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NEOLOGISMOS, ANGLICISMOS E ENTREGUISMOS

  • Carlos A. Buckmann
  • 11 de mar. de 2019
  • 4 min de leitura


Para início de conversa, afirmo peremptoriamente, que não sou xenofóbico, visto que me considero um cidadão do mundo, pelas amizades que fiz no decorrer de meus setenta e três anos, como o Guy, francês com cargo de gerente regional de uma cadeia de hotéis, com quem aprendi uma belíssima receita de “”Coq-au-vin”, ou como Winston, americano de quatro costados, que me ensinou a receita de “Bufalo wings”, e o Allan, belga com quem pela primeira vez cruzamos a linha do equador e, tantos outros que foram ficando pelo meu já longo caminho.

No entanto, os galicismos, anglicismos e neologismos que estão sendo empregados no linguajar do mercado (comércio e indústria) realmente começa a me incomodar.

Para não me tornar um “chato de galocha” (chato, todo mundo sabe o que é, se você não é um, por certo tem um que não sai do seu pé; galocha, se você não sabe, é porque tem pouca experiência de vida – procure no Google), vou fazer este ensaio de forma bem humorada, buscando o estilo do Millôr Fernandes, humorístico filosófico.

Tudo começou (o neologismo anglicista para isso é “start”) com o “coach”, traduzido literalmente: treinador. Aí apareceram “coachs” prá tudo que é inutilidade: “Organiziner Coach”, para ensinar as “dondocas” como arrumar seus armários de roupas e paneleiros (é que dondoca, formadas em Viena, não sabem arrumar sua casa, seus armários – Deus nos acuda); “Manager Coach”, que ensina aos gerentes, que deveriam ensinar, como gerenciar suas equipes e por aí vai, uma infinidade de “coachs”.

E vamos para os novos anglicismos, com perdão da redundância.

“Shopper”, na tradução do Google (vai lá que tá escrito), é a pessoa que realiza uma compra, sendo ela consumidora ou não, ou seja, aquela que está em sua loja fazendo uma compra (para mim é a sua cliente). No entanto, por essa novidade inglesa, ou americana, ela pode ou não, ser a consumidora, então não é sua cliente (confuso? Bah! demais).

Se é uma mãe, comprando na sua farmácia um antitérmico para seu filho que está em casa, com febre, ele (o filho) é o consumidor, ela é apenas a “shopper”. Literalmente, neste caso, shopper ”é a mãe”. – Se esta pessoa está comprando algo para uma outra, fazendo um favor, ela é apenas a “shopper”, parecendo que o consumidor é mais importante, ou não (você decide).

Agora me diz: como eu, dando consultoria para um pequeno lojista, vou explicar isso a ele? Bom, de minha parte, o faço tratar apenas como o cliente deve ser tratado e mando às favas a “shopper”.

Certa vez, em uma empresa onde trabalhei, chegou um antigo vendedor de laboratório, todo orgulhoso de ter sido promovido para “Key Account”. O título subiu para a cabeça.

Por A mais B, tentou provar que trabalhar com sua linha de medicamentos genéricos, uma das mais caras do mercado, era mais vantajoso para o lojista, independente de onde se localizava sua farmácia e, que o lojista que não visse isso, para ele, era um burro. Desconhecia ele, que a grande maioria dos consumidores, como lei do mercado atual, buscam antes de tudo, preço. – Tanto é assim, que um ano após o discurso arrogante deste “Key Account”, por essas leis do mercado, seu laboratório reduziu substancialmente o PMC (Preço Máximo ao Consumidor) de toda sua linha. Ah! Perdão, mas traduzindo para o grande público, está lá no Google, esse anglicismo que dizer, o “vendedor encarregado de grandes contas, dos grandes clientes”. – Cara: use sem parcimônia seu novo cargo americanizado, mas não esqueça: Você não deixou de ser um VENDEDOR, e como tal, trate com respeito os seus clientes. O mundo dá voltas e o mercado muda constantemente.

Antes que me esqueça, o “Key Account” é subordinado a um “Key Account Management”, que, na tradução do Google, é o “gerente de contas chaves”.

Outro dia, recebo de um cidadão, um cartão de visitas onde era identificado como “Supply Chain Management”, que na tradução literal é: Gerente de Cadeia de Suprimentos, ou seja, gerente de logística de uma transportadora. Ah! Mas em inglês fica mais bonito e eleva a importância do cargo. O sistema de entregas dessa transportadora não melhorou por causa disso.

Mas não fiquemos nos termos em inglês. Tem também em alemão: Beratungsgesells: que se traduz por: “empresa de consultoria” (achei a tradução lá no Google). Acho que vou adotar esse. Não vai tornar meu trabalho melhor, o que sempre procuro fazer, mas fica mais “chic”.

Voltando para os termos ingleses, tem o “Managing Partner”, que se traduz por “Sócio Majoritário ou Sócio Gerente”. Se você com este título é o sócio majoritário, está tudo bem, faça o que quiser com sua empresa. Agora, se prá você a tradução de seu cargo é sócio gerente, vá com calma, ou o da primeira tradução pode te dar um “pé na bunda”, em bom português.

Eu poderia continuar dissertando por muitas páginas sobre os neologismos que estão sendo empregados atualmente. É uma invasão de “ETs” na nosso idioma pátrio, língua essa, que Olavo Bilac, em seu poema “Língua Portuguesa” tão bem definiu como:

“Última flor do Lácio, inculta e bela,

És, a um tempo, esplendor e sepultura:

Ouro nativo, que na ganga impura

A bruta mina entre os cascalhos vela...


Amo-te assim, desconhecida e obscura,

Tuba de alto clangor, lira singela,

Que tens o trom e o silvo da procela

E o arrolo da saudade e da ternura!


Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceano largo!

Amo-te, ó rude e doloroso idioma,


Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"

E em que Camões chorou, no exílio amargo,

O gênio sem ventura e o amor sem brilho!”


Pois é, não se trata de xenofobia, mas dolorosas reminiscências de um velho brasileiro que muito estudou no seu Curso de Letras e que vê estes neologismos anglicistas deturparem a “Última flor do Lácio”, a última derivação do latim, nosso português.

Mas, amiguinhos, em português, inglês ou alemão, não esqueçam, no comércio ou na indústria, tudo é uma relação “vendedor/cliente”. – O resto são firulas.

Pense nisso e

Bons negócios prá nós.

 
 
 

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