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O AVESSO DO MEU CORAÇÃO

  • Carlos A. Buckmann
  • 14 de jun.
  • 4 min de leitura

O AVESSO DO MEU CORAÇÃO (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Chego de um sonho feliz de cidade, onde o tempo era outro e as esquinas tinham cheiro de manga. Mas aqui, a selva de cimento me engoliu sem mastigar.

            Nos primeiros dias, nada entendi. A dura poesia concreta das tuas esquinas me golpeava como um verso branco sem rima. A deselegância discreta de tuas meninas, tão donas de si, tão frias na leveza, me fazia falta de um abraço quente.

            E o assombro era tanto que eu, migrante, me vi obrigado a aprender depressa: sobreviver é se fazer avesso do que se foi. Cada farol vermelho, cada viaduto, cada placa piscando “Ipiranga” e “São João” eram lições de um idioma que não consta em dicionário, o idioma da grana que ergue e destrói coisas belas.

            Mas há algo que o migrante descobre nas madrugadas de garoa: o coração é um órgão teimoso. Ele se recusa a morrer de nostalgia. E, pouco a pouco, ao cruzar de novo a Ipiranga e a São João, sinto uma centelha, não de saudade, mas de reconhecimento. Como se a cidade, depois de me esbofetear, me oferecesse um ponto de fuga.

            É nesse instante que me lembro de Caetano, também baiano, também assombrado. Ele chegou e nada entendeu. E ainda não havia para ele Rita Lee, a mais completa tradução daquela estranheza. Mas, do mesmo espanto, ele extraiu lirismo. Não porque a cidade se tornou bonita, ela não se tornou, mas porque ele aprendeu a ver o avesso do avesso.

            “Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto / Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto”

            Espelho é uma mentira confortável. Quem chega de fora procura seu próprio rosto nas vitrines, nos rostos apressados, nos grafites. Não encontra.

            Nietzsche sabia: quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você. Mas aqui o abismo não me devolve o olhar, devolve um estranho.

            Então chamo de feio, de mau gosto, tudo o que não me reconhece.

            Porém, só acha feio o que não é espelho. A cidade recusa ser meu reflexo. E isso aterra a mente que ainda não é mesmo velha, que ainda espera que o mundo seja uma extensão de seu umbigo.

            “Nada do que não era antes quando não somos mutantes”

            Mutantes são os que aceitam a metamorfose. A mutação aqui é violenta: o migrante deixa de ser nordestino para virar “favelado”, “subemprego”, “estatística”. Resta, porém, a potência de ainda não ser o que nos querem. Se não somos mutantes, então somos nada. E eu prefiro ser o nada que se transforma do que o algo que petrifica.

            “E foste um difícil começo / Afasta o que não conheço”

            São Paulo, foste um parto sem anestesia. Cada avenida era um diagnóstico. A sensação de não estar em casa no mundo. E aqui não há casa. Há apenas a urgência de sobreviver ao que não se conhece. O migrante aprende a afastar o passado como quem afasta um prato estragado. Mas o passado insiste, cheira a coentro e forró. Então a cidade me ensina a saudade como amputação: dói, mas segue.

            “Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso / Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas / Da força da grana que ergue e destrói coisas belas / Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas”

            O avesso do avesso é a própria lógica da inversão: o oprimido faz fila, o dinheiro constrói um edifício e amanhã o demole, a fumaça apaga as estrelas mas também ilumina os becos. Não há síntese, só contradição.

            É nesse turbilhão que Caetano encontra poesia, não apesar da feiura, mas através dela. Ele não romantiza a favela; ele a coloca como verso. E eu, migrante, começo a entender: a realidade não é o que me acolhe; é o que me desafia a nomeá-la.

            “Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços / Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva / Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba / Mais possível novo quilombo de Zumbi”

            No avesso mais cruel, algo germina. A utopia concreta que se faz possível mesmo no inferno. E São Paulo, contra tudo, pariu poetas de campos que não existem, oficinas de florestas verticais, deuses da chuva que insistem em molhar asfalto.

            O túmulo do samba? Talvez. Mas também o novo quilombo de Zumbi, onde os novos baianos passeiam na garoa, onde eu posso te curtir numa boa. Não é conciliação. É resistência lírica.

            O espírito do migrante, depois do assombro, não se adequa, se transforma. Adequar seria aceitar a selva. Transformar é aprender a ver no cinza um tom de breu que pode virar noite de poesia.

            A mesma esquina da Ipiranga com a São João, que antes me provocava vertigem, hoje me provoca uma alegria tensa. Porque ali, naquele cruzamento exato, alguma coisa acontece no meu coração, não o coração mole da saudade, mas o coração duro de quem, tendo sido avesso, agora entende que o avesso do avesso ainda é verso.

            Assim, caminhando sob a feia fumaça que apaga as estrelas, o eu nordestino, sinto que aprendi a chamar-te de realidade.

            Não por amor.

            Por poesia.

(*) Assista o clipe no YouTube

 
 
 

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