O BRAÇO INVISÍVEL DA IMAGINAÇÃO
- Carlos A. Buckmann
- 17 de mai. de 2025
- 4 min de leitura

O BRAÇO INVISÍVEL DA IMAGINAÇÃO
Jean-Paul Sartre, filósofo francês do século XX, nasceu em 1905 e morreu em 1980, mas sua obra ainda respira entre nós com inquietante lucidez. Figura central do existencialismo, Sartre foi dramaturgo, romancista e crítico da realidade, sempre disposto a dissecar a condição humana com um olhar afiado e, por vezes, incômodo. Autor de obras seminais como "O Ser e o Nada" e "A Náusea", Sartre legou-nos um pensamento denso sobre a liberdade, a responsabilidade e a consciência. Em minha modesta morada intelectual, debruço-me hoje sobre uma assertiva Sartre, cuja pena incisiva e olhar arguto perscrutaram as profundezas da condição humana. “A imaginação é como um braço extra, com o qual você pode agarrar coisas que de outra forma não estariam ao seu alcance.” Essa imagem, quase corporal, da imaginação como extensão do próprio ser, serve de ponto de partida para uma reflexão que me é tão pessoal quanto universal.
Imaginar é, antes de tudo, sobreviver com elegância. A imaginação foi o que nos arrancou das cavernas e nos colocou nas bibliotecas. Foi com ela que o homem primitivo desenhou nas paredes de pedra as primeiras figuras rupestres com xamãs e bisões, projetando no mundo um sentido para o invisível. Sem a imaginação, o fogo seria apenas calor e não lar; a roda, apenas curva, e não caminho. A linguagem, que é a espinha dorsal da civilização, nasceu do desejo de nomear o que só se podia sentir. De fato, a trajetória da humanidade é esculpida pela imaginação. Desde as primeiras faíscas provocadas por pedras lascadas até a concepção de cidades flutuantes, tudo começou na mente de alguém que ousou enxergar além da obviedade. Sem a capacidade imaginativa, o Homo Sapiens seria apenas mais um animal entre tantos, preso ao instinto e incapaz de erguer civilizações, criar arte ou desafiar as leis da física.
Lembro-me da minha infância com um sorriso indulgente: transformava a vassoura da minha avó em cavalo de guerra, o lençol do armário em manto de rei, e os grãos de arroz no prato se tornavam soldados em batalha. O mundo real era apenas o esboço de um universo maior, muito mais interessante, pintado com as tintas da minha mente. Toda criança nasce com esse “braço extra” funcionando a todo vapor. Infelizmente, ao crescer, muitos o deixam atrofiar, como se a imaginação fosse uma doença da juventude e não uma virtude da maturidade.
Mas o que seríamos sem ela? Robôs com carteira de identidade. Homo Sapiens sem o “sapiens”. Seríamos seres de carne e cálculo, movidos apenas pela repetição das rotinas. O amor, a arte, a política, o próprio conceito de “futuro” seriam impossíveis. Afinal, quem planta uma árvore senão porque imagina a sombra? - Se, por um momento, pudéssemos visualizar um mundo desprovido de imaginação, teríamos um planeta seco, sem música, sem sonhos, sem descobertas. Um mundo feito apenas de funções mecânicas e rotinas sem cor.
Sartre não estava sozinho. Albert Einstein disse que “a imaginação é mais importante que o conhecimento”. Clarice Lispector escreveu que “imaginar é quase viver”. E Machado de Assis, com ironia refinada, criou um narrador que falava com defuntos — o que, convenhamos, requer um braço imaginativo bastante musculoso. Leonardo da Vinci, com suas engenhocas futuristas, provou que imaginar é antecipar o amanhã. Machado de Assis nos mostrou que a realidade, quando filtrada pela criatividade, ganha novas camadas de significado. A imaginação também fundou impérios comerciais. Steve Jobs visualizou um telefone sem teclado quando todos ainda apertavam teclas físicas. Walt Disney olhou um rato e viu um império de entretenimento. A Amazon começou como uma livraria virtual — algo que, na época, parecia tão inútil quanto vender gelo para esquimós. O que moveu essas pessoas? Um braço invisível, capaz de tocar o intangível antes que ele se materializasse.
E é aqui que volto meus olhos para os pequenos negócios, especialmente as pequenas farmácias, como a de Jorge. - Ele sempre teve tino para os remédios, mas foi a imaginação que o salvou da falência. Quando percebeu que os vizinhos precisavam mais de cuidados do que de comprimidos, criou um “balcão da saúde”, onde as pessoas conversavam, recebiam orientação e um cafezinho. Imaginou a farmácia como extensão da casa e, assim, fidelizou clientes que antes compravam por conveniência. Hoje, sua farmácia é quase um confessionário com prateleiras.
Para as pequenas e médias empresas (PMEs), e em particular para as pequenas farmácias, a imaginação na gestão de pessoas e dos negócios pode ser um diferencial competitivo crucial. Em vez de se aterem a modelos tradicionais, os gestores podem usar a imaginação para criar um ambiente de trabalho mais engajador e motivador, incentivando a criatividade e a colaboração entre os funcionários. Na gestão dos negócios, a imaginação pode levar à identificação de nichos de mercado inexplorados, à criação de serviços personalizados e à implementação de estratégias de marketing inovadoras que se destaquem da concorrência.
A gestão de pessoas, nesse contexto, exige o mesmo músculo criativo. Saber que a funcionária que chega atrasada talvez esteja cuidando da mãe doente exige empatia, que é imaginação aplicada ao outro. Liderar não é apenas delegar tarefas, mas imaginar o potencial escondido em cada colaborador.
Hoje, ao ver o mundo se tornar cada vez mais binário, digital e pragmático, defendo com mais afinco o poder da imaginação. Ela é nossa última utopia, nosso primeiro gesto criativo e nossa melhor chance de futuro.
E se tudo mais falhar, imaginemos juntos que a realidade é apenas um rascunho mal escrito — que cabe a nós reescrever, com um pouco mais de cor, de humor e, quem sabe, com um braço a mais. Ou talvez, a realidade seja apenas uma falta de imaginação mais persistente. - Porque, no fim das contas, quem não tem imaginação... compra farmácia e vende só aspirina.




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