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MODINHA

  • Carlos A. Buckmann
  • 7 de jun.
  • 4 min de leitura

A CORAGEM DO PEQUENO AMOR (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Há uma singeleza na poesia lírica de Sérgio Bittencourt que me comove profundamente.

            Ele não precisava de grandes temas, revoluções, mitos, epopeias. Bastava-lhe uma rosa na janela, um sol findando lento, um sonho pequenino. Inspirava-se na simplicidade do cotidiano, naquilo que todos vemos mas poucos ousam cantar.

            Essa modinha é um exercício de humildade lírica: o compositor se permite ser menino, roubar uma flor, ofertá-la à primeira namorada. E nesse “pouco ou quase nada”, como ele mesmo diz, cabe um amor inteiro.

            Vivemos temores estranhos. A falta de lirismo em nossos dias não vem de ausência de sentimentos, mas de um medo paralisante: o medo de infringir o politicamente correto.

            Declarar amor pode soar “assediador”. Chamar alguém de “primeira namorada” pode parecer antiquado ou exclusivista. Oferecer uma rosa roubada, ainda que em sonho, pode ser interpretado como violência simbólica. E assim, calamo-nos. O distanciamento pessoal a que isso nos leva é uma solidão educada, um silêncio de bom tom. Trocamos o abraço pelo emoji, a declaração pelo like. E a alma, essa desconhecida, definha sem verso.

            Voltemos à modinha. Porque a filosofia da MPB, aquela que Bittencourt herdou de Noel e Cartola, nos ensina que o lírico não é fuga, é resistência. Cantar o amor pequenino é, hoje, um ato quase heroico. E cada estrofe dessa canção é uma aula de coragem ontológica.

            “Olho a rosa na janela, / sonho um sonho pequenino... / Se eu pudesse ser menino / eu roubava essa rosa / e ofertava, todo prosa, / à primeira namorada”

            Olhar a rosa na janela é já um ato poético. Mas o sonho pequenino, que ousadia! Vivemos a tirania do grandioso: grandes carreiras, grandes viagens, grandes amores. Bittencourt nos lembra que o pequeno é suficiente. Ser menino, roubar uma flor (num ato de delicada transgressão), ofertar “todo prosa”, essa prosa é a leveza de quem não teme ser ridículo. Platão, no “Fedro”, diz que a loucura divina do amor é a mais bela das possessões. O menino que rouba a rosa está nessa loucura.

            Nós, adultos “corretos”, estamos loucos de sanidade.

            “e nesse pouco ou quase nada / eu dizia o meu amor, / o meu amor...”

            “Pouco ou quase nada”. O amor não precisa de muito. Um gesto, uma flor, uma palavra repetida. O verdadeiro presente não se mede pelo valor, mas pela intenção. Dar quase nada pode ser dar tudo.

            Bittencourt diz o amor duas vezes: “o meu amor, o meu amor”. A repetição não é ênfase vazia, é ritmo de oração. Hoje, tememos dar o pouco porque o pouco pode ser mal interpretado. Melhor dar nada, pensamos. E assim não dizemos amor nenhum.

            “Olho o sol findando lento, / sonho um sonho de adulto... / Minha voz, na voz do vento, / indo em busca do teu vulto”

            O sol que se põe é o tempo que se esvai. O sonho de adulto já não é roubar rosas, é buscar um vulto, uma sombra, alguém que talvez já tenha partido. A voz do poeta se confunde com a voz do vento: elemento sem rosto, que toca mas não segura. Há aqui uma ontologia da perda. Bittencourt não foge da melancolia. Ele a canta. E ao cantar, a transforma em beleza. Nós, que tememos a tristeza (vista como “depressão” ou “negatividade”), perdemos essa alquimia.

            “e o meu verso em pedaços, / só querendo o teu perdão... / Eu me perco nos teus passos / e me encontro na canção...”

            O verso em pedaços é a própria condição da poesia moderna, lírica fraturada, que já não acredita na totalidade.

            Bittencourt pede perdão, não se sabe por quê. Talvez por existir, por desejar, por se perder. Perder-se nos passos do outro é uma forma de entrega. E encontrar-se na canção é a salvação pela arte.

            Quantos de nós, hoje, se perderam nas redes sociais e não se encontram em lugar nenhum? O politicamente correto nos ensinou a não nos perdermos e, sem perda, não há encontro.

            “Ai, amor, eu vou morrer / buscando o teu amor... / Ai, amor, eu vou morrer / buscando o teu amor... / (Eu vou morrer de muito amor)”

            A repetição é obsessiva, quase trágica. Bittencourt acerta: não se morre de amor por falta, mas por excesso. “Morrer de muito amor” é oxímoro que revela a verdade: amar até o fim das forças é o único modo de amar que presta. Nossa época, que ama com moderação, com distância, com cláusulas de rescisão, jamais morrerá de amor. Morrerá de tédio.

            A singeleza de Sérgio Bittencourt, essa modinha que cabe numa rosa e num pôr de sol, é um grito contra o vazio lírico que nos cerca.

            Temos medo do politicamente correto? Sim.

            Mas temos mais medo ainda de parecer piegas, antigos, exagerados. Por isso não roubamos rosas, não nos perdemos em passos, não morremos de muito amor.

            Ficamos em casa, seguros, corretos, sozinhos. O garçom da Rua da Praia que não conhecia Bittencourt talvez represente mais do que ignorância: representa uma época que desaprendeu a modinha.

            Mas eu, ainda acredito. Acredito que o menino que sonha roubar a rosa é mais adulto do que todos os adultos que nunca sonharam.

            Acredito que, enquanto houver um cronista disposto a fazer filosofia com versos esquecidos, a MPB continuará nos ensinando a coragem do pequeno amor.

            Olho a janela.

            Não há rosa. Mas posso sonhá-la.

            E nesse sonho pequenino, eu, menino,  me encontro: inteiro, desmedido, vivo.

(*) Ouça a música no YouTube, na voz de Taiguara:

 
 
 

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