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MEU LIVRO DA SEMANA -98

  • Carlos A. Buckmann
  • 7 de jul. de 2024
  • 6 min de leitura

MEU LIVRO DA SEMANA – 98

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS – Machado de Assis

Entre tantas obras que já comentei, não posso esquecer do maior de nossos autores e o criador da Academia Brasileira de Letras. Esse, realmente imortal, a despeito de tantas insignificâncias que atualmente  ocupam algumas cadeiras da ABL.

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908)  é conhecido por seus romances e contos, mas também escreveu crônicas, poesias, crítica literária e peças de teatro. Nasceu na Chácara do Livramento, no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839. Filho do mulato Francisco José de Assis e da imigrante portuguesa Maria Leopoldina. Fez seus primeiros estudos na escola pública do bairro de São Cristóvão. Aprendeu latim com o padre Silveira Sarmento e francês com um forneiro em uma padaria. Aos 15 anos, conheceu Francisco de Paula Brito, dono de uma livraria e jornal onde foi inspirado para a literatura e a poesia. Começou a escrever poesias para o jornal “Marmota Fluminense”. Trabalhou como revisor de provas no “Correio-Mercantil” e colaborou com outros jornais. Estreou como crítico teatral na revista “Espelho”. Escreveu nove romances, sendo “Memórias Póstumas de Brás Cubas” o mais famoso. Nessa fase, revelou seu talento na análise do comportamento humano, explorando vaidade, egoísmo e hipocrisia. Além de ser o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, ele foi cofundador dessa instituição. Sua obra é marcada por um estilo inovador e uma abordagem crítica da sociedade.

 “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é narrado em primeira pessoa pelo protagonista, Brás Cubas, um “defunto-autor”. Ele decide escrever sua autobiografia após a morte, expressando opiniões sem se preocupar com o julgamento dos vivos. A estrutura não é linear, e o tom é cáustico e irônico.

O livro oferece uma visão crítica da elite carioca do século XIX, explorando temas como casamento, traição, vaidade e ambição. O autor retrata a sociedade, as classes sociais, o cientificismo e o positivismo da época, que é apresentada pelos personagens:

Brás Cubas: O protagonista e narrador, um homem rico e solteiro. Virgília: Amor de Brás Cubas, casada com Lobo Neves. Quincas Borba: Filósofo e amigo de Brás Cubas. Marcela: outra amante de Brás Cubas.

A obra foi publicada em 1881, período de transição entre o romantismo e o realismo no Brasil.

Machado de Assis rompe com a narração linear e objetiva, influenciando gerações de escritores. Ele cria o “humanitismo”, uma sátira ao “darwinismo social”, bem representado quando o narrador assim fala:

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”

Vamos abrir um parênteses: O “Humanitismo” é uma filosofia fictícia criada por Joaquim Borba dos Santos, também conhecido como Quincas Borba, um dos personagens célebres de Machado de Assis. Essa filosofia é exposta principalmente no romance “Quincas Borba” e, de forma secundária, aqui  em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. O Humanitismo acredita na seleção natural e vê a guerra como uma forma de seleção da espécie. Os críticos consideram o Humanitismo uma sátira ao Humanismo. Por outro lado, o Humanismo na literatura renascentista valoriza a busca pelo conhecimento, a exaltação do ser humano e a celebração da cultura clássica. Portanto, enquanto o Humanitismo é uma criação ficcional de Machado de Assis, o Humanismo é um movimento literário e filosófico real que floresceu no Renascimento. - E fechamos o parênteses.

A ironia desempenha um papel fundamental em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Machado utiliza esta ironia para criticar a sociedade, os valores e as convenções da época. O protagonista, Brás Cubas, narra sua vida após a morte com um tom sarcástico e desencantado. Através dessa ironia, o autor revela hipocrisias, vaidades e contradições humanas. Por exemplo, Brás Cubas se autodenomina “defunto-autor” e escreve suas memórias sem preocupação com a moralidade ou agradar aos vivos. Essa abordagem irônica subverte as expectativas do leitor e questiona a seriedade da vida e da morte. A obra é um convite à reflexão sobre a condição humana e a fugacidade da existência.

