O AMOR SEM LIMITES DE AGOSTINHO E NOSSO COTIDIANO APAIXONADO.
- Carlos A. Buckmann
- 12 de abr. de 2025
- 6 min de leitura

O AMOR SEM LIMITES DE AGOSTINHO E NOSSO COTIDIANO APAIXONADO.
· Dedico essa crônica ao meu amigo José Abud Neto.
“In Memoriam” de Valdomiro Rodrigues “MIRO”
Aurélio Agostinho (354-430 d.C.), ou Santo Agostinho, como é conhecido, foi um dos mais influentes filósofos e teólogos da história do cristianismo. Nascido em Tagaste, no norte da África, sua trajetória intelectual e espiritual é marcada por uma busca incessante pela verdade e por Deus. Após uma juventude turbulenta e dedicada aos prazeres mundanos, Agostinho converteu-se ao cristianismo, tornando-se bispo de Hipona. Suas obras, como "Confissões" e "A Cidade de Deus", exploram profundamente temas como o pecado, a graça divina, o tempo e, crucialmente para nossa reflexão, o amor. É nesse contexto de profunda imersão na fé e na filosofia que emerge a poderosa afirmação: “O ÚNICO LIMITE DO AMOR É O AMAR SEM LIMITE”.
Para compreendermos a amplitude dessa sentença, é útil explorarmos as diversas facetas do amor que permeiam a experiência humana. Os gregos antigos, com sua rica linguagem, já distinguiam diferentes tipos de amor. O amor Eros, frequentemente associado ao desejo romântico e à paixão física, foi amplamente discutido por filósofos como Platão, em "O Banquete". Para Platão, o Eros era uma força ascensional que impulsionava a alma em direção à beleza e à verdade supremas. Já o amor Ágape, por outro lado, representa um amor incondicional, altruísta e fraterno, muitas vezes ligado ao amor divino e à caridade. Pensadores cristãos, como o próprio Santo Agostinho, desenvolveram profundamente essa concepção do Ágape como a mais elevada forma de amor, um reflexo do amor de Deus pela humanidade, sem questionar se você acredita ou não em um Deus. Enquanto Eros muitas vezes busca a realização individual e um desejo intenso, Ágape desafia o egoísmo, oferecendo um afeto que se manifesta pelo bem-estar do outro, sem esperar retorno. Ambos os amores, embora distintos, têm o potencial de nos ensinar lições profundas sobre o que significa amar.
Na rica tapeçaria dos afetos humanos, encontramos o conceito grego de Philia. Diferente do Eros apaixonado e do Ágape incondicional, Philia se refere ao amor fraterno, à afeição genuína que surge da admiração, do respeito mútuo, da partilha de valores e da convivência. É o amor dos amigos leais, dos companheiros de jornada, dos colegas que constroem juntos. Aristóteles, em sua "Ética a Nicômaco", dedicou extensas reflexões à Philia, considerando-a essencial para uma vida virtuosa e para a coesão da sociedade. Para o filósofo, a amizade perfeita, baseada na virtude e no bem mútuo, é um dos maiores bens que um ser humano pode alcançar.
No mundo pessoal, a Philia se manifesta nos laços de amizade que nos sustentam, que nos oferecem apoio nos momentos difíceis e celebram nossas conquistas. São aqueles amigos com quem compartilhamos risadas, confidências e a certeza de um ombro amigo sempre presente. A Philia nutre o nosso senso de pertencimento, fortalece a nossa identidade e nos proporciona a segurança emocional necessária para enfrentar os desafios da vida. Uma rede de amigos verdadeiros, cultivada com base na reciprocidade e na admiração mútua, é um tesouro inestimável que enriquece a nossa experiência humana. Ela nos ensina a arte da colaboração, da empatia e do respeito pelas diferenças, pilares fundamentais para a construção de relacionamentos saudáveis e duradouros.
Transpondo essa perspectiva para o mundo dos negócios, a Philia revela-se um ingrediente surpreendentemente poderoso para o sucesso e para a criação de um ambiente de trabalho mais humano e produtivo. Em um contexto profissional, a Philia se traduz na construção de relações de confiança e respeito entre colegas, líderes e colaboradores. Quando as pessoas se sentem conectadas por um senso de camaradagem e objetivo comum, a colaboração floresce, a comunicação se torna mais eficaz e a resolução de problemas se torna mais ágil e criativa.
