O BALANÇO E A VERGASTA
- Carlos A. Buckmann
- 22 de mai.
- 3 min de leitura

O BALANÇO E A VERGASTA. (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Edu Lobo, menino de olhar manso e violão certeiro, nos festivais da Record.
Era 1965, “Arrastão” com Elis arrastava multidões. Depois “Ponteio”, com MPB-4, prêmio no III Festival. Mas foi em 1968, talvez, que ele cantou “Upa Neguinho”, mais uma vez pela voz inconfundível de Elis Regina.
Não com a fúria de um protesto explícito, a ditadura já vigiava, mas com a delicadeza de quem sabe que a filosofia cabe numa batida de capoeira. E a MPB, essa mestra, sempre nos ensinou que o canto é também arma.
“Upa, neguinho na estrada / Upa, pra lá e pra cá”
Heidegger diria que o ser-no-mundo se revela no movimento. O neguinho começa a andar, e a estrada, ali, não é escolha; é destino. Ele vai pra lá e pra cá como o trabalhador que vagueia entre o morro e o asfalto, entre a feira e a obra.
A virgem Maria é invocada no espanto:
“Virge! Que coisa mais linda!”.
É linda, sim, a primeira travessia. Mas não se engane, a estrada é feita de pedras que outros jogam.
“Começando a andar / E já começa apanhar...”
Aí está o golpe seco. A criança mal equilibra os passos, e já recebe a vergasta. Não é castigo, é método.
O preconceito racial, enraizado como praga, não espera o entendimento; ele age. Frantz Fanon descreveu o olhar que esmaga: o negro, ao nascer, já é visto como ameaça. Apanha por andar, apanha por estar, apanha por ser. A escravidão foi abolida pela Lei Áurea em 1888, mas não no corpo do neguinho que ousa ocupar a calçada.
“Cresce, neguinho / E me abraça / Cresce e me ensina a cantar”
Pedir o abraço, gesto de quem reconhece que o outro tem algo a dar. Paulo Freire, na pedagogia do oprimido, ensinaria que o saber não vem de cima, mas da luta. O neguinho que cresce apanhando aprende a cantar não apesar da dor, mas com ela. A música, a capoeira, a ginga: tudo isso é resposta. Ele me ensina, a mim cronista, que a beleza nasce do barro.
“Eu vim de tanta desgraça / Mas muito te posso ensinar”
Edu Lobo põe na boca do neguinho uma ancestralidade trágica. A desgraça é o navio negreiro, a senzala, o tronco, o açoite. Mas não é só isso. É também a memória que insiste em ser esquecida. Lélia Gonzalez chamava isso de “pretuguês”, uma forma de saber que o colonizador não pode nomear.
O que ele pode ensinar? Capoeira, que é luta disfarçada de dança. Ziquizira, palavra que alguns dizem ser trança, amarração, ou talvez um tipo de maldição. Valentia, que não é agressão, é resistência.
“Mas liberdade / Só posso esperar...”
Não é conformismo, é constatação. A liberdade, para o negro neste país, nunca é dada. É esperada como se espera a chuva no sertão: sabendo que pode não vir. Foucault, em “VIGIAR E PUNIR” mostraria que o poder disciplinar não precisa de correntes; basta a vigilância, a humilhação cotidiana, a vaga negada, a abordagem violenta.
Para o neguinho, pode-se ensinar tudo, menos a liberdade, porque essa ele ainda não teve. A lei a aboliu, a vida não.
“Patapatri tri tri tri tri / Tri Badabá!”
A música termina com a onomatopeia do berimbau ou do coração acelerado.
Não é final feliz. É um ritmo que continua, como a caminhada na estrada.
O neguinho cresceu, apanhou, aprendeu a cantar, ensinou o que pôde. Mas a liberdade ficou no horizonte. Sísifo, de Camus, empurra a pedra; o neguinho empurra a própria existência.
Edu Lobo, no festival, sob luzes de estúdio, cantou essa doçura amarga. A plateia aplaudiu o balanço. Mas quantos ouviram a vergasta?
A crônica, hoje, repete: começar a andar é lindo. É lindo também o abraço. Porém, enquanto o menino negro ainda espera a liberdade que a lei lhe prometeu, e a vida lhe nega, o meu papel é não calar o ritmo.
Porque o “patapatri” do berimbau é, também, o barulho dos passos de quem, mesmo apanhando, insiste em andar.
E em ensinar.
(*) Assista o clip no YouTube:




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