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MILAGRES, MOINHOS E A MARRETA DA RAZÃO.

  • Carlos A. Buckmann
  • 4 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

MILAGRES, MOINHOS E A MARRETA DA RAZÃO.

            Com a brisa tépida que adentra a janela deste meu refúgio em Porto Alegre, ou talvez porque choveu durante a noite, e a chuva sempre me traz esse tipo de visita filosófica, um tipo de neblina que me obriga a olhar para dentro, debruço-me sobre uma sentença que, qual farol na névoa da existência, ilumina uma senda de lúcida esperança: “Acredite em milagres, mas não dependa deles.” 

            A autoria desta epigramática sabedoria reside na mente augusta de Immanuel Kant (1724-1804), o filósofo prussiano de Königsberg, cuja “Crítica da Razão Pura” revolucionou a metafísica e a epistemologia ocidental. Kant, um pensador sistemático e rigoroso, dedicou sua vida a delimitar os confins da razão e a estabelecer os fundamentos da moralidade autônoma. Sua filosofia, um marco no Iluminismo, buscava conciliar o empirismo e o racionalismo, culminando numa visão do sujeito como legislador do universo moral. - Mas veja: ele não nos proibiu de acreditar. Apenas fez um leve gesto com a mão, como quem afasta um pão velho da mesa e nos disse: “Não dependa.” E é aí que a chave gira.

            A essência desta máxima kantiana ressoa em ecos de outros pensadores que, em diferentes épocas e contextos, perscrutaram a tênue fronteira entre a esperança e a ação. Blaise Pascal (1623-1662), com sua aposta existencial, embora versasse sobre a fé religiosa, implicitamente reconhecia a necessidade de agir como se Deus existisse, sem, contudo, depender passivamente de uma intervenção divina. Similarmente, o estoicismo, personificado em figuras como Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.) e Marco Aurélio (121-180 d.C.), preconizava a aceitação do que não podemos controlar e o cultivo da virtude como o único bem verdadeiro, instigando à ação consciente dentro dos limites da nossa capacidade. Mesmo o pragmatismo de William James (1842-1910) sublinha a importância das consequências práticas de nossas crenças, sugerindo que a esperança, desvinculada da ação, permanece estéril.   

            Acreditar em milagres, a meu ver, nutre a alma com a possibilidade do transcendente, com a abertura para o inesperado que pode irromper na monotonia do cotidiano. É permitir que a imaginação alce voo, que a rigidez da causalidade se flexibilize ante a eventualidade de uma graça imerecida. Essa crença infunde otimismo, revigora o espírito e nos impulsiona a perseverar mesmo diante de obstáculos aparentemente intransponíveis. Contudo, a advertência kantiana é lapidar: não devemos nos escorar nessa possibilidade como a única tábua de salvação. A dependência passiva do miraculoso nos paralisa, nos aliena da nossa própria capacidade de moldar o nosso destino.

            A vida, em sua intrínseca complexidade, tece-se com fios de causalidade e acaso. Esperar que um evento extraordinário, alheio ao nosso esforço, resolva todas as nossas mazelas é abdicar da nossa agência, é entregar as rédeas do nosso ser a uma força externa e incerta. A verdadeira sabedoria reside em conjugar a esperança com a ação deliberada. É como o lavrador que, embora possa rezar por uma boa colheita, não negligencia o arado, a semeadura e a irrigação. A fé no milagre pode inspirá-lo, mas é o seu trabalho árduo que, em última instância, determinará a abundância dos frutos.

            Essa filosofia ecoa em todas as esferas da existência. No campo da ciência, a busca por descobertas revolucionárias muitas vezes se inicia com uma intuição, com a crença na possibilidade de desvendar os segredos da natureza. Contudo, essa crença deve ser incessantemente testada, verificada através da experimentação rigorosa e da análise crítica. A simples espera por uma revelação espontânea seria a antítese do método científico. No âmbito pessoal, ansiar por um golpe de sorte financeiro sem investir tempo e esforço no trabalho e na educação é uma ilusão perigosa. Acreditar na possibilidade de encontrar o amor verdadeiro sem se abrir para o outro e cultivar relacionamentos é uma fantasia vazia.

            Portanto, a máxima kantiana nos convida a um equilíbrio delicado entre a esperança e a pragmática. Que alimentemos a chama da crença no extraordinário, pois ela nos infunde coragem e nos impulsiona a sonhar alto. Mas que, simultaneamente, mantenhamos os pés firmemente plantados no terreno da realidade, conscientes de que a concretização dos nossos anseios depende, em grande medida, do nosso empenho constante e da nossa ação decidida.

            O milagre, talvez, seja um acontecimento raro... que só visita quem está acordado.             Portanto, meu caro, acredite em milagres, sim. Mas leve o guarda-chuva. Pode chover razão.

            Lembrando de um velho ditado popular francês:  "Aide-toi, le ciel t'aidera." “Ajuda-te, que o céu te ajudará…, mas não se esqueça de trancar a porta depois que o céu der uma mãozinha, vai que ele resolve levar a carteira também?”

 

 
 
 

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