MEU LIVRO DA SEMANA - 88
- Carlos A. Buckmann
- 28 de abr. de 2024
- 6 min de leitura

MEU LIVRO DA SEMANA – 88
Na realidade, meu livro dessa semana, não é só um livro, mas sim três, os quais eu considero trazerem a síntese do pensamento filosófico de Jean-Paul Sartre.
Ates, preciso revelar um segredo: eu não gosto do estilo de escrita de Sartre. Lembro que quando li seu romance “A Náusea”, achei-o depressivo e, confesso, não gostei. Então você, com toda a razão, vai me perguntar: - Por que raios está apresentando então essas obras? – Pra quem me conhece um pouco mais, a explicação seria desnecessária, mas explico: sou um permanente estudioso de filosofia e procuro entender todas as correntes filosóficas já desenvolvidas ou em desenvolvimento e o EXISTENCIALISMO não poderia ficar de fora. Confesso também, que me identifico com muitos pontos dessa corrente. Isso dito, vamos lá:
Jean-Paul Sartre (1905-1980) filósofo, romancista e dramaturgo francês, conhecido como o principal expoente do existencialismo no século XX, nasceu em Paris e cresceu na casa de seu avô materno, Carl Schweitzer, que era professor de alemão na Sorbonne. Sartre estudou na “École Normale Supérieure”, onde conheceu Simone de Beauvoir, que se tornou sua companheira de vida. Sartre resistiu ao que chamou de “casamento burguês”, mas enquanto ainda era estudante, formou com Simone de Beauvoir uma união que permaneceu uma parceria estável na vida. Formaram um dos casais mais influentes do século 20, tanto por suas contribuições filosóficas quanto literárias.
Apesar de nunca terem se casado, algo considerado escandaloso para a França da metade do século 20, eles mantiveram um relacionamento duradouro e profundamente intelectual. Eles tinham um relacionamento aberto, o que significa que ambos estavam livres para se envolver em relacionamentos com outras pessoas.
Sartre e Beauvoir compartilhavam uma visão de mundo e uma maneira de escrever, e a relação entre eles implicava em uma igualdade total. A história de amor entre Sartre e Beauvoir se confundiu com a trajetória intelectual de ambos e se estendeu por mais de 50 anos.
A escritora Claudine Monteil, uma das fundadoras do movimento de direitos das mulheres na França e amiga pessoal do casal, descreveu Sartre e Beauvoir como "a dupla mais incrível do mundo". Ela também revelou que, apesar da relação aberta e do acordo que ambos tinham, Beauvoir sofria com as amantes de Sartre.
Precisamos também destacar que Sartre foi fortemente influenciado pelos filósofos alemães Friedrich Nietzsche, Karl Marx e Martin Heidegger, mas é mais conhecido por sua filosofia do existencialismo, que se concentra na experiência individual e na liberdade de escolha. Sua filosofia atraiu muitos adeptos na filosofia e nas artes.
Considerando que Jean-Paul Sartre, Søren Kierkegaard e Friedrich Nietzsche são três filósofos influentes associados ao movimento existencialista, mas cada um tem uma abordagem filosófica distinta, é necessário que tracemos essas similitudes e controvérsias:
Sartre X Kierkegaard
Existencialismo: Ambos são conhecidos por suas contribuições para o pensamento existencialista, mas Sartre é geralmente considerado o principal expoente do existencialismo ATEU, enquanto Kierkegaard é associado ao existencialismo CRISTÃO.
Visão sobre a moralidade: Sartre defendia uma ética baseada na liberdade individual e na responsabilidade de cada pessoa em criar seus próprios valores(escolha e consequência). Ele acreditava que não existem regras morais universais e que a escolha pessoal é a única base para a moralidade. Kierkegaard, por sua vez, estava mais interessado na moralidade cristã e na relação individual com Deus. Ele argumentava que a verdadeira moralidade envolve uma escolha pessoal de se submeter à vontade de Deus.
Sartre X Nietzsche
Existencialismo: Nietzsche, assim como Dostoiévski, com as devidas diferenças de exposições, é considerado um precursor do movimento existencialista. Ele se interessava pelo fato de as pessoas ocultarem a falta de significado da vida e utilizarem distrações para fugir da monotonia.
Visão sobre Deus: Nietzsche proclamou a “morte de Deus”, afirmando que o conceito de Deus estava obsoleto. Sartre, por outro lado, não se concentrou tanto na ideia de Deus, mas sim na liberdade e responsabilidade do indivíduo em um mundo sem Deus.
Espero que me perdoem por ter entrado em tantas minúcias na biografia de Sartre, mas acho que foi importante para entendermos a sua filosofia existencialista, mostrando que ele vivia de acordo com o que pensava.
Esses três livros que passamos a analisar, como mencionei no início e volto a reforçar, são, a meu ver, a síntese de sua filosofia. São obras que, apesar de pouca extensão, não mais que 60 ou 70 páginas, têm um conteúdo complexo e expressivo de toda sua filosofia.
“O SER E O NADA: Ensaio de ontologia fenomenológica” é um tratado filosófico de 1943, considerado um marco para o início do crescimento do existencialismo no século XX. Seu foco principal é definir a consciência como transcendente. Sartre distingue entre dois modos de consciência: consciência irrefletida e consciência reflexiva. A consciência irrefletida é simplesmente a consciência habitual frente a outras coisas que não a própria consciência.
