O ABISMO DOS INTERESSES
- Carlos A. Buckmann
- 20 de set. de 2025
- 3 min de leitura

O ABISMO DOS INTERESSES
Há algo de profundamente irônico, e trágico, no modo como as pessoas se afastam quando divergem em ideias. Como se a diferença de pensamento fosse uma ofensa moral, um atentado à identidade do outro. Discutimos ideologias como se fossem dogmas sagrados, erguemos barricadas intelectuais e nos isolamos em guetos de convicção. Mas será mesmo que são as ideias, abstrações, construções mentais, sistemas lógicos, que nos separam? Ou será que usamos as ideias apenas como disfarce para proteger o que realmente importa: os interesses?
Foi Alexis de Tocqueville, aristocrata francês nascido em 1805, observador agudo da democracia nascente nos Estados Unidos, autor de “A Democracia na América”, quem, com precisão cirúrgica, afirmou: “Mais que as ideias, são os interesses que separam as pessoas.” Tocqueville via além do véu retórico das assembleias e dos discursos inflamados. Ele percebia que, por trás de cada debate político, de cada ruptura social, havia sempre alguém tentando preservar seu status, seu patrimônio, seu poder, ou conquistá-los. As ideias serviam como verniz moral; os interesses, como estrutura óssea.
E essa verdade, tão incômoda quanto inegável, não envelheceu. Ontem, os senhores de escravos invocavam “ordem natural” e “tradição” para justificar a escravidão. Hoje, banqueiros falam em “liberdade de mercado” enquanto milhões naufragam na pobreza. Ontem, reis diziam governar por direito divino; hoje, CEOs falam em “meritocracia” enquanto herdam impérios construídos por gerações de exploração. As ideias mudam de roupagem; os interesses permanecem nus, brutos, insaciáveis.
Por que o ser humano age assim? Por que prefere sacrificar a verdade, a amizade, até a decência, em nome de vantagens materiais ou simbólicas? A resposta talvez esteja na biologia e na história entrelaçadas. Hobbes já nos alertava: o homem é lobo do homem. Não por maldade essencial, mas por instinto de sobrevivência exacerbado pela escassez, real ou imaginada. Marx, por sua vez, despiu o véu idealista da história e mostrou que as lutas de classe, lutas por interesses materiais, movem o mundo mais do que qualquer nobre ideal. Nietzsche foi ainda mais longe: desmascarou a moral como instrumento de poder, e as ideias como máscaras que os fortes colocam sobre os fracos, e que os fracos, por vezes, vestem com orgulho, achando que estão se vestindo de virtude.
Somos egoístas porque fomos moldados para ser. A evolução premiou os que acumularam, os que dominaram, os que se anteciparam ao outro. A cultura refinou esse instinto bruto em sistemas complexos de justificativa, religiões, filosofias, ideologias, mas o cerne permanece: proteger o que é meu, ampliar o que posso chamar de meu, impedir que o outro tenha o que eu desejo ter.
Assim caminhamos, divididos não por divergências intelectuais, que poderiam ser fecundas, dialéticas, transformadoras, mas por cálculos silenciosos de ganho e perda. Um amigo vira inimigo não porque pensa diferente, mas porque sua ascensão ameaça minha posição. Um vizinho torna-se estranho não por discordar de minha visão de mundo, mas porque seu sucesso diminui meu brilho. Um colega é excluído não por suas ideias radicais, mas porque elas expõem meus privilégios.
Que patético espetáculo somos nós, criaturas que se gabam de racionalidade, mas que se deixam governar por impulsos mesquinhos travestidos de princípios elevados! Que tragicomédia encenamos diariamente, fingindo defender a verdade, quando na verdade defendemos apenas nossos pequenos reinos de conforto, influência e reconhecimento!
No atual Congresso brasileiro, a frase de Tocqueville, não é mera citação de manual de filosofia, mas a trilha sonora invisível que orquestra cada voto, cada aliança, cada traição; parlamentares que ontem bradavam contra a corrupção hoje calam diante de denúncias convenientes; partidos que se diziam inimigos ideológicos unem-se em coligações grotescas para garantir fundo partidário, cargos e foro privilegiado; discursos inflamados sobre “família”, “liberdade” ou “justiça social” servem apenas como verniz retórico para proteger privilégios fiscais, imunidades ou emendas orçamentárias que irrigam currais eleitorais, e assim, sob o manto sagrado das ideias, dança-se o verdadeiro baile dos interesses, onde a nação é refém, o povo é figurante, e a ética, mera cortina de fumaça que esconde o butim que cada um carrega nos bolsos da alma.
Tocqueville tinha razão, e sua lucidez dói. Porque revela que nossa divisão não é acidental, nem passageira, nem superficial. É estrutural. É humana. E talvez só possamos superá-la, se é que podemos, quando tivermos coragem de olhar nos olhos do outro e dizer: “Discordo de você, mas não te odeio. Minha ideia pode estar errada. Meu interesse, porém, é o que me faz te excluir. E isso... isso é imperdoável.”
Até lá, continuaremos nos separando, não pelas ideias, mas pelos interesses. E chamaremos isso de civilização.
BETO BUCKMANN
Crônicas entre ideias e pólvora




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