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O CLIENTE DESCONFIADO

  • Carlos A. Buckmann
  • 5 de set. de 2025
  • 5 min de leitura

O CLIENTE DESCONFIADO

A Filosofia da Dúvida e a Arte de Construir Confiança.

            Há um tipo de cliente que entra na farmácia como quem pisa em terreno minado: olhar atento, sobrancelhas franzidas, perguntas precisas, voz contida. Ele não escolhe rápido. Não aceita sugestões com facilidade. Quer saber a composição, o laboratório, o preço médio no mercado, se há genérico, se a promoção é real, se o produto foi testado, se a loja tem autorização para vender. 

            É o “cliente desconfiado”. 

            Não é hostil. Não é agressivo. Mas é, acima de tudo, duvidoso.

            E, nesse mundo pós-verdade, onde notícias falsas circulam mais rápido que remédios em promoção, ele não é um caso raro. É um sintoma. É o reflexo de uma sociedade que aprendeu, na marra, a não acreditar.

            A desconfiança, como fenômeno psicológico, não nasce do nada.  Segundo Erich Fromm, a desconfiança é uma resposta à perda de segurança ontológica; ou seja, quando o mundo se torna imprevisível, o indivíduo se retrai em um escudo de ceticismo. 

            Já Zygmunt Bauman, ao falar da “modernidade líquida”, descreve uma sociedade onde os laços são frágeis, as promessas efêmeras, e a confiança, um risco. 

            Nesse contexto, o consumidor não duvida por maldade, duvida por sobrevivência. 

            No Brasil, esse sentimento é ainda mais acentuado. 

            Golpes digitais, medicamentos falsificados, laboratórios com preços abusivos, redes que prometem “menor preço” e depois cobram mais, tudo isso alimenta um campo fértil para a desconfiança crônica. 

            E o cliente desconfiado não é irracional. É um sobrevivente de um sistema que, muitas vezes, falhou com ele.

            Mas aqui está o paradoxo:  esse cliente, apesar de difícil, é um dos mais valiosos por quê?  Porque, uma vez que confia, fica.  Porque ele não é influenciado por modas.  Não muda de loja por um desconto de R$ 0,50.  Ele é fiel não por comodidade, mas por certeza. 

            O desafio, então, não é convencê-lo. É provar, com consistência, que ele pode relaxar. E isso exige uma abordagem estratégica, técnica e profundamente humana.

1. Transparência é Chave: A Verdade como Estratégia: O cliente desconfiado não quer marketing.  Quer dados.  E a transparência não é um gesto de boa vontade, é uma ferramenta de gestão de percepção. Se ele pergunta: “Esse genérico é mesmo igual ao de marca?”, não diga apenas “sim”.  Mostre: - A substância ativa (mesma concentração); - O registro na Anvisa (número visível no sistema); - A origem do laboratório (comprovante de distribuição autorizada); - O preço médio de mercado (comparativo atualizado). Use o sistema de gestão para gerar um relatório rápido.  Imprima.  Entregue.  Aja como um auditor de si mesmo.  Como diz Jürgen Habermas, “a validade de uma afirmação depende da possibilidade de ser questionada e confirmada”.  Ou seja: não basta dizer. É preciso permitir que o outro verifique.

2. Prove seu Valor: A Evidência como Moeda de Troca: A palavra do vendedor, por mais experiente que seja, não basta.  O cliente desconfiado opera no regime da “prova empírica”. Por isso, ofereça: Demonstrações práticas: Mostre como o colírio funciona, como o aplicador da insulina se usa. Testemunhos reais: fotos (com autorização), depoimentos gravados, histórias de clientes que usaram e voltaram; Certificações visíveis: placa do CRF, selo de boas práticas, QR Code que leva ao cadastro da loja na Anvisa; Garantias escritas: “Se não gostar, devolve em 7 dias sem perguntas.”  Cada uma dessas ações é um tijolo na parede da confiança. E, como bem observou o psicólogo Daniel Kahneman, autor de Rápido e Devagar, “o cérebro humano tende a confiar mais em evidências concretas do que em argumentos verbais, especialmente quando está em modo de alerta”. E o cliente desconfiado está sempre em modo de alerta.

3. Paciência e Persistência. A Longa Jornada da Credibilidade: Esse cliente pode perguntar a mesma coisa três vezes. Pode voltar duas vezes na semana só para “ver o preço de novo”.  Pode levar um mês para decidir sobre um suplemento.  E é aí que muitos vendedores desistem.  “Esse aí nunca vai comprar.”  “Só tá perdendo meu tempo.”  Erro grave.  Porque a paciência não é tolerância, é investimento.  Cada interação, mesmo sem venda imediata, é um depósito no “banco da confiança”.  E, um dia, quando ele finalmente decidir, não vai escolher pela promoção.  Vai escolher pela constância.  Como ensina Carl Rogers, “a confiança se constrói no ritmo do outro, não no nosso”.  E o cliente desconfiado tem um ritmo lento.  Mas, quando acelera, vai direto para o fundo da loja e compra tudo.

4. Respeite o Tempo do Cliente: O Poder do Não Apresse: Pressionar um cliente desconfiado é como tentar acalmar um cavalo assustado com gritos.  Piora.  Nunca diga: “É agora ou perde a promoção.”  Isso ativa o mecanismo de defesa.  Ele sai.  E não volta.  Em vez disso, ofereça:  - “Pode levar esse folheto com os preços e comparar.”  - “Se quiser, mando por WhatsApp os detalhes do produto.”  - “Sem pressa. Quando decidir, a gente está aqui.”  Essa postura transmite algo poderoso:  confiança no próprio valor.  Você não precisa forçar porque sabe que, se ele comparar, vai voltar.  E volta.

Outras estratégias valiosas:

- Registre o histórico: se ele volta sempre com as mesmas dúvidas, anote no CRM. Na próxima visita, diga: “Sei que o senhor gosta de ver a origem do laboratório. Hoje temos novo lote, já com o laudo de qualidade.” 

- Use a tecnologia a seu favor: QR Code com ficha técnica do produto, link para vídeos explicativos, integração com apps de comparação de preço. 

- Treine a equipe para não tomar como ataque pessoal: a desconfiança não é contra você. É contra o sistema. Responda com profissionalismo, não com ego.

            O cliente desconfiado é o espelho de um tempo doente.  Um tempo em que promessas são descartáveis, marcas mentem, e o consumidor aprendeu a duvidar de tudo, até do óbvio.  Mas ele também é uma oportunidade.  Porque, em um mercado de vendedores que prometem demais e entregam de menos, quem prova o que diz se torna invencível

            A pequena farmácia não pode competir com o preço das grandes redes em todos os itens. Mas pode competir com credibilidade.  Pode vencer com transparência.  Pode dominar com paciência. 

            E o cliente desconfiado, quando finalmente confia, não é só um comprador.  É um embaixador silencioso.  Ele não grita nas redes.  Mas conta para três pessoas.  E essas três contam para outras três. 

A confiança, uma vez construída, é o ativo mais duradouro que uma farmácia pode ter.  Então, dono, balconista:  não evite o cliente desconfiado. Abrace-o.  Ele é o teste mais difícil.  E a recompensa mais certa.  Porque no fim, não é quem vende mais que vence.  É quem é acreditado

            E quem é acreditado, nunca perde.

 
 
 

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