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O ARTESANATO DO SER E A GÊNESE DO SUCESSO

  • Carlos A. Buckmann
  • 3 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

O ARTESANATO DO SER E A GÊNESE DO SUCESSO

            Recebi uma mensagem de um cliente em “estado de choque”:

            - “Vou desistir de tudo e começar do zero”.

            Respondi com este exercício de reflexão com o paradigma da materialidade:

            Se desejo dar forma a uma mesa, uma estrutura que suporta e serve, necessito, antes de tudo, da matéria-prima. Não importa quão sofisticada seja minha ideia, quão detalhado seja o meu desenho mental: sem o carvalho maciço, o pinho rústico ou o aço frio, a mesa permanece no reino da mera potencialidade, uma sombra platônica.

            A concretude exige um ponto de partida palpável, uma base ontológica para a manifestação.

            Neste ponto, a sabedoria ancestral ressoa com uma clareza atemporal. É a voz de Parmênides de Eleia que se impõe, o pai do monismo, cuja máxima ecoa como um trovão no abismo da criação:” De nihilo nihil fit”, "Nada surge do nada".

            Para o pensador eleata, o Ser é eterno, imóvel, incriado e imperecível. A mudança e o vir-a-ser são ilusões sensoriais, pois se algo surgisse, viria necessariamente do Não-Ser, do Vazio. E o Vazio, o Não-Ser, é logicamente impensável e, portanto, inexistente. Assim, tudo o que é, já é de alguma forma. A criação não é um milagre do zero, mas uma transmutação da matéria preexistente.

            Essa verdade filosófica não se restringe ao cosmos, mas desce à ágora dos negócios e da existência. Como diria o poeta romano Lucrécio, em sua tentativa de traduzir a física epicurista, “a natureza trabalha com o que já existe”. Não há ex nihilo (do nada) no mercado.

            O mundo empresarial é o laboratório moderno da tese parmenidiana.

            Uma gigante como a Tesla não "surgiu do nada" no setor automotivo; ela se alicerçou sobre a matéria bruta da engenharia elétrica preexistente, sobre a infraestrutura de baterias desenvolvida pela ciência e sobre um capital financeiro e humano colossal.

            A Apple, antes de revolucionar a comunicação, apoiou-se na microeletrônica, nos chips e nos princípios de design já estabelecidos. Seu gênio foi a recombinação sofisticada da matéria-prima intelectual e tecnológica.

            Quando olhamos para as startups, a ilusão da "ideia genial que brota do nada" é sedutora, mas falaciosa. A matéria-prima de uma startup é, primariamente:

            O Conhecimento (o Logos): O insight sobre uma dor de mercado ou uma ineficiência sistêmica.

            O Capital Humano (o Ethos): A equipe fundadora, sua experiência, sua rede de contatos.

            O Capital de Risco (o Chrematistiké): O investimento inicial que permite o tempo de gestação.

            A startup é o vir-a-ser do capital intelectual e financeiro já acumulado. O novo produto não é o nada transformado em algo, mas sim o conhecimento transformado em solução.

            Então partimos para o Desafio do Ser em um Mercado Mutável.

            Eis que a reflexão nos conduz ao chão de loja, à realidade microcósmica da pequena farmácia independente. Neste mercado, esmagado pela escala das grandes redes e pela ditadura dos preços, o dilema parmenidiano se agrava: como crescer, como ser mais, se a matéria-prima (o capital) é escassa?

            Aqui, a criatividade se torna a única fonte sustentável de "matéria-prima". O pequeno empreendedor não pode esperar um maná do céu; ele deve fazer o máximo com o Ser que já possui. O crescimento deixa de ser um ato de adição externa e passa a ser um ato de otimização interna, uma reorganização holística do que já está lá.

            É imperativo aplicar o princípio da transmutação aos pontos cardeais do negócio:

            Visual (A Aparência): O estoque apertado se torna uma vitrine curada. A iluminação simples se transforma em um foco estratégico. O visual não exige grandes reformas, mas sim o cuidado estético que demonstra respeito pelo cliente.

            Equipe (O Motor Ético): O pequeno quadro de funcionários não é uma fraqueza, mas uma oportunidade para o treinamento intensivo e a personalização do atendimento. A matéria-prima aqui é a relação humana, o tratamento nominal que a grande rede não pode replicar.

            Estoque (A Essência): Não se pode competir em volume. Compete-se em inteligência. O estoque deve ser o reflexo cirúrgico das necessidades da comunidade, evitando o capital morto e privilegiando a rotatividade.

            Mix de Produtos (A Diversificação): A farmácia deve evoluir para um centro de bem-estar. O que você já tem? Espaço. O que você já sabe? Saúde. Oferecer serviços como aplicação de injetáveis, telemedicina ou consultoria farmacêutica é usar o conhecimento existente (o phármakon do profissional) para gerar novo valor.

            Despesas (A Disciplina Estoica): O controle rigoroso, a identificação e a eliminação do desperdício são a economia da forma, garantindo que o Ser da empresa não seja minado pela fuga da substância.

            Não se trata de criar dinheiro ou clientes do nada, mas de transformar o potencial latente (o bom atendimento, o conhecimento técnico, a proximidade comunitária) em receita tangível. É o princípio parmenidiano aplicado ao empreendedorismo de subsistência.             

            Portanto, se você se encontra na encruzilhada de um negócio que patina, ou na fase embrionária de um projeto, abandone a quimera do “ex nihilo”.

            Não espere pelo golpe de sorte que criará a solução do ar rarefeito. A crise, seja ela filosófica ou financeira, é a negação do movimento fácil, um convite à reflexão sobre a base.

            O que você já tem? Qual é a sua matéria-prima mais negligenciada? É o tempo, a experiência, o conhecimento ou a lealdade de seus primeiros clientes?

            O sucesso não é a gênese do novo, mas a metamorfose magistral do existente.

            Seja um alquimista. Pegue o chumbo do seu capital limitado, da sua equipe reduzida e do seu tempo escasso, e, através do fogo da criatividade e da disciplina, transmutando-o no ouro do valor singular.

            O Ser é o limite, mas também a infinita possibilidade.

‘           Não busque o nada. Transmute o que já é.

 
 
 

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