O ABISMO E A TRAVESSIA
- Carlos A. Buckmann
- 16 de jun. de 2025
- 4 min de leitura

O ABISMO E A TRAVESSIA
A jornada do pensamento criativo é um campo de batalhas invisíveis. Conceber uma ideia é apenas o primeiro ato de um drama que exige coragem, determinação e resiliência para ser levado adiante. Muitos desistem antes mesmo de ver o contorno concreto de suas aspirações, sufocados pelas dificuldades ou pelo medo da responsabilidade que o sucesso traz consigo. Eis aqui uma verdade irrefutável: a audácia de dar forma a um conceito exige não apenas esforço, mas também um compromisso quase monástico com sua execução.
Confesso: a mais difícil das virtudes no mundo empresarial é a resiliência. Não aquela resistência passiva que se limita a suportar perdas e crises, mas a força ativa, criadora, que se levanta todos os dias para tirar uma ideia do abstrato e lançá-la ao caos do mercado. Porque lançar um novo produto, abrir uma empresa, inovar num setor viciado em rotinas, é sempre um salto sem rede. É um risco calculado, sim, mas ainda assim um risco. E isso exige não só coragem, mas preparo emocional e estratégico.
Ter uma ideia de negócio é encantador; executá-la é exaustivo. O mercado, como as marés, não perdoa quem hesita. Exige de nós não apenas visão, mas consistência, ritmo, reinvenção constante. Quem quer empreender precisa entender que assinará um pacto com a responsabilidade, e ela cobra caro. Porque não basta começar; é preciso sustentar. Financiar, motivar, gerir, errar rápido e corrigir mais rápido ainda.
Bukowski, o improvável conselheiro do mundo corporativo, nos deu uma das frases mais verdadeiras que já li:
“Se você vai tentar, vá até o fim, caso contrário, nem comece.”
E isso, no universo dos negócios, é mais que poesia: é estratégia. Porque o empreendedor morno, o que não se compromete por inteiro, será engolido pelo mercado antes mesmo do segundo trimestre.
Curioso como essa máxima tenha vindo de um escritor alcoólatra e pessimista, alguém que, à primeira vista, nada teria a ensinar sobre liderança, planejamento ou fluxo de caixa. Mas talvez justamente por isso ele enxergasse com clareza o essencial: sem comprometimento radical, qualquer projeto é só ilusão de ótica. Bukowski sobreviveu com sua arte não porque teve sorte, mas porque, mesmo nas noites vazias de sentido, continuou escrevendo.
Essa filosofia da perseverança não é, de modo algum, exclusividade do submundo literário de Bukowski. Ecoa através dos séculos nas vozes de incontáveis pensadores e artistas que defenderam a resistência e a coragem para continuar o que se começa. Confúcio, com sua sabedoria milenar, asseverava: "Não importa o quão devagar você vá, desde que você não pare." Friedrich Nietzsche, em sua busca pela superação, proclamava a importância da vontade de potência e da autotranscedência, que inevitavelmente implicam a persistência frente aos obstáculos. Ralph Waldo Emerson, em seu ensaio sobre a autoconfiança, instigava à firmeza de propósito e à rejeição da complacência. E até mesmo em tempos mais recentes, a icônica frase de Winston Churchill, “Nunca desista, nunca, nunca, nunca”, tornou-se um mantra para aqueles que enfrentam desafios intransponíveis. Todos eles, de distintas épocas e filosofias, convergiam para a ideia de que o verdadeiro valor reside não apenas no ímpeto inicial, mas na tenacidade de concluir a jornada.
Voltando a Nietzsche, esse grande empreendedor de ideias, já dizia que “quem tem um porquê enfrenta qualquer como.” E no mundo dos negócios, o “porquê” é o propósito, aquilo que sustenta o negócio quando o faturamento desanima e os gráficos se tornam reticências. Camus falava de Sísifo, que empurra a pedra sabendo que ela vai rolar de novo. O empreendedor é esse Sísifo moderno: sua pedra são as planilhas, os relatórios, os contratos, os boletos. Mas ele continua. Porque parar seria aceitar a irrelevância.
Hannah Arendt, ainda mais precisa, lembrava que “agir é iniciar algo novo no mundo.” E é exatamente isso que todo empreendimento legítimo pretende fazer: instaurar uma diferença, provocar uma transformação, nem que seja no modo como as pessoas escolhem o sabão líquido que usam em casa.
A batalha pela concretização de uma ideia não aceita hesitações. O titubeante já está derrotado antes mesmo de começar, e a mediocridade é o refúgio dos que temem os riscos do êxito. Criar, transformar, transmutar o abstrato em realidade demanda uma fé férrea no próprio potencial, uma resistência contra as intempéries da dúvida e uma afronta categórica ao comodismo.
E sim, já pensei em desistir. Já tive aquela madrugada em que o caixa apertou, e a pergunta pairou no ar: vale mesmo a pena continuar? E foi aí que me lembrei do velho Bukowski. “Vá até o fim.” Não porque o sucesso seja garantido, mas porque o fracasso digno é melhor do que o abandono prematuro.
Ao fim, aprendi que no mundo dos negócios a ideia é apenas o início da travessia. O que importa mesmo é a capacidade de resistir. De manter o leme firme, mesmo quando a tempestade parece maior que o barco.
E cá entre nós: se for para empreender, que seja com coragem, estratégia... e uma boa planilha, porque até a loucura precisa de contabilidade.




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