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MEUS DIAS “QUINTANARES”

  • Carlos A. Buckmann
  • 26 de abr. de 2025
  • 3 min de leitura

MEUS DIAS “QUINTANARES”

            Mário Quintana, esse imortal por essência – embora nunca tenha adentrado as portas da Academia Brasileira de Letras, talvez por sua genialidade despretensiosa que destoava das formalidades dos imortais mumificados –, nasceu em Alegrete, no interior do Rio Grande do Sul, em 1906. Poeta, tradutor e jornalista, Quintana nos deixou um legado que transcende as páginas impressas, perpetuando-se na simplicidade e profundidade com que enxergava a vida. O poeta da simplicidade profunda, aquele que habitou Porto Alegre como um espírito travesso e sábio, tecendo versos que ressoam na alma brasileira com uma familiaridade quase ancestral.  Ele era um alquimista de palavras, transformando a banalidade do cotidiano em reflexões que parecem sussurrar verdades universais.

            Justamente ao me deparar com sua frase – “Há noites que eu não posso dormir de remorso por tudo o que eu deixei de cometer” – que algo em mim despertou. Na quietude da madrugada, onde a cidade repousa e os sons se diluem na penumbra, senti-me na pele do poeta. Não são os pecados de omissão, os erros perpetrados, que toldam o sono do poeta, mas sim o vácuo das experiências não vividas, o silêncio das palavras não ditas, a inércia diante das oportunidades que a vida, pródiga e fugaz, nos oferece. Afinal, quantas vezes deixamos de atravessar fronteiras, empurrados pelo medo do erro ou da reprovação? A frase de Quintana é um convite implícito para abraçar o risco, para nos permitir ser audazes, mesmo que isso implique o risco de falhar. O único arrependimento que posso ter na vida, é o de que deixei de fazer.

            Quintana, com sua aparente leveza, compreendeu a essência paradoxal da existência. A vida não se resume a um catálogo de acertos e desacertos, mas a uma tapeçaria rica em nuances, tecida com a ousadia de nossas tentativas, mesmo que estas resultem em tropeços. Ele sabia que o medo de falhar, a paralisia da dúvida, são grilhões mais pesados que o peso de um erro cometido. O remorso pelo não feito corrói a alma em silêncio, deixando cicatrizes invisíveis, enquanto a falha, paradoxalmente, pode ser um degrau para o aprendizado, um fertilizante para o crescimento.

            Me permitam abrir um parêntese: Com ele absorvi um dos pequenos prazeres que ele cultivava: após o almoço, um cafezinho acompanhado de um quindim. É nesse ritual que percebo a conexão com o tempo, a pausa necessária para saborear não só a doçura do quindim, mas a doçura da própria vida. Quintana entendia que, para viver plenamente, era necessário sentir a textura dos instantes, mesmo que isso significasse assumir o desconforto de falhas e tentativas malsucedidas. E fechamos o parêntese.

            O verdadeiro remorso, tal como Quintana sugere, não está no erro cometido, mas na ausência de tentativa. Errar é humano, mas desistir de arriscar é renunciar à essência da humanidade. Falhar traz lições, experiências, cicatrizes que moldam quem somos. Não tentar é uma desistência silenciosa, uma rendição diante da infinidade de possibilidades que nos aguardam. Confesso que, em minha modesta existência, também experimento ecos dessa filosofia “quintaniana”. Observo a vastidão do conhecimento humano, as inúmeras possibilidades de aprendizado e criação, e por vezes me assalta uma ponta de inquietação pelas tarefas que ainda não realizei, pelas conexões que não estabeleci, pelas fronteiras do saber que ainda não explorei.

            Uma sociedade que teme o erro, que pune a iniciativa, estagna. São as tentativas audaciosas, os experimentos que desafiam o status quo, que impulsionam a evolução, que abrem novos caminhos para o bem-estar coletivo. O remorso pelo que deixamos de tentar como sociedade pode se manifestar em oportunidades perdidas, em soluções não implementadas para os desafios que nos assolam. Como sociedade, essa filosofia nos impulsiona. Grandes avanços – seja na ciência, na arte ou nas relações humanas – vieram de pessoas que ousaram quebrar paradigmas, atravessar barreiras e desafiar normas. A coragem para errar é o combustível que move nosso progresso coletivo e nos mantém vivos como indivíduos que se reinventam.

            Mário Quintana, com a força sutil de sua poesia, nos legou mais do que belos versos. Ele nos ofereceu uma lente para enxergar a vida em sua plenitude, com suas dores e delícias, com seus acertos e, sobretudo, com a urgência de suas infinitas possibilidades. Que suas palavras nos inspirem a viver com mais audácia, a errar com mais aprendizado e, quem sabe, a dormir com menos remorsos pelo muito que ousamos cometer.

            Assim como Quintana sabia que a vida é um mosaico de atos audaciosos e arrependimentos que nos constroem, que possamos, cada vez mais, deixar de lado o remorso pelo que não cometemos. Afinal, como dizia o poeta, melhor é carregar na bagagem os erros por ter tentado do que o vazio por não ter sequer ousado.

            E assim, sigo tentando cometer o máximo de "erros" saborosos por aí, especialmente se envolverem café e quindim.

 

 

 
 
 

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