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O CARIOCA DO MUNDO

  • Carlos A. Buckmann
  • 25 de mai.
  • 4 min de leitura

O CARIOCA DO MUNDO (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Tom, nasceu no Rio de Janeiro em 1927, numa casa de classe média em Ipanema. Pianista, arranjador, maestro. Mas acima de tudo, um poeta que achou na música o caminho para dizer o indizível.

            Parceiro de Vinicius de Moraes, criou a bossa nova, essa filosofia disfarçada de suavidade.

            Em 1972, já maduro, lançou “Águas de Março”, uma canção que é um tratado sobre o ser e o não ser. A MPB, nela, atinge o ponto onde a simplicidade é a forma mais alta da reflexão.

            “É pau, é pedra, é o fim do caminho / É um resto de toco, é um pouco sozinho”

            O fim do caminho. Heidegger diria que o ser-para-a-morte é a condição que nos torna autênticos. Tom começa pelo fim. Mas não há luto, há enumeração. Pau, pedra, toco. Coisas mínimas, abandonadas. O “um pouco sozinho” é a solidão ontológica: nascemos sozinhos, caminhamos sozinhos, e o fim do caminho é só nosso. Ao ouvir isso, sinto o peso dos dias.

            “É um caco de vidro, é a vida, é o sol / É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol”

            Vida e morte como objetos corriqueiros. O caco de vidro e a noite têm o mesmo estatuto. Não há hierarquia entre as substâncias, tudo é expressão de uma única natureza. Aqui, a natureza é uma lista de feira. O anzol fisga a morte, mas a vida também é fisgada. Não há drama, há fato.

            “É o mistério profundo, é o queira ou não queira”

            Agora a filosofia se torna imperativa. Schopenhauer reconheceria aí “a Vontade cega que move o mundo”. O mistério profundo não é algo que se desvenda, é algo que se aceita. Tom não pergunta, apenas lista. E ao listar, ele nomeia o inominável.

            “É a chuva chovendo, é conversa ribeira / Das águas de março, é o fim da canseira”

            A chuva chovendo, é um pleonasmo genial. A coisa é ela mesma, sem adjetivos. As águas de março, no Brasil, são as chuvas que fecham o verão. Elas trazem o fim da canseira: a exaustão dos meses quentes, a poeira que se transforma em lama, o cansaço que se dissolve na água. Nietzsche falaria do eterno retorno: tudo volta, mas a volta é um alívio. O que cansa é a repetição; o que salva é o ritmo.

            “É o pé, é o chão, é a marcha estradeira / Passarinho na mão, pedra de atiradeira”

            O pé e o chão. Merleau-Ponty, fenomenólogo do corpo, ensinou que somos nosso próprio caminhar. A marcha estradeira é a existência como deslocamento. Passarinho na mão; a captura do efêmero. Pedra de atiradeira; a violência também é um objeto. Tom não julga, apenas mostra. A vida é isso: ter um passarinho e uma pedra, o cuidado e o gesto brusco.

            “É o fundo do poço, é o fim do caminho / No rosto um desgosto, é um pouco sozinho”

            O verso se repete, mas agora com acréscimo: o desgosto no rosto. Sartre, em “A Náusea”, descreveu o gosto do mundo que se revela como excesso. O fundo do poço não é metáfora, é o lugar onde os objetos perdem seu nome e se tornam apenas presença. Tom, ao cantar, desce ao poço com a mesma naturalidade com que sobe a ladeira.

            “É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando / É a luz da manhã, é o tijolo chegando”

            A prata brilhando, o instante fugidio. A luz da manhã, o recomeço. E o tijolo chegando, o trabalho, a construção. Bergson distinguiria o tempo cronológico do tempo vivido. Aqui, o tempo vivido é uma sequência de flashes. O peixe, o gesto, a prata, a luz, o tijolo: tudo coexiste na mesma duração.

            “É o carro enguiçado, é a lama, é a lama”

            A repetição de “lama” é o mundo que emperra. O carro enguiçado é a frustração cotidiana. Mas a lama, ao se repetir, vira ritmo. Tom, sem dizer uma palavra política, mostra o atolamento da vida simples. O pescador, o violeiro, o trabalhador, todos conhecem a lama.

            “São as águas de março fechando o verão / É a promessa de vida no teu coração”

            O refrão que recicla a existência. As águas de março fecham o verão, terminam uma estação, abrem outra. A promessa de vida no coração não é otimismo barato. É a constatação de que, depois do pau, da pedra, do caco, do desgosto, ainda há um coração batendo. Heráclito, o filósofo do devir, dizia que o rio é sempre novo. As águas de março são o mesmo rio e outro rio. Elas levam os detritos, mas trazem o barro fértil.

            Tom Jobim, o carioca que amava as montanhas e o mar, compôs essa letra numa época em que o Brasil vivia o chumbo da ditadura. Ele não fez protesto explícito. Em vez disso, inventou uma lista de coisas. E nessa lista, o mundano se tornou sagrado. O pau, a pedra, o caco, o prego, o peixe, a lama, a luz. Tudo é resto, tudo é começo.

            A vida se recicla com as águas de março porque as águas não perguntam: elas apenas vêm. E ao vir, lavam a canseira, e deixam a promessa.

            Quando ouço “é pau, é pedra”, não ouço desolação. Ouço o inventário do que me resta.

            E o que resta é tudo.

            O cronista, como o violeiro de Edu Lobo, como o pescador de Iemanjá, como o guerreiro menino de Gonzaguinha, também chora.

            Mas chora porque as águas chegam.

            E nelas, o fim do caminho é apenas o começo de outro.

            Promessa de vida.

            Sempre.

 

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