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O CORPO QUE RESPIRA, O SILÊNCIO QUE CURA

  • Carlos A. Buckmann
  • 14 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

O CORPO QUE RESPIRA, O SILÊNCIO QUE CURA

            O corpo não é uma máquina que me carrega, ele é a própria condição de minha presença no mundo.

            É com ele que toco a terra, sinto o vento, abraço o outro, choro sem palavras. Ele não está em mim; eu sou ele, carne viva, respiração em movimento, fronteira sensível entre o eu e o mundo.

            E, no entanto, vivemos como se habitássemos um apartamento alugado dentro de nós mesmos, ignorando os sinais das paredes rachando, do teto gotejando, do chão tremendo. Até que o corpo, cansado de ser ignorado, grita, com dor, com fadiga, com insônia.

            Mas há outra via: não esperar pelo grito. Escutá-lo antes, nos gestos mais simples.

            Respirar conscientemente, por exemplo, não é apenas oxigenar células. É dizer ao corpo: estou aqui. É interromper, por alguns segundos, a tirania do pensamento acelerado e voltar à raiz da existência: o sopro.

            O toque, nas próprias mãos, no rosto de alguém amado, na casca de uma árvore, não é mero contato físico. É reconhecimento: “você existe, eu existo, estamos juntos neste instante”.

            E o silêncio, não é ausência de som, mas presença plena. É o espaço onde o corpo finalmente pode falar sem ser interrompido pela mente que julga, planeja, compara.

            A psicologia contemporânea redescobriu essa sabedoria ancestral. A abordagem somática, com figuras como Peter Levine e Bessel van der Kolk, mostra que o trauma não reside apenas na memória, mas no corpo, e que a cura passa pela reintegração corporal.

            A atenção plena (mindfulness), baseada em práticas meditativas milenares e validada por neurocientistas como Jon Kabat-Zinn, ensina que estar presente na respiração é um antídoto contra a ansiedade e a dissociação.

            Já a psiquiatria, em suas vertentes mais humanistas, reconhece que muitos transtornos, da depressão à histeria, são, em parte, expressões de corpos que não foram escutados.

            A filosofia moderna, por sua vez, desfez a ilusão cartesiana de que somos “pensamento puro” aprisionado num corpo acidental. Merleau-Ponty, com sua fenomenologia da carne, afirmou que “o corpo é o nosso meio geral de ter um mundo”. Não há percepção, nem emoção, nem pensamento que não passem por ele.

            Foucault, em seus últimos escritos, falava das “tecnologias do corpo” práticas antigas que cuidavam do corpo não para dominá-lo, mas para torná-lo templo da existência ética.

            Nietzsche, sempre à frente, escreveu: “Apenas onde há corpo, há também espírito.” Para ele, a grandeza da alma se media pela capacidade de habitar plenamente a carne.

            É nesse solo fértil que a psicofilosofia planta suas raízes. Ela não propõe técnicas místicas, nem substitui a medicina, propõe gestos de presença.

            A respiração consciente como exercício estoico de retorno ao agora. O toque como ética do encontro, um modo de dizer ao outro: “eu te vejo, inteiro”. O silêncio como espaço socrático onde a alma pode emergir sem máscaras. Para a psicofilosofia, esses gestos simples são atos filosóficos: não explicam o mundo, mas nos reconectam a ele, e a nós mesmos.

            Numa sociedade hiper conectada, mas profundamente dissociada, onde corpos são reduzidos a imagens, performances ou instrumentos de produtividade, essas práticas são revolucionárias. Elas nos lembram que não somos mentes flutuantes em busca de eficiência, mas seres encarnados em busca de sentido. E que a cura muitas vezes não vem de fora, mas do simples ato de voltar a habitar o próprio corpo com ternura.                    

            Hoje, pare. Respire fundo, não para melhorar o desempenho, mas para existir.

            Toque algo, sua pele, a folha de uma planta, a mão de quem está ao seu lado, não como gesto mecânico, mas como ato de reconhecimento. E, por alguns minutos, fique em silêncio. Não para fugir do mundo, mas para ouvir o que seu corpo tem a dizer.

            Porque, no fim, a sabedoria não está apenas nos livros, mas no sopro que entra e sai, no calor da pele, no peso dos pés no chão.

            E às vezes, basta um único gesto simples, feito com atenção plena, para que o corpo, enfim, se sinta em casa.

 

 
 
 

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