O CORPO FALA
- Carlos A. Buckmann
- 23 de set. de 2025
- 4 min de leitura

O CORPO FALA.
Em uma farmácia observei uma cena aparentemente banal: - Uma atendente dizia com entusiasmo ao cliente, voz alta, sorridente, “Boa tarde! Como posso ajudar? Estamos aqui para servir!”. - Mas enquanto falava, não olhava nos olhos. Mantinha o corpo voltado para o lado, como se quisesse escapar. Digitava no caixa com pressa, impaciente.
E quando o cliente perguntou sobre um medicamento, respondeu com frases curtas, sem pausa, como quem cumpre tarefa.
O cliente comprou. Saiu. Mas não sorriu. Não agradeceu. Levou consigo algo mais pesado que o saco de compras: - “a sensação de não ter sido visto.
Antes de qualquer palavra ser pronunciada, já falamos: - Com o olhar. Com a postura. Com o tempo de resposta. Com o gesto mínimo de abrir um sorriso ou cruzar os braços.
A psicologia moderna confirma o óbvio que o corpo sempre soube: mais de 70% da comunicação humana é não verbal.
Estudo clássico de Albert Mehrabian, psicólogo da UCLA, demonstrou que, em mensagens emocionais, apenas 7% do impacto vem das palavras, 38% do tom de voz e impressionantes 55% da linguagem corporal. Ou seja: dizer “bem-vindo” com voz mecânica e olhar vago é o mesmo que dizer: “vá embora”.
Na filosofia, esse fenômeno tem nome: “fenomenologia do corpo* como desenvolvida por Maurice Merleau-Ponty.
Para Ponty, o corpo não é um recipiente da alma, é o primeiro modo de estar no mundo. É através dele que percebemos, desejamos, rejeitamos, acolhemos.
Quando uma atendente inclina levemente a cabeça ao ouvir o cliente, ela está dizendo, sem som: “Você importa”.
Quando evita contato visual, diz: “Você está me interrompendo”.
Ralph Waldo Emerson (1803–1882), ensaísta, poeta e pensador norte-americano, foi uma das vozes centrais do transcendentalismo, movimento que exaltava a intuição, a autenticidade e a integridade moral contra as convenções sociais vazias.
Para Emerson, a verdadeira educação do indivíduo não estava na erudição, mas na coerência entre discurso e existência.
Ele desprezava a hipocrisia, o teatro social, as palavras soltas no ar sem raiz na ação. Num de seus ensaios, escreveu: “O que você é grita tão alto que ninguém escuta o que você diz. “É a mesma ideia, em versão ainda mais crua.
Para ele, o caráter não se declara, se manifesta.
E a sociedade, por mais que finja aceitar discursos bonitos, só respeita quem vive aquilo que prega.
Voltemos à farmácia. Lugar onde a saúde se encontra com a vulnerabilidade. Aonde o cliente chega muitas vezes com dor, medo, dúvida. E onde, portanto, cada micro gesto carrega peso ético.
Vejamos dois cenários:
1. O balconista que diz “pode confiar em mim”, mas hesita ao falar do genérico, olha para o chão, muda o tom de voz. - O cliente sente: insegurança. Resultado: não compra. Porque a atitude negou a palavra.
2. A farmacêutica que não diz nada, mas pega o medicamento, mostra a bula, aponta o princípio ativo, faz contato visual e entrega com as duas mãos. - O cliente sente: autoridade silenciosa. Resultado: compra. E volta. - Porque a atitude confirmou a competência.
Como disse Carl Rogers, psicólogo humanista: - “A congruência entre o que se sente, o que se pensa e o que se expressa é a base da relação terapêutica”. - E, acrescento eu, da relação comercial também.
No varejo de saúde, o cliente não compra apenas um produto. Compra confiança. E confiança não se anuncia, se demonstra. - Com o tempo de espera reduzido. Com o olhar fixo. Com o “posso te ajudar?” dito com o corpo virado para frente, mão aberta, voz calma.
Infelizmente, vejo com frequência o oposto: Lojas com placas de “atendimento personalizado” enquanto o funcionário conversa com o colega de costas para o cliente. - Proprietários que dizem “meu time é meu patrimônio”, mas pagam salários abaixo do mercado e nunca elogiam. Farmácias que anunciam “compromisso com a saúde”, mas têm prateleiras empoeiradas, produtos vencidos expostos, luzes queimadas.
Tudo isso são atos contraditórios. São palavras gritando em vão diante de atitudes que as sepultam.
Como bem observou Byung-Chul Han, filósofo contemporâneo: - "Vivemos na era do espetáculo da empatia, onde todos dizem se importar, mas poucos estão presentes."
E na pequena farmácia, essa ausência de presença é letal. Porque o cliente, mesmo sem saber de psicologia, sente o vazio por trás da fachada.
Se você diz “sou comprometido com o cliente”, mas trata sua equipe com arrogância, então você não é comprometido. Você é cínico.
Se diz “minha farmácia é de confiança”, mas demora três dias para responder um e-mail, então você não é confiável. Você é conveniente.
Se afirma “trabalho com ética”, mas pressiona o funcionário a vender produtos desnecessários, então você não tem ética. Tem lucro mascarado de valor.
As pessoas não lembram suas palavras. Lembram como você as fez se sentir. E isso não depende do que você disse. Depende do que você fez enquanto dizia.
Portanto, pare de polir discursos. Comece a polir atitudes.
Treine sua equipe não apenas em produtos, mas em presença - Nas reuniões, não cobre metas antes de perguntar: - “Como estamos tratando uns aos outros?”
Porque no fim, não é o slogan que fideliza. Não é o desconto que encanta.
É o olhar. O toque. O tempo dado. A paciência real, não fingida.
E quando suas atitudes forem tão coerentes, tão humanas, tão verdadeiras, então, sim, suas palavras poderão ser ouvidas.
Até lá, o mundo só escuta o que você faz. E o que você faz, todos os dias, está escrevendo o destino do seu negócio, sem que você precise dizer uma só palavra.




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