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O ANDAR PENSANTE E A ARTE DA DESCOBERTA

  • Carlos A. Buckmann
  • 5 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

O ANDAR PENSANTE E A ARTE DA DESCOBERTA

            A notícia me alcançou com a doce ressonância de uma verdade há muito intuída, mas agora submetida ao rigor do método.

            A ciência moderna, essa incessante mineradora da experiência humana, acaba de endossar o que os grandes espíritos parecem ter sabido por instinto: o movimento liberta a mente.

            Segundo os pesquisadores de Stanford, caminhar não é apenas um ato de saúde física, mas um catalisador potentíssimo da criatividade, elevando a produção de ideias em impressionantes 60%. O chão que se pisa, seja um tapete interno ou a calçada sob o sol, é secundário; o que importa é o andar.

            O que me fascina, para além dos números, duas vezes mais ideias criativas geradas, 100% dos caminhantes produzindo analogias de alta qualidade, é a natureza do pensamento que a caminhada favorece.

            Não é o pensamento focado, o convergente, aquele que busca a resposta única e correta, o ponto final da equação. Não. A marcha auxilia a mente na exploração, na geração de possibilidades, nos estágios iniciais, fluidos e generosos, onde a realidade se permite ser plástica e a imaginação, selvagem. O caminhar é, portanto, a musa do pensamento divergente.

            Não posso ler esses dados sem que meu espírito se volte imediatamente para Königsberg e para a figura monumental de Immanuel Kant. O filósofo da razão pura e da moralidade rigorosa era a própria encarnação da regularidade. Suas famosas caminhadas vespertinas (e, por extensão, as matinais que precediam a jornada de trabalho, se as tivesse) eram tão pontuais que a vizinhança acertava o relógio pela sua passagem.

            Por anos, vimos essa rotina como a metáfora máxima da disciplina e da ordem que Kant buscava impor à própria metafísica. Mas, à luz da pesquisa de Oppezzo e Schwartz, o caminhar do mestre de Königsberg ganha uma nova e profunda camada de significado.

            Estaria Kant, ao mover-se com tal rigor metódico, não apenas exercitando o corpo, mas ativamente preparando o terreno para a elaboração de seus sistemas complexos? A cadência rítmica da sola no paralelepípedo, um tic-tac da razão encarnada, deve ter sido o embalo perfeito para as primeiras e mais ousadas formulações de seu criticismo. Antes de sentar-se para a labuta da escrita e da convergência lógica, ele semeava as sementes da intuição em seu passeio. Ele compreendeu, empiricamente, que o corpo, em seu movimento lento e repetitivo, torna-se a âncora que permite à consciência flutuar para a estratosfera da abstração.

            Essa ideia reverbera em outros grandes caminhantes da filosofia e da literatura: de Nietzsche, que não confiava em nenhuma ideia que não fosse concebida ao ar livre, a Thoreau, que via a caminhada como um retorno essencial à natureza da mente. O ato de caminhar é um diálogo mudo com o mundo, onde a alma se desata das amarras da cadeira e se permite divagar.

            Eis que a reflexão, ao tocar o solo firme da ciência, exige que nos voltemos para a práxis, para o mundo da ação e da produção.

            Se os filósofos encontraram na caminhada o terreno fértil para suas ideias mais ousadas, por que não reconhecer que esse mesmo gesto simples pode também transformar os espaços da gestão e da inovação?        Se o caminhar é o berço da ideia, por que confinamos o pensamento estratégico aos cubículos e às mesas de mogno?

            A gestão de empresas, essa disciplina incessante em busca de inovação e alta performance, tem na simples caminhada a ferramenta de baixo custo e altíssimo impacto.

            Transformar reuniões de alinhamento ou brainstorming em "Walking Talks" de 10 a 15 minutos não é um modismo; é uma aplicação direta e inteligente da ciência cognitiva. O movimento, ao desobstruir o fluxo mental, transforma a reunião estéril em um passeio produtivo. As ideias, que se recusam a emergir sob a pressão da tela ou da mesa, escorrem com facilidade quando corpo e mente estão em harmonia.

Algumas estratégias para o Movimento Pensante:

Micropausas: Instituir caminhadas de 5 minutos a cada 90 minutos, especialmente em áreas de alta criatividade como marketing e design, é irrigar o solo mental antes que a seca se instale.

Caminhada de Abertura: Iniciar projetos com um breve passeio onde cada membro compartilha suas percepções iniciais é um ato de "abrir possibilidades" antes de mergulhar na convergência e decisão final.

Ambiente e Empatia: O estudo nos liberta da tirania do ambiente sofisticado. Até uma esteira olhando para uma parede serve. O essencial é o movimento. Além disso, a caminhada, ao quebrar a formalidade do escritório, amacia a tensão. Abordar um conflito ou uma baixa performance lado a lado, em movimento, reduz a resistência e permite um diálogo mais aberto e empático.

Steve Jobs e Mark Zuckerberg não caminhavam com seus interlocutores apenas por capricho; eles incorporaram, intuitivamente, esse conhecimento ao seu estilo de liderança. O líder que convida ao passo comunica dinamismo, proximidade e a valorização do processo de descoberta.

            O cerne da questão é que o alto desempenho organizacional e a saúde, física e mental, deixam de ser metas separadas. São pilares interdependentes, forjados no mesmo ato simples e ancestral: o caminhar.

            Vivemos na era da tecnologia exponencial, buscando soluções complexas em aplicativos, softwares e treinamentos caríssimos. E, no entanto, a chave para o desbloqueio criativo estava o tempo todo sob nossos pés. O maior investimento que podemos fazer não é em uma nova máquina, mas em cinco minutos de caminhada.

            É preciso um ato de coragem crítica para abandonar a inércia da cadeira, para questionar a "produtividade" que se confunde com a imobilidade. Nossa cultura de trabalho, que glorifica a permanência sentada como sinal de dedicação, está obsoleta. Ela trava os corpos e, por consequência, as mentes.

            Que a ciência nos sirva de bússola para retomar o que é inerente ao humano. Não somos máquinas de sentar, mas seres em movimento.

            Quebremos a rigidez das reuniões. Convidemos o conflito e a ideia a caminhar conosco.

            A lição de Stanford, ecoando a rotina de Kant, é um chamado à simplicidade radical.

            A inovação não é sempre um salto tecnológico; muitas vezes, é apenas o próximo passo.

            Levante-se. O gênio está no movimento, e o caminho para a melhor ideia é aquele que se faz a pé. Que o seu próximo grande insight encontre o seu corpo em marcha.

 

 
 
 

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