O CLIENTE APRESSADO.
- Carlos A. Buckmann
- 9 de set. de 2025
- 4 min de leitura

O CLIENTE APRESSADO
A Pressa que Define o Tempo
Ele entra na farmácia como um raio; sem olhar para os lados, sem cumprimentar, direto ao ponto: “Preciso do remédio do meu pai. Já trouxe a receita. Pode ser rápido?” O relógio do celular está visível na mão. O terno amarrotado. O olhar fixo no balcão. Não quer conversa. Não quer promoção. Quer sair em três minutos, ou vai embora. É o cliente apressado.
Não é mal-educado. Não é arrogante. Está, simplesmente, preso no tempo.
Mas será que a pressa é apenas um estado momentâneo, um atraso no trânsito, uma reunião marcada, um filho doente esperando em casa? Ou será que é, como sugere o filósofo Byung-Chul Han, um sintoma da sociedade da performance, onde o tempo deixou de ser um recurso e virou um inimigo?
Na verdade, a pressa tem duas faces. A pontual, passageira, situacional, causada por um imprevisto. E a crônica, estrutural, psicológica, enraizada em uma identidade que se define pela produtividade.
Esse segundo tipo, segundo o psicólogo Mihly Csikszentmihalyi, vive em estado constante de “urgência artificial”: sente-se inútil se não está fazendo algo. Parar é sinônimo de fracasso. Silêncio é perda de tempo. E cada segundo não otimizado é um pecado contra o próprio eu.
Na farmácia, esse perfil é cada vez mais comum. O mundo acelerou. As entregas são em 30 minutos. Os e-mails exigem resposta imediata. E o cliente, mesmo ao comprar um analgésico, traz consigo o peso de uma agenda que nunca termina.
Mas aqui está o paradoxo: quem tem mais pressa é quem menos tolera ineficiência. E, muitas vezes, é justamente nas farmácias, onde o sistema trava, o estoque está desatualizado, o vendedor pergunta “o que o senhor vai levar?” que ele encontra o caos.
O resultado? Ele vai embora. E não volta. Porque, para o apressado, tempo é valor. E perder tempo é ser roubado.
Como Atender Quem Não Tem Tempo?
A resposta não está em correr. Está em organizar o tempo alheio com maestria.
1. Reconheça a Urgência: A Empatia como Primeiro Passo: O erro mais comum é ignorar o sinal. O cliente chega apressado, e o atendente começa com “Bom dia! Tudo bem com o senhor?”. Parece educado. Mas, para o apressado, é desperdício de tempo. A técnica correta é antecipar a necessidade: Assim que ele se aproxima, olhe para o rosto, perceba a tensão, e diga: “Vejo que o senhor está com pressa. Vamos resolver isso rápido. O que precisa?” Essa frase faz milagres.
Por quê?
Porque valida o estado dele. Não o faz sentir-se mal por estar apressado. Pelo contrário: mostra que você entende o jogo. E, como diz Daniel Goleman, “a inteligência emocional começa quando o outro sente que foi visto”.
2. Seja Conciso e Direto: A Economia da Palavra. O apressado não quer um discurso. Quer um atalho. Detalhes sobre composição, modo de uso, laboratório, tudo isso pode vir depois, por e-mail. Agora, ele quer: - O produto; - O preço; - O tempo de entrega (se for pedido); - A forma de pagamento. Fale com frases curtas. Evite rodeios. Não diga: “Esse medicamento é muito bom, tem uma fórmula moderna, o laboratório é renomado…” Diga: “É o mesmo remédio da receita. Temos em estoque. Sai por R$ 48,90. Posso passar no débito? Clareza é cortesia. E, no mundo do apressado, clareza é respeito.
3. Ofereça Soluções Rápidas: O Atendimento Express como Estratégia. A farmácia moderna precisa ter um canal VIP para o tempo escasso. Isso não é luxo. É sobrevivência. Crie um atendimento expresso: - Sinalização clara: “Compra Rápida – Até 3 Minutos”; - Caixa exclusivo para remédios contínuos; - App ou WhatsApp com atendimento agendado: “Chego às 17h15. Pode deixar o Losartana na retirada rápida?”; - Kits prontos: “Pacote Viagem”, “Kit Gripe Relâmpago”, “Primeiros Socorros Escritório”.
Já vi uma farmácia reduzir o tempo médio de atendimento de 8 para 2,3 minutos com um sistema de pré-agendamento por QR Code. O cliente entra, pega o produto na gaveta com seu nome, paga no self-checkout e sai. Sem fila. Sem conversa. Sem estresse. E sabe o que aconteceu? O apressado virou cliente fixo. Porque, para ele, eficiência é fidelização.
4. Acompanhamento Posterior: A Gentileza que Não Ocupa Tempo. O apressado não quer uma consulta agora. Mas pode querer depois.
Então, ao final, diga: “Se o senhor quiser, posso enviar por e-mail as informações sobre o uso correto e os efeitos colaterais. Sem compromisso.” Ou: “Se precisar de um acompanhamento farmacêutico, posso agendar em um horário que caiba na sua agenda.”
Você demonstra cuidado, mas sem invadir o tempo dele. E, como ensina Zygmunt Bauman, “na sociedade líquida, os laços se mantêm não pela proximidade, mas pela disponibilidade discreta”.
A Pressa como Oportunidade Estratégica.
Muitos vendedores veem o apressado como um desafio. Mas ele é, na verdade, um aliado inconsciente da transformação digital e operacional. Porque, se sua farmácia consegue atendê-lo bem, é porque: - O estoque está atualizado; - O sistema funciona; - A equipe é treinada; - Os processos são enxutos. Ou seja: quem atende bem o apressado, atende bem a todos. Além disso, ele é um multiplicador silencioso. Quando diz ao colega: “Fui naquela farmácia e saí em dois minutos com tudo”, está fazendo o melhor tipo de propaganda: rápida, real, sem exagero.
O mundo não vai desacelerar. A pressa não é um acidente. É a marca do tempo em que vivemos. E quem insiste em atender como se fosse 1995, com papéis, filas, conversas desnecessárias, está condenado à irrelevância.
O cliente apressado não é o problema. Ele é o espelho da sua ineficiência. Se ele sai frustrado, não é porque tem pressa demais. É porque você não entendeu que tempo é o novo luxo.
Então, pare de reclamar da pressa alheia. Comece a dominar o tempo como ativo estratégico. Crie canais rápidos. Treine sua equipe para ser ágil e precisa. Use tecnologia para antecipar necessidades. E transforme a pressa do cliente em oportunidade de excelência operacional. Porque, no fim, não é quem tem mais produtos que vence. Nem quem tem menor preço. É quem respeita o tempo do outro, que conquista não só a venda, mas a lealdade no mundo acelerado.
E nesse mundo, cada segundo conta. E cada segundo bem usado é um passo rumo ao futuro.




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