A relação entre Brás Cubas e Marcela é permeada pela ironia. Marcela é uma das amantes de Brás Cubas, e sua história é marcada por interesses materiais e convenções sociais. Então a  ironia se manifesta quando Brás Cubas descreve o relacionamento com ela como uma “paixão de defunto”, destacando a superficialidade e a falta de verdadeira conexão emocional. A relação é mais uma vez a crítica à hipocrisia e à busca por prazeres mundanos, revelando a vaidade e a fragilidade das relações humanas. Essa ironia contribui para a visão cética e desencantada do protagonista em relação à vida e ao amor.

Agora vamos analisar outra personagem importante: Virgília, que  desempenha um papel significativo na vida de Brás Cubas. Ela é uma das amantes do protagonista e representa a busca por prazeres mundanos e a superficialidade das relações sociais. Virgília é casada com Lobo Neves, mas mantém um relacionamento extraconjugal com Brás Cubas. Sua presença na narrativa nos traz outra vez  a hipocrisia e a vaidade da alta sociedade carioca do século XIX. A relação entre Brás Cubas e Virgília é marcada por interesses materiais e convenções sociais, e sua história é mais um exemplo da ironia presente na obra. Essa relação é complexa e reveladora. O relacionamento deles é marcado por paixão, traição e interesses materiais. No entanto, com o tempo, a paixão diminui, e Brás Cubas percebe a futilidade de suas emoções. Virgília também se distancia dele, e o relacionamento se torna mais superficial. A ironia está presente nessa relação, pois ambos buscam satisfação egoísta, sem considerar as consequências morais.

Lobo Neves, marido de Virgília, é a outra ponta do triângulo amoroso, Ele é o terceiro vértice desse relacionamento complexo. Sua presença cria tensão e conflito, já que Brás Cubas se envolve com Virgília, mesmo sabendo que ela é casada. Lobo Neves representa a convenção social e a instituição do casamento, enquanto Brás Cubas simboliza a paixão e a transgressão. A ironia está sempre presente também na forma como esses personagens interagem, revelando, como já mencionei, as contradições e hipocrisias da sociedade da época e, que, queiramos ou não, se repete no nosso dia a dia.

Lobo Neves reage ao relacionamento entre Brás Cubas e Virgília com uma mistura de desconfiança e ciúmes. Ele percebe a proximidade entre sua esposa e Brás Cubas, mas, como homem da alta sociedade, (e hipócrita) prefere manter as aparências e não confrontar abertamente a situação. A ironia também está presente aqui, pois Lobo Neves representa a convenção social do casamento, enquanto Brás Cubas e Virgília transgridem essas normas.

Os momentos mais tensos envolvendo Brás Cubas, Virgília e Lobo Neves  ocorrem quando a traição e os interesses pessoais colidem com as convenções sociais. Por exemplo, quando Lobo Neves suspeita do relacionamento entre sua esposa Virgília e Brás Cubas, a tensão aumenta. Além disso, a descoberta da gravidez de Virgília, que pode ser de Brás Cubas, também gera conflitos. Esses momentos destacam mais  as contradições e fragilidades das relações humanas e a ironia presente na obra.

O desfecho da história de amor e traição entre Brás Cubas, Virgília e Lobo Neves é marcado pela morte e pelo distanciamento. Virgília morre, e Brás Cubas reflete sobre a efemeridade dos sentimentos e a vaidade humana. O triângulo amoroso não tem um desfecho tradicional, mas serve como crítica à hipocrisia e à superficialidade das relações sociais da época. O que reforça a ironia que  permeia toda a narrativa, revelando as contradições e fragilidades da condição humana.

“Memórias Póstumas de Brás Cubas” é uma obra de relevância ímpar tanto para a literatura brasileira quanto para a universal.

Machado de Assis introduziu uma narrativa inovadora, com o protagonista Brás Cubas contando sua história após a morte. Essa abordagem não linear e o uso da primeira pessoa para um “defunto-autor” foram revolucionários.

Em resumo, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é uma obra-prima que transcende fronteiras e permanece relevante e atual pela sua originalidade e profundidade. Sua narrativa inovadora  influenciou profundamente a literatura brasileira e universal. Machado  quebrou paradigmas ao criar um protagonista defunto que narra sua própria história. Essa abordagem não linear, o uso da primeira pessoa e a ironia presente na obra  inspiraram outros escritores a experimentar com formas narrativas não convencionais. O legado de Machado de Assis se estende a autores contemporâneos e continua a impactar a literatura até hoje.

Mesmo que você não vá fazer nenhum vestibular, já que essa obra SEMPRE cai nas provas, eu reafirmo:

VALE A PENA.

Boa leitura.

NH, 07/07/2024

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