MEU LIVRO DA SEMANA - 89
- Carlos A. Buckmann
- 5 de mai. de 2024
- 7 min de leitura

MEU LIVRO DA SEMANA – 89
O VELHO E O MAR - (ERNEST HEMINGWAY)
Escrevo nessa madrugada, ouvindo trovoadas e o barulho da chuva forte que teima em cair, em meio a maior tragédia climática já vivida no Rio Grande do Sul em toda sua história. Temos mais da metade do Estado coberto pelas águas (perto de 250 municípios) e com todas as rodovias interrompidas, o que me levou a lembrar desse livro que vou comentar.
Foi na década de 70 que tomei contato com a obra de Ernest Hemingway, e que lembro até hoje como forma de resiliência, coragem e determinação, o que precisamos ter nesse momento em meio ao caos em que estamos vivendo. Esse livro foi adaptado para o cinema em 1958, sob a direção de John Sturges e magistralmente interpretado por Spencer Tracy. Quem quiser ver, está no YouTube.
Ernest Hemingway (21 de julho de 1899 - 2 de julho de 1961) romancista e escritor de contos e romances americano, premiado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1954, conhecido tanto pela intensa masculinidade de sua escrita quanto por sua vida aventureira, amplamente divulgada em todos os meios de comunicação da época, passou muito tempo caçando e acampando após a Primeira Guerra Mundial.
Hemingway teve um papel bastante ativo durante a Segunda Guerra Mundial. Embora oficialmente tenha servido como correspondente de guerra, passou muito do seu tempo na Europa entre 1944 e 1945 participando de operações de guerra irregulares.
Quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial em dezembro de 1941, Hemingway estava vivendo em sua fazenda nos arredores de Havana, Cuba. Apesar de sua falta de interesse imediato no conflito, Hemingway, um aventureiro nato, em maio de 1942, propôs ao embaixador americano em Cuba, Spruille Braden, um plano intrigante, embora um tanto incomum. Assim, Hemingway voou em missões com a RAF (em parte para reunir material para um romance), desembarcou na Praia de Omaha no Dia D e envolveu-se com as forças da Resistência Francesa , até mesmo entrando nas perigosas ruas de Paris recém-libertadas.
Apesar de suas ações terem sido ilegais, elas sem dúvida ajudaram as forças dos EUA a avançarem na França. Suas habilidades diversas, desde o conhecimento do francês até a capacidade de ler mapas e entender o terreno, provaram ser extremamente úteis para os comandantes militares dos EUA na área.
Como recompensa por seus atos heroicos, Hemingway foi condecorado com a Medalha Estrela de Bronze, a mais alta condecoração militar disponível para um civil. A citação oficial creditou Hemingway com coragem ao trazer a realidade da guerra para seus leitores. No entanto, é importante notar que suas ações heroicas no campo de batalha não puderam ser mencionadas na citação porque era contra a Convenção de Genebra para correspondentes se envolverem em ações militares.
Além disso, as experiências de guerra de Hemingway também influenciaram a forma como ele retratou os personagens em suas histórias. Muitos de seus personagens são soldados, correspondentes de guerra ou pessoas afetadas pela guerra. Eles frequentemente lutam com traumas físicos e psicológicos, um reflexo das próprias experiências de Hemingway.
Por exemplo, no romance “Por Quem os Sinos Dobram”, o personagem principal, Robert Jordan, é um jovem americano na Brigada Internacional lutando na Guerra Civil Espanhola. A história é tanto uma aventura de guerra quanto uma história de amor, e a experiência de Hemingway como correspondente na Espanha é evidente na descrição detalhada e realista da guerra.
Em suma, as experiências de guerra de Hemingway não apenas influenciaram seu estilo de escrita, mas também moldaram a maneira como ele retratou personagens e eventos em suas obras. A guerra, para Hemingway, não era apenas um evento histórico, mas uma força poderosa que moldava a vida das pessoas de maneiras profundas e duradouras.
Quando Hemingway se mudou para Cuba em 1940, o país estava sob a presidência de Fulgencio Batista, que governou como um ditador de direita, a serviço dos Estados Unidos. Gostem ou não, isso é história e não tem como mudar. Cuba era uma nação politicamente instável, com frequentes mudanças e corrupção generalizada.
No entanto, a situação política em Cuba mudou drasticamente após a Revolução de 1959. Fidel Castro e seu movimento revolucionário derrubaram o regime de Batista e estabeleceram um governo socialista. Após a revolução, as relações entre Cuba e os Estados Unidos começaram a se deteriorar rapidamente, culminando no embargo dos EUA a Cuba em 1960.
Apesar dessas tensões políticas, Hemingway permaneceu em Cuba até 1961. Ele era respeitado pelo governo de Fidel Castro e amado pelo povo cubano. No entanto, em 1961, deixou Cuba e voltou para os Estados Unidos, onde cometeu suicídio naquele ano.
Importante no contexto do romance que vamos analisar, é saber que Hemingway adorava pescar, especificamente em seu barco, “The Pilar”. Ele também participou em safáris e caçou no Serengeti, de onde extraiu as características de muitos de seus protagonistas. - Durante o período em que escreveu “O Velho e o Mar”, vivendo em Cuba, foi bastante influenciado pelos usos e costumes do povo. Era a década de 1940 e ele passava muito tempo na água, pescando em seu barco. Viveu em Cuba por quase 20 anos, período em que esta, era uma “colônia de férias”, com seus cassinos luxuosos de uso exclusivo para a classe alta americana, com a complacência de Fulgêncio Batista.