“O Ser e o Nada” é uma das obras mais importantes de Jean-Paul Sartre e um marco do existencialismo, onde destaco alguns dos conceitos principais:
Consciência Transcendente: O foco principal do livro é definir a consciência como transcendente. Sartre argumenta que a consciência é sempre intencional, ou seja, é sempre e necessariamente consciência de algo.
Ser-em-si e Ser-para-si: Sartre faz uma interessante apreciação entre o ser-em-si (o mundo físico) e o ser-para-si (a consciência humana). O ser-em-si é inerte e sem consciência, enquanto o ser-para-si é caracterizado pela consciência e pela capacidade de negação.
Má-fé: Sartre introduz o conceito de má-fé, que é a tendência dos seres humanos de se enganarem sobre a realidade de sua situação, negando sua liberdade e responsabilidade.
A existência precede a essência: Este é um dos princípios fundamentais do existencialismo de Sartre. Significa que primeiro existimos e depois definimos nosso propósito ou essência na vida.
Liberdade e Angústia: Sartre acredita que os seres humanos são radicalmente livres e, portanto, responsáveis por suas ações. No entanto, essa liberdade pode levar à angústia, pois reconhecemos (pelo menos os não dogmáticos) a extensão de nossa liberdade e responsabilidade.
Negação: Sartre vê a negação como uma característica central da consciência. Ele argumenta que a consciência é sempre consciência de algo, e essa “coisa” é frequentemente percebida em termos do que não é.
O EXISTENCIALISMO É UM HUMANISMO foi um ensaio apresentado em público por Sartre em 1946 como resposta às críticas feitas ao existencialismo pela crítica especializada da época. Sartre, nessa conferência, afirma que o existencialismo é uma doutrina que torna a vida humana possível e que declara que toda a verdade e toda a ação implicam um meio e uma subjetividade humana. Tinha como uma das crenças-chave do existencialismo, que a existência precede a essência.
Resumindo sua apresentação que então se transformou nesse livro:
Existencialismo: Aqui Sartre vincula firmemente seu nome ao movimento filosófico conhecido como existencialismo. Ele acredita que os indivíduos são livres e responsáveis por suas próprias escolhas e ações, e que devem criar seus próprios valores e propósitos em um mundo que é absurdo e indiferente. Eis uma das partes com que me identifico no existencialismo.
Humanismo: O título do ensaio é uma resposta às críticas de que o existencialismo é anti-humanista. Sartre argumenta que o existencialismo é, na verdade, uma forma de humanismo, pois coloca o ser humano no centro de tudo. Para ele, estamos constantemente fora de nós mesmos; é projetando-se e perdendo-se fora de si que o homem faz com que o homem exista.
Liberdade e Responsabilidade: Ele acredita que estamos condenados a ser livres. Como somos livres para escolher nosso caminho, também somos responsáveis pelas consequências de nossas escolhas. Como escreveu Pablo Neruda: - “Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências”.
Angústia: A liberdade pode levar à angústia, pois reconhecemos a extensão de nossa liberdade e responsabilidade.
Má-fé: Como na obra anterior, introduz o conceito de má-fé, que é a tendência dos seres humanos de se enganarem sobre a realidade de sua situação, negando sua liberdade e responsabilidade.
Por fim, e não necessariamente nessa ordem, “A Transcendência do Ego” é um ensaio filosófico publicado em 1936. Nele, ele expõe sua visão de que o eu ou ego não é algo de que se está ciente, de acordo com esses conceitos principais:
Consciência Intencional: Sartre argumenta que a consciência é sempre intencional; isto é, é sempre e necessariamente consciência de algo. O “objeto” da consciência pode ser quase qualquer tipo de coisa: um objeto físico, uma proposição, um estado de coisas, uma imagem ou humor rememorado - qualquer coisa que a consciência possa apreender.
Consciência Irrefletida e Reflexiva: Sartre distingue entre dois modos de consciência: consciência irrefletida e consciência reflexiva. A consciência irrefletida é simplesmente a consciência habitual de outras coisas que não a própria consciência. Uma consciência reflexiva é aquela que se coloca como seu objeto.
Por fim, vamos analisar A Transcendência do Ego:
Nesta obra, Sartre radicaliza o princípio da intencionalidade ao afirmar que a consciência nada mais é do que intencionalidade. Isso significa conceber a consciência como uma atividade pura e negar que haja qualquer “ego” que esteja dentro, atrás ou abaixo da consciência como sua fonte ou condição necessária.
Autoconsciência: Sartre também afirma que a consciência, mesmo quando irrefletida, é sempre minimamente consciente de si mesma. Esse modo de consciência ele descreve como “não-posicional” e, indicando que nesse modo a consciência não se põe como objeto, nem é confrontada por si mesma.
As obras de Sartre foram fortemente influenciadas por suas experiências durante a Segunda Guerra Mundial. Ele foi capturado pelos nazistas em 1940 e mantido como prisioneiro de guerra até 1941, quando escapou e retornou a Paris. Durante os meses que passou em cativeiro, Sartre começou a trabalhar no que se tornaria sua obra-prima, "O Ser e o Nada", que analisamos acima.
Bem, gostando ou não, eis os três livros necessários para conhecer o pensamento de JEAN-POUL SARTE.
Vale a Pena.
Boa Leitura
NH, 28/04/2024.
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