Empresas que cultivam a Philia em sua cultura organizacional colhem frutos significativos. Um ambiente onde os funcionários se sentem valorizados e respeitados, onde há espaço para a escuta ativa e para a troca de ideias, fomenta a lealdade, a motivação e o engajamento. Líderes que praticam a Philia demonstram empatia, reconhecem o valor de cada membro da equipe e promovem um senso de comunidade. Isso não significa ignorar as hierarquias ou os desafios inerentes ao mundo corporativo, mas sim abordá-los com um espírito de parceria e colaboração, buscando soluções que beneficiem a todos.
Podemos observar a ação da Philia em empresas que investem em programas de “team-building”(equipes de construção, na tradução literal), que incentivam a comunicação aberta e transparente, que celebram os sucessos coletivos e que oferecem apoio em momentos de dificuldade. Startups que nascem da união de amigos com uma visão compartilhada frequentemente demonstram uma forte cultura de colaboração e um comprometimento mútuo que impulsiona o seu crescimento. Empresas familiares que mantêm valores de respeito e cuidado entre seus membros também exemplificam como a Philia pode ser um alicerce sólido para a longevidade e o sucesso.
Philia, o amor fraterno e a amizade genuína, não são apenas sentimentos agradáveis para a esfera pessoal; eles representam uma força vital que pode e deve moldar o mundo dos negócios. Ao cultivar relações baseadas no respeito mútuo, na confiança e na colaboração, tanto em nossas vidas pessoais quanto em nossos ambientes de trabalho, criamos um terreno fértil para o crescimento, a inovação e, acima de tudo, para uma experiência humana mais rica e significativa. A Philia nos lembra que, juntos, somos mais fortes e que o sucesso genuíno é aquele que é compartilhado e celebrado em comunidade.
Em tempos mais recentes, o filósofo francês André Comte-Sponville dedicou reflexões valiosas à virtude do amor. Para Comte-Sponville, o amor não é meramente um sentimento, mas uma virtude ativa que envolve benevolência, compaixão e a capacidade de se alegrar com a felicidade do outro. Ele argumenta que o amor, em suas diversas manifestações, é essencial para uma vida plena e para a construção de uma sociedade mais justa e humana. A generosidade inerente ao amor, a disposição de ir além do próprio interesse, ecoa a ilimitada natureza que Santo Agostinho vislumbrou.
Transportando essa profunda reflexão para o nosso cotidiano, percebemos que o amor, em sua essência de entrega e dedicação, pode ser a força motriz por trás de nossas ações, tanto na vida pessoal quanto profissional. Se transpusermos essa reflexão para o cotidiano, o amor também encontra expressão nas pequenas ações da vida e no empenho dedicado ao trabalho. O amor pela vida é aquele que nos faz valorizar cada momento, o sorriso compartilhado, o aprendizado contínuo. O amor pelo trabalho é aquele que transforma uma ocupação em vocação, movido por paixão e propósito. O amor pela vida se manifesta na apreciação das pequenas coisas, na busca por experiências enriquecedoras, na resiliência diante dos desafios e na conexão genuína com as pessoas ao nosso redor. Quando amamos a vida, tendemos a vivê-la com mais intensidade e propósito, buscando sempre aprender e evoluir.
Da mesma forma, o amor pelo trabalho transcende a mera obrigação de ganhar o sustento. Quando encontramos paixão naquilo que fazemos, o trabalho deixa de ser um fardo e se transforma em uma fonte de realização e crescimento. Empresas e projetos que nascem e prosperam sob a égide do amor, da dedicação e do cuidado com o cliente e com a equipe, frequentemente alcançam resultados notáveis.
Podemos citar como exemplos, negócios que priorizam a qualidade dos seus produtos ou serviços, que investem no bem-estar dos seus funcionários e que cultivam um ambiente de colaboração e respeito. Aquele artesão que dedica horas a fio para aperfeiçoar sua obra, o empreendedor que coloca sua alma na criação de um novo produto, o professor que se entrega ao ensino com paixão – todos eles demonstram como o amor pode impulsionar a excelência e gerar impacto positivo.
Em última análise, a frase de Santo Agostinho nos convida a uma reflexão profunda sobre a natureza ilimitada do amor. Se o único limite é amar sem limites, então somos constantemente desafiados a expandir nossa capacidade de amar, a ir além das barreiras do egoísmo e da indiferença.
Lembremos que, se o amor não tem limites, talvez seja por isso que às vezes amamos tanto aquele cafezinho quentinho pela manhã, mesmo sabendo que ele pode nos deixar um pouco agitados. Afinal, como diria Agostinho, o único limite para o nosso amor pelo café é... amar café sem limite!




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