“O Velho e o Mar” é a história de uma luta épica entre um velho pescador experiente (Santiago) e o maior peixe capturado em sua vida. - Santiago, um pescador cubano idoso, não conseguiu pegar um peixe que valesse a apena, por 84 dias. No 85º dia de sua maré de azar, Santiago promete ir mais longe do que o habitual, onde ele logo fisga um marlim gigante. Ele luta com o peixe por três dias, admirando sua força, dignidade e fidelidade à sua identidade. Finalmente, ele consegue trazer o marlim para perto o suficiente para matá-lo com um golpe de arpão. Como o peixe era muito grande para ser colocado dentro de seu pequeno barco, Santiago o amarrou ao lado da embarcação. No entanto, o esforço exaustivo de Santiago se mostrou em vão. Tubarões são atraídos para o marlim amarrado, e, embora Santiago consiga matar alguns, os tubarões comem o peixe, deixando para trás apenas seu esqueleto.
Poucos, mas complexos, são os personagens em “O Velho e o Mar”: - Santiago: O velho pescador que é o protagonista da novela. - O marlim, peixe que Santiago fisga e luta para trazer para o barco. - Manolin: um jovem que é aprendiz e amigo devotado de Santiago.
A história examina ideias sobre o porquê da vida envolver sofrimento e fracasso, e de como enfrentar e suportar a perda. Hemingway se mostra fascinado com ideias de homens provando seu valor ao enfrentar e superar os desafios da natureza. Quando o velho fisga um marlim maior do que seu barco, ele é testado ao limite enquanto trabalha na linha com as mãos sangrando em um esforço para trazê-lo perto o suficiente para golpeá-lo com o arpão.
É interessante fazer uma análise psicológica do contexto dessa obra:
Resistência à Derrota: Santiago, o protagonista, é um pescador que não pega um peixe há 84 dias. No entanto, ele se recusa a ser derrotado. Ele navega mais longe no oceano do que nunca, na esperança de pegar um peixe, e luta com o marlim por três dias e noites, apesar da imensa dor física e exaustão.
Orgulho: O orgulho é frequentemente retratado como um atributo negativo que faz as pessoas alcançarem demais e, como resultado, sofrem uma queda terrível. Santiago, que sabe que matou o marlim “por orgulho”, se pergunta se o pecado do orgulho foi responsável pelo ataque de tubarões.
Amizade: A amizade entre Santiago e Manolin desempenha um papel crítico na vitória de Santiago sobre o marlim. Manolin fornece apoio físico e emocional a Santiago, trazendo-lhe comida e roupas e ajudando-o a carregar seu barco, para sair em alto mar.
O título da novela, “O Velho e o Mar”, sugere o papel temático crítico que a idade desempenha na história. Santiago e Manolin, os dois personagens principais do livro, (representam o velho e o jovem) e uma bela harmonia que se desenvolve entre eles.
A história examina a relação do homem com a natureza. Santiago pensa nos peixes voadores como seus amigos e fala com um pássaro para passar o tempo. O mar é perigoso, com seus tubarões e clima potencialmente traiçoeiro, mas também é belo e cheio de vida.
A solidão é um tema significativo e tem um impacto profundo em Santiago, o protagonista. - Através de sua solidão no mar, Santiago confronta seus próprios pensamentos, refletindo sobre sua existência e encontrando consolo em sua própria companhia. Isso permite que ele se conheça melhor e compreenda sua própria força e resiliência. Embora esteja fisicamente sozinho na maior parte da história, nunca se sente verdadeiramente só. Ele encontra amigos em outras criaturas, como os peixes voadores, que são “seus principais amigos no oceano”, e o marlim, com quem ele compartilha uma luta intensa. Ele chama as estrelas de “amigos distantes” e pensa no oceano como uma mulher que ele ama.
A presença de Manolin, quando na praia, o jovem aprendiz de Santiago, realça sua solidão no mar, pois embora esteja fisicamente sozinho no mar, ele imagina Manolin sentado ao seu lado, o que lhe dá força e companhia.
Portanto, a solidão afeta Santiago de várias maneiras, permitindo-lhe refletir sobre sua vida, formar conexões profundas com a natureza e demonstrar sua resiliência e coragem.
Não posso deixar de ressaltar que “O Velho e o Mar” é rico em simbolismos: - O marlim, que Santiago luta para trazer para o barco, é um símbolo de um oponente ideal. É magnífico e glorioso, trazendo à tona o melhor de Santiago: sua força, coragem, amor e respeito. - Santiago sonha com leões nas praias da África, que ele viu quando era um menino em um navio que navegava e pescava, que podem ser vistos como um símbolo de juventude, força e coragem.- Os tubarões, que são pouco mais do que apetites móveis que atacam o marlim sem pensar, simbolizando e incorporando as leis destrutivas do universo e atestam o fato de que essas leis só podem ser transcendidas quando iguais lutam até a morte. - No final de “O Velho e o Mar”, Santiago, exausto, remove o mastro de seu barco e o arrasta pela praia até sua cabana, numa figuração de Cristo e sua cruz. - Joe Di Maggio, o lendário jogador de beisebol americano, idolatrado por Santiago, serve como a inspiração final. A lenda do beisebol simboliza persistência e resiliência, e seu sofrimento se assemelha ao de Santiago.
Li essa obra nos anos 70 do século passado e nunca mais saiu da minha memória, sendo inspiração para as horas de dificuldades, como as que estamos vivendo nesse momento.
VALE A PENA.
Boa leitura.
NH, 05/05/2024. (Em meio a maior tragédia que assola nosso Estado).
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