O CORAÇÃO DITA A CANÇÃO
- Carlos A. Buckmann
- 14 de mai.
- 4 min de leitura

O CORAÇÃO DITA A CANÇÃO (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Ângela Ro Ro, sentada ao piano em algum bar da noite maldita, olhos azuis vidrados em alguma dor que só ela sabia cantar: “NÃO HÁ CABEÇA”.
Sua vida foi um torvelinho de excessos, amores tortos, madrugadas sem juízo e ressacas de alma. Diziam que era difícil, que bebia demais, que se entregava a tudo com uma fúria autodestrutiva. Mas é justamente nesse chão movediço que nascem as vozes mais verdadeiras. Ângela não cantava de fora: cantava de dentro, do lodo e do céu.
A arte, para ela, não era refúgio, era o próprio combate. E foi desse combate que brotou uma filosofia em poucos versos, uma sabedoria que a razão jamais alcançaria.
“Não há cabeça que o coração não mande.”
Pascal já suspeitava disso: “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.
Vivemos numa época que idolatra planilhas, metas e controles emocionais. Acreditamos que podemos gerenciar o amor como se gerencia um projeto.
Engano.
Eu, ao menos, nunca consegui.
O coração é um tirano discreto: dá ordens sem avisar, e a cabeça apenas assina os papéis depois do golpe. Quantas decisões “irracionais” tomei na vida? Todas as que valeram a pena. O comando não está no crânio, mas no peito.
Ângela sabia disso porque viveu na própria carne o que a filosofia chama de “afeto”, essa força que nos arrasta para onde a lógica não alcança.
“Não há amor que o ódio não desande.”
Espinosa diria que o amor e o ódio são modulações de um mesmo afeto. A paixão vira ressentimento num átimo. O objeto amado torna-se, com um gesto errado, o alvo de toda a ira contida. E o que é o ódio senão amor ferido?
Andamos por relações líquidas, onde o like vira block, onde o desejo se transmuta em desprezo com um clique. A estrofe de Ângela é um alerta: nenhum amor é tão sólido que não possa desandar. A fragilidade não está nos sentimentos, mas na nossa teimosa esperança de que eles sejam eternos.
Eles não são.
E tá tudo bem.
“Não há bebida que beba a saudade.”
Que eu bem me lembre, e olha que tenho memória de elefante, só Vinícius bebia saudades e amores com uísque e música.
Nietzsche dizia que a arte existe para que não pereçamos da verdade. Pois a saudade é uma verdade que nenhum álcool dissolve.
Ângelea dizia: Já tentei. Já enchi copos, rasguei noites, busquei o fundo da garrafa como quem busca o fundo de um poço. A saudade ficava lá, intacta, rindo de mim.
Ângela sabia: a bebida é um analgésico mentiroso. Ela não cura, apenas embaça. A maldade, então?
“Nem maldade que vença a maldade”
Isso é puro Schopenhauer: o mal só se perpetua quando tenta aniquilar o mal. Violência gera violência. Vingança não liberta, prende. O mundo atual, ensanguentado por ódios recíprocos, prova todos os dias que a maldade não tem antídoto à altura; só o perdão faria o papel, mas esse é outro verso.
“Não há princípio que resista ao fim.”
Heráclito já ria de nós: tudo flui. Até as verdades mais sólidas viram pó. Quantos princípios eu já abandonei? Quantas certezas desmoronaram? O fim é o único princípio universal.
Ironicamente, Ângela canta que
“nem temor ou medo que resida em mim”.
Ela alcançou um ponto raro: a coragem de quem já perdeu tudo e, por isso, nada teme. É a ataraxia dos antigos estoicos, mas sem a frieza; uma coragem ardente, de quem já morreu no amor e ainda assim respira. Em tempos de ansiedade e pânico do futuro, essa estrofe é um soco na cara do medo.
“Eu fui, eu vou te amar vivendo. Eu fui, eu vim do desamor morrendo.”
A dialética é cruel e bela. Amor e desamor não são opostos, mas fases de um mesmo movimento. Foi-se o amor, mas ele volta. Morreu-se de desamor, mas ressuscita-se no próximo olhar.
Ângela capta a circularidade trágica da paixão, e, no meio dela, uma declaração assombrosa:
“E essa tristeza que o amor me deu / É a coisa mais bonita dentro do meu eu.”
Freud chamaria de sublimação: transformar a ferida em algo criativo. Schopenhauer, de resignação estética. Eu chamo de lucidez. A tristeza não é bonita apesar do amor, mas porque foi o amor que a gerou. Uma tristeza sem amor é apenas vazio. A dela (a nossa) é um monumento.
“Que bom, que bom que nunca vai haver talvez / Pra quem tudo na vida sentiu, disse e fez.”
Kierkegaard diria que a dúvida é a paralisia da alma. O “talvez” é o veneno dos indecisos.
Ângela celebra o contrário: a vida como afirmação plena. Sentiu-se, disse-se, fez-se. Sem retorno. Sem margem. É uma ética da intensidade. Prefiro ficar só com minha ilusão, e aqui ela toca no ponto mais delicado. Ilusão, para nós modernos céticos, é defeito. Para ela, é reserva de esperança.
“Que matar a esperança de amar no meu coração.”
Camus, no Mito de Sísifo, disse que é preciso imaginar Sísifo feliz. Ângela vai além: é preciso manter a esperança mesmo sabendo que ela pode ser vã. Porque matá-la é o verdadeiro fim. A ilusão é o último território livre.
Ângela Ro Ro, aquela mulher de noites escuras e voz rasgada, que transformou escândalo em obra, desamor em sabedoria, vício em filosofia. Ela não foi um exemplo de vida reta. Foi um exemplo de vida vivida.
É justamente por isso que sua canção permanece atual. Num mundo que exige cabeças frias e corações mornos, ela vem lembrar que não há cabeça que o coração não mande. Que a tristeza pode ser bela. Que a ilusão, muitas vezes, é o único jeito de não deixar a esperança morrer.
Senta-se ao piano, agora apenas na memória. Os dedos tocam as teclas amareladas.
Eu, cronista de afetos descabelados, agradeço: ela cantou o que eu não ousava pensar.
Prefiro ficar só com minha ilusão.
E a minha ilusão tem nome de canção.
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