MEU LIVRO DA SEMANA -92
- Carlos A. Buckmann
- 26 de mai. de 2024
- 4 min de leitura

MEU LIVRO DA SEMANA – 92
UM INIMIGO DO POVO (Henrik Ibsen)
Sou naturalmente um leitor voraz. Apenas abomino e me nego a ler livros de autoajuda escritos por pseudos “coaches”(esses que dizem o que você quer ouvir e que nunca vai por em prática). Sem falsa modéstia, me acho suficientemente inteligente para pensar por conta própria. De resto, leio desde a Bíblia até Lolita de Nabokov. Minhas horas de leitura começam sempre por alguma poesia ou crônica, para só depois entrar de cabeça no livro que estou lendo, relendo e marcando. E esse livro pode ser dos mais variados temas desde filosofia, psicologia, romance, história, documentário, economia, política, gestão de pessoas e tudo o que me parecer interessante, inclusive peças teatrais, desde Shakespeare até Plínio Marcos, passando pelas tragédias gregas e chegando a João Cabral de Melo Neto, Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal. - Escrevo toda essa introdução para que não se surpreendam com o livro comentado nessa semana que é um texto teatral, com profunda conotação de crítica à má política.
Henrik Ibsen (1828-1906) foi um dramaturgo norueguês, considerado um dos criadores do teatro realista moderno, que é bem representado nessa obra. Nasceu na cidade portuária de Skien, Noruega, filho de um comerciante abastado que faliu quando Henrik era menino, o que o fez crescer na pobreza. Ibsen foi aprendiz de farmacêutico e estudou sozinho para entrar na Universidade. Em 1850, lançou sua primeira peça, Catilina, um drama cheio de rebeldia, inspirada nas revoluções europeias de 1848 e nos escritos do filósofo romano Cícero. Ibsen foi também poeta e diretor teatral, dirigindo o Teatro de Bergen, a segunda cidade mais importante do país.
“Um Inimigo do Povo”.
A peça foi escrita em 1882 e apresentada pela primeira vez em 1883, no contexto da segunda Revolução Industrial, do cientificismo e do movimento dos proletariados progressistas. A história se passa numa pequena cidade balneária da Noruega.
Tem como personagens principais:
Dr. Thomas Stockmann, médico das Termas
Sra. Katherine Stockmann, sua mulher
Petra, filha de ambos, professora
Ejlif e Morten, os filhos do casal
Peter Stockmann, o irmão mais velho do médico. Prefeito, Chefe da Polícia, Presidente do Conselho de Administração das Termas, o todo poderoso da cidade.
Morten Kiil, proprietário de curtumes, pai adotivo da Sra. Stockmann
Hovstad, editor do jornal People’s Herald (Mensageiro do Povo)
Billing, um jornalista
Capitão Horster
Aslaksen, um tipógrafo
O protagonista, Dr. Stockmann, descobre que a água da sua cidade está contaminada, causando doenças em seus visitantes. No entanto, a cidade está em ascensão econômica devido à atividade de uma estação balneária. Ao se encontrar no dilema de contar a verdade à população arriscando o desenvolvimento econômico da cidade, ou de manter-se calado, o médico decide denunciar essa situação. Entretanto, ao relatar o problema, seu irmão, que também é o prefeito da cidade, Peter Stockmann, a maior parte dos habitantes e a imprensa o atacam fortemente. No ato 4 há uma forte cena em que o Dr. Stockmann faz um discurso à população os acusando de alienação, hipocrisia, ignorância e corrupção. Após isso, o povo decide que o médico é o “inimigo do povo”.
A obra é uma crítica à corrupção, à ganância e à hipocrisia da sociedade, e questiona a relação entre o indivíduo e a comunidade. A poluição das águas é usada como metáfora no drama de Ibsen para denunciar a sujeira na estrutura social daquela cidade — no governo, na imprensa, no comércio e na sociedade em geral.
A peça destaca a corrupção política na cidade, especialmente através do personagem do prefeito Peter Stockmann, que é mais preocupado com a economia da cidade do que com a saúde de seus cidadãos. Ele representa a figura do político que coloca seus próprios interesses acima do bem-estar do povo.
O papel da mídia também é criticamente examinado na peça. O editor do jornal local, Hovstad, inicialmente apoia o Dr. Stockmann em sua denúncia, mas muda de lado quando percebe que a verdade pode prejudicar seus próprios interesses. Isso mostra como a mídia pode ser manipulada e usada para influenciar a opinião pública.
A peça também explora a tendência da sociedade em se conformar e evitar a verdade quando ela é inconveniente. Quando o Dr. Stockmann revela a verdade sobre a contaminação da água, a sociedade o rotula como “um inimigo do povo” por perturbar o status quo. - Apresenta um conflito entre o indivíduo (Dr. Stockmann) e a comunidade. Ibsen questiona se o indivíduo tem o direito de ir contra a maioria para o bem maior.
Esse texto nos mostra que os meandros da política são sempre os mesmos, desde que o mundo é mundo, ou seja, desde que o ser humano evoluiu do australopitecos ao homo sapiens, na eterna luta do poder pelo poder.
Portanto, “Um Inimigo do Povo” é uma crítica mordaz à corrupção política, à manipulação da mídia, ao conformismo social e à tensão entre o indivíduo e a comunidade, convidando a questionar essas normas sociais e políticas.
Eis um texto que nos faz entender um pouco mais de política.
VALE A PENA.
Boa leitura.
NH. 26/05/2024. – Com as águas baixando e a destruição causada aparecendo.
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