempo que a vida, enfim, pode ser vivida em sua plena intensidade.
Não espere o futuro para começar.
Comece agora, com um passo, com um suspiro, com um instante de silêncio.
O corpo já sabe o caminho.
Basta ouvi-lo.




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