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O CONTEÚDO MORAL DA UTOPIA.

  • Carlos A. Buckmann
  • 29 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

O CONTEÚDO MORAL DA UTOPIA: um testamento extraviado

            Como quem revisita um sonho distante, lembro das imagens em preto e branco dos anos 60 e 70. Décadas tumultuadas, sim, mas também profundamente vivas. O mundo parecia despertar de um longo torpor, e a juventude, essa centelha inquieta do espírito humano, saía às ruas com flores, palavras, guitarras e pedras. Em San Francisco, os hippies pregavam o amor livre, recusando a lógica fria da guerra e da produtividade industrial. Em Paris, os estudantes de maio de 1968 erguiam barricadas sob os ecos de Marx, Sartre e Rimbaud, exigindo liberdade, desejo e pensamento. Nas universidades americanas, jovens queimavam bandeiras e alistamentos, clamando pelo fim da carnificina no Vietnã.

            Havia ali uma esperança palpável, quase ingênua, mas real, a crença de que era possível transformar o mundo a partir da consciência, da arte e da ética. A rebelião não era apenas política: era existencial. Lutava-se contra a guerra, contra o autoritarismo, contra o consumo cego e, sobretudo, contra a indiferença.

            Zuenir Ventura, em seu já clássico 1968 – O Ano que Não Terminou, nomeia com exatidão esse legado:

- “O conteúdo moral é a melhor herança que a geração de 68 poderia deixar para um país cada vez mais governado pela falta de memória e pela ausência de ética.”

            Eis aí o ponto nevrálgico da memória histórica: quando ela se perde, perdemos também o sentido do que lutamos para construir.

            Naquele tempo, o cinema e a literatura não eram meros entretenimentos. Eram bússolas morais. Filmes como Z de Costa-Gavras, Apocalypse Now de Coppola, ou If… de Lindsay Anderson, questionavam a autoridade, a guerra e a violência institucionalizada. Escritores como Hesse, Sontag, Pasolini, Caio Fernando Abreu e até o jovem Fernando Gabeira nos ensinavam que viver era mais do que sobreviver, era questionar, amar, recusar-se a obedecer ao inaceitável.

Mas então… onde falhamos?

            Essa é a pergunta que ressoa, como um eco amargo, no meu pensamento. A geração que sonhava com Woodstock parece hoje soterrada sob a poeira dos algoritmos e da desinformação. Os filhos dos revolucionários se tornaram gestores. Muitos se renderam ao sistema que um dia quiseram derrubar. Outros se perderam nos labirintos da ideologia ou do mercado.

            O mundo, ao invés de tornar-se mais justo, parece cada vez mais desigual. A ética, que era a estrela-guia daquela juventude, tornou-se um artigo de luxo. A política converteu-se em espetáculo vulgar. A memória foi diluída por uma avalanche de imagens instantâneas. A indiferença, antes combatida, tornou-se moeda corrente.

            Talvez tenhamos superestimado o poder da indignação e subestimado o apetite do sistema por engolir revoluções e regurgitá-las em forma de moda. Talvez tenhamos querido mudar o mundo sem, antes, mudar verdadeiramente a nós mesmos.

            Ou talvez… talvez o problema tenha sido a crença de que a utopia era um lugar a se chegar, e não uma prática cotidiana de resistência, paciência e escuta.

            Hoje, entre a barbárie dos discursos de ódio, a insensibilidade das elites e a manipulação constante da memória coletiva, resta-nos apenas um fio de esperança: resgatar o conteúdo moral da utopia perdida. Não como um saudosismo estéril, mas como um alicerce invisível de uma nova consciência.

E encerro, inquieto, com a seguinte pergunta: - E se o maior fracasso da nossa geração não foi não termos vencido, mas termos desistido de continuar tentando?

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 

 
 
 

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