MEU LIVRO DA SEMANA - 87
- Carlos A. Buckmann
- 21 de abr. de 2024
- 5 min de leitura

MEU LIVRO DA SEMANA – 87
UMA ANEDOTA INFAME (Fiodor Dostoiévