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NÃO EXISTEM RESPOSTAS

  • Carlos A. Buckmann
  • 17 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

NÃO EXISTEM RESPOSTAS    

            Há uma certa melancolia no ar de Porto Alegre que parece se instalar nos pulmões de quem nasce aqui. Talvez seja o vento úmido do Guaíba, talvez seja a memória de tantos que, como nós, olharam para o horizonte e viram mais neblina do que promessa. Luís Fernando Veríssimo, também filho desta terra de céus cinzentos e chão batido pelo frio, herdou de seu pai, Érico, não apenas o dom da palavra, mas o peso da consciência. Enquanto Érico construiu epopeias sobre identidade e destino, Luís Fernando desmontou o drama com um sorriso torto, um olhar oblíquo, e uma ironia que corta mais fundo que qualquer tragédia. Gaúcho de nascimento, mas universal por espírito, ele nos ensinou que o Brasil não é um país, é um experimento em andamento, um laboratório de contradições onde o humor é o último escudo contra o desespero.

            Veríssimo, o Luís, não ergueu catedrais narrativas; preferiu desmontar o próprio altar. Com uma prosa leve como um haicai e densa como um tratado, ele disse o que muitos sentiam, mas não ousavam confessar: que a brasilidade, essa noção tão celebrada em samba e churrasco, é uma construção frágil, feita de esperança e descaso, de alegria e abandono. É um sentimento que se dissolve toda vez que um político mente com descaramento, que um jovem é morto por engano numa favela qualquer. A brasilidade, na prática, é o que sobra quando o discurso falha, é o jeitinho, o improviso, o riso amarelo diante do caos.

            É nesse terreno movediço que a frase de Veríssimo, o Luís Fernando, ressoa como um alerta:

            - “Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.”

            Quantas vezes, no curso destes anos, pensei ter entendido o jogo? Quantas vezes elaborei planos pessoais, políticos, existenciais, com a segurança de quem já leu o final do livro? Acreditei que a educação seria prioridade, que o desenvolvimento não precisaria passar por desmatamento e corrupção. Acreditei que empresas sérias prosperariam, que a ética não fosse um luxo, que o futuro fosse algo que se constrói, e não algo que se sobrevive. Mas a vida, essa mestra impiedosa, tem o hábito de rearranjar as cartas quando menos esperamos. As respostas que tínhamos não servem mais. Porque as perguntas mudaram. Não se trata mais de como crescer, mas de como resistir. Não é mais como vencer, mas como sobreviver com dignidade.

            É nesse ponto que a filosofia se torna necessária. Nietzsche dizia que “quem tem um porquê para viver suporta quase qualquer como”. Mas, no Brasil, o “porquê” muda a cada dia. Vivemos num país onde as perguntas são refeitas todos os dias, mas as respostas raramente chegam. E isso, paradoxalmente, é o que nos mantém vivos: a necessidade de continuar perguntando.

            Porque o mundo, como bem sabia Sócrates, não é movido por respostas, mas por perguntas. A ciência avança não quando diz “isso é verdade”, mas quando pergunta “e se não for?”. A arte nasce do desconforto, da dúvida, da inquietação. Até mesmo a economia, essa ciência exata que insiste em ser imprevisível, só evolui quando reconhece que não tem modelos para tudo. O erro está em achar que, com planejamento, disciplina e um pouco de sorte, conseguiremos dominar o caos. A vida ri disso. E muda as perguntas.

            Talvez seja por isso que o caminho para uma vida melhor, individual ou coletiva, nunca seja sereno. Ele é acidentado, incerto, cheio de bifurcações. Empresas que acreditavam em crescimento sustentável são engolidas por crises que ninguém previu. Pessoas que planejam o futuro descobrem que o presente já não é o mesmo. E aí, diante dos escombros das certezas, resta apenas uma atitude possível: recomeçar a perguntar.

            Mas, claro, há quem insista em vender respostas. Políticos com sorrisos de plástico, empresários com planos de dez anos, gurus com frases de efeito. Vendem certezas como se fossem pão. “Siga este método.” “Vote em mim.” “Adquira este produto.” Como se o mundo fosse um teste de múltipla escolha com gabarito definitivo. Como se a vida fosse uma burocracia que se resolve com um formulário bem preenchido.

            Se fosse tão simples. Se bastasse preencher os campos certos, assinar no pontilhado, torcer um pouco, talvez aí sim a brasilidade fosse só alegria, samba e praia. Mas a realidade é outra: somos um povo que dança na beira do abismo, com um sorriso no rosto e um buraco no bolso. Um povo que, apesar de tudo, ainda pergunta. Ainda duvida. Ainda espera.

            E talvez seja nisso que resida a nossa força, não na resposta, mas na coragem de continuar perguntando. Mesmo quando a pergunta muda. Mesmo quando a resposta se perde no vento.

            A ironia é esta: vivemos num país que “funciona na base da fé”. E assim seguimos: perguntando, duvidando, resistindo.  Porque, no fundo, é só isso que nos resta, antes que a vida, mais uma vez, mude as perguntas.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora.

PS: Escrevi essa crônica no domingo, 17/08/25, pela manhã. À tarde, recebi a notícia de que L.F. Veríssimo havia sido hospitalizado em estado grave. Na vida, nada é por acaso.

 
 
 

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