MILLÔR, CALADO, E A CONTÍNUA PERFEIÇÃO DO VAZIO EDITORIAL
- Carlos A. Buckmann
- 3 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

MILLÔR, CALADO, E A CONTÍNUA PERFEIÇÃO DO VAZIO EDITORIAL
Quem acompanha minhas publicações, por certo vai lembrar que eu sou um admirador de Millôr Fernandes. Em minha biblioteca tenho a maioria de suas obras.
Esta semana estou relendo “O LIVRO VERMELHO DOS PENSAMENTOS DE MILLÔR -Um Verdadeiro Orgasmo Filosófico”. (O Título é uma paródia, na década em que foi escrito, ao “Livro Vermelho dos Pensamentos de Mao Tse Tung)”.
Millôr, não era só um cartunista-humorista. Era jornalista, escritor, teatrólogo e um filósofo mordaz e crítico de nossa sociedade. Isso fica muito claro ao ler e reler essa obra.
Na página 10 dessa edição que tenho, ele transcreve um trecho de uma conversa que teve em 1971, com ANTÔNIO CALADO, também jornalista, romancista e teatrólogo, tal como ele. Transcrevo então aqui esse trecho:
“Uma atitude de contestação não tem, necessariamente, que ser, perigosa e pode até ser rendosa, pois, não hostilizando os poderosos, mantém viva, para os oprimidos, a imagem de nossa rebeldia. Como orientação, basta ler, diariamente editoriais dos grandes jornais brasileiros, editoriais geralmente magníficos. Não dizem absolutamente nada. Mas são contra.”
Há algo de profundamente melancólico e, ao mesmo tempo, eternamente revelador na acidez desse diálogo de 1971. O cinismo de Millôr e Calado não era mero despeito, mas a constatação dolorosa de uma realidade estrutural: a crítica, quando institucionalizada pela mídia que dela vive, é transformada em um produto inofensivo, uma "rebeldia de fachada" que serve para saciar a sede de justiça do oprimido sem jamais ameaçar o poder do opressor. É a arte da contestação rendosa.
O que me assombra, ao confrontar a sabedoria daquele tempo com o espetáculo midiático de hoje, é a permanência do arquétipo.
Passaram-se mais de seis décadas. A velha prensa de Gutenberg deu lugar ao tubo de raios catódicos e, mais recentemente, à frenética tela de smartphone. A plataforma mudou, evoluímos da mídia impressa para a televisiva e, agora, para a babel digital das redes sociais, mas o conteúdo, a essência do "dizer sem dizer nada", permanece intacto.
A mola mestra do jornalismo de grandes corporações, e até mesmo de muitas vozes influentes no ecossistema digital, continua a ser a manutenção de um delicado equilíbrio: parecer crítico o suficiente para manter a audiência, mas inofensivo o bastante para não perder os anunciantes e, mais importante, não provocar a ira dos poderosos de sempre.
O jornalismo moderno, em seu auge, tornou-se mestre na arte de calçar as "luvas de pelica" ao lidar com a elite. Quando a corrupção atinge um político de destaque ou um empresário endinheirado, a narrativa é imediatamente desviada do eixo moral para o processual. Discute-se o habeas corpus, o rito do inquérito, a legalidade da prova, a "guerra narrativa", mas raramente o despudor do ato em si. O escândalo se transforma em intriga jurídica e, pior, em entretenimento.
Vemos fortunas ilícitas serem desvendadas com o mesmo tom asséptico que se descreve uma fusão corporativa. Há um cuidado quase reverencial em não ofender a casta. Os "detentores do dinheiro e do poder" nunca são simplesmente corruptos; são "supostamente envolvidos em alegações complexas" ou "figuras cuja conduta está sendo reavaliada". A linguagem se torna um escudo de ambiguidade, um editorial magnífico que, ao final, "não diz absolutamente nada. Mas é contra."
Essa eterna busca por controlar o discurso não é nova. Ela é, na verdade, a própria essência do poder. Lembro-me, então, da máxima de Napoleão Bonaparte, que compreendeu o valor estratégico da informação muito antes de qualquer algoritmo de engajamento: “Me deem o controle dos jornais e eu dispensarei meus exércitos.” Uma frase que resume o poder da narrativa sobre a força bruta. O exército conquista o corpo; o jornalismo, a mente.
Essa percepção é corroborada por autores que desnudaram a mecânica da hegemonia. Pensemos no conceito de "fabricação do consentimento" de Noam Chomsky e Edward S. Herman, onde a mídia, mesmo operando em um regime de aparente liberdade, atua como um sistema de propaganda que filtra o que é aceitável e o que deve ser marginalizado, sempre favorecendo os interesses da classe dominante.
A liberdade editorial é, frequentemente, a liberdade de escolher quais dogmas do poder serão atacados e quais serão preservados. O vazio na crítica, que Millôr notou, é preenchido pelo espetáculo da indignação seletiva.
A crise na saúde, o drama da desigualdade abissal, a destruição ambiental, esses são temas tratados com profundidade e, frequentemente, paixão. Mas quando a lupa se volta para a origem desses problemas e para os nomes e sobrenomes dos perpetradores, a câmera recua, o texto se torna técnico, e a voz do comentarista adota um tom de lamento resignado. A rebeldia está sempre a salvo, pois não é perigosa.
O que mudou, de fato, em seis décadas, é que agora todos nós nos tornamos pequenos produtores dessa contestação rendosa. Nas redes sociais, nossa própria indignação é monetizada, transformada em “likes” e “shares”, que, embora mantenham viva a "imagem de nossa rebeldia", na prática, não alteram o “status quo” um milímetro. A crítica virou “commodity”, e o vazio editorial, que Millôr via no jornal, explode em bilhões de vazios digitais.
Se Millôr estivesse reeditando seu Livro Vermelho hoje, após analisar o panorama que se estende do grande editorial à “thread” viral, talvez ele concluísse com uma observação ainda mais cínica sobre nosso tempo. E seria algo assim:
"O povo não exige mais a verdade, exige a indignação que lhe seja conveniente. A grande mídia vende o produto, e as redes sociais fornecem o palco. Assim, todos saem ganhando: os poderosos continuam poderosos, a mídia continua rica, e o oprimido, após desabafar por 24 horas, acorda no dia seguinte com a doce ilusão de que a rebeldia foi consumada.”
E, afinal, o que é um Orgasmo Filosófico senão um título magnífico para um livro que não muda nada.
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora




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