O CANSAÇO DO NADA FAZER
- Carlos A. Buckmann
- 3 de out. de 2025
- 3 min de leitura

O CANSAÇO DE NADA FAZER
Escrevo porque não posso deixar de escrever. Não é vaidade, nem ambição literária, é sobrevivência. Não do corpo, que se alimenta com pão e água, mas da alma, que se nutre de sentido.
Quando o mundo ao redor se cala, quando as ruas se esvaziam de urgência e até o relógio parece hesitar em marcar o tempo, a escrita se impõe como o único ofício que me impede de cair no abismo do nada. E é justamente nesse abismo que Thomas Paine, o revolucionário inglês que ajudou a forjar as ideias que incendiaram a América e a França no século XVIII, nos adverte com uma ironia cortante:
- “Não fazer nada é o trabalho mais cansativo do mundo, pois você não pode se demitir e descansar!”
Paine, nascido em 1737, foi um homem de ação e ideias. Ferreiro, “alfândeguista”, jornalista, panfletista, jamais foi um contemplativo inerte. Sua vida foi um exercício constante de transformar o pensamento em movimento, a palavra em revolução. - Exilado, preso, esquecido em vida, mas imortalizado pela força de suas ideias, ele sabia, por experiência própria, que a inércia não é descanso: é um fardo invisível que pesa mais do que qualquer labuta. A inatividade, longe de ser repouso, é uma prisão sem grades, onde o tempo se arrasta como em areia movediça.
Na minha própria vida, sinto essa verdade com frequência. Há dias em que o mundo parece exigir silêncio, dias de espera, de luto, de incerteza. Nessas ocasiões, o corpo descansa, mas a mente se agita, inquieta, como se a ausência de tarefa fosse uma tarefa em si.
Freud, em seus escritos sobre o mal-estar na civilização, já apontava que o ser humano precisa de um “trabalho psíquico” contínuo para manter a sanidade. Jung diria que, sem um mito pessoal a perseguir, a alma definha. E é aí que a escrita entra: não como ofício glorioso, mas como remédio contra o vazio.
Essa filosofia se estende à sociedade e aos negócios com uma força surpreendente. Vivemos numa era que glorifica a produtividade, mas confunde movimento com propósito. Muitos correm sem rumo, ocupados demais para serem úteis. Outros, paralisados pelo medo ou pela indecisão, afundam na apatia, e é nesse limbo que o cansaço de Paine se manifesta com mais crueldade.
Empresas que não inovam, governos que não decidem, indivíduos que adiam sonhos: todos são vítimas desse trabalho invisível de não fazer nada. Como bem observou Hannah Arendt, a inação política é uma forma de violência passiva, ela permite que o mal prospere.
Contraponto necessário a essa visão é a obra de Domenico De Masi, especialmente em O Ócio Criativo. Para De Masi, o ócio não é preguiça, mas espaço de liberdade onde a criatividade floresce. Concordo, mas com um matiz. O ócio criativo exige intencionalidade; é um “não fazer” ativo, um recuo estratégico para melhor avançar. Já o “não fazer” de que fala Paine é involuntário, passivo, desprovido de escolha. Um é descanso com propósito; o outro, prisão sem sentença.
Outros pensadores ecoam essa tensão. Montaigne escrevia ensaios para “pintar-se a si mesmo”, não por vaidade, mas para não se perder. Nietzsche via na inatividade forçada o berço do ressentimento. E até o poeta Rilke, em suas “Cartas a um Jovem Poeta”, insistia: “Se sua vida cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse; acuse a si mesmo por não ser poeta suficiente para evocar suas riquezas.” Escrever, então, é um ato de resistência, contra o tédio, contra o esquecimento, contra a morte lenta da alma.
Mas a escrita, por si só, não basta. Ela clama por leitura. Não aquela leitura voraz, ansiosa por conteúdo, mas a leitura lenta, reflexiva, que permite ao outro habitar nosso silêncio. A arte de escrever só se completa quando há quem leia com a mesma intensidade com que se escreveu.
Hoje, porém, vivemos uma paradoxal epidemia de palavras: bilhões de textos circulam diariamente, mas poucos são lidos de verdade. Escrevemos para não enlouquecer; lemos para não ficarmos sozinhos.
Assim, volto à minha mesa, ao meu caderno, ao meu teclado. Não porque tenho algo extraordinário a dizer, mas porque, se não disser nada, o nada me dirá tudo, e será exaustivo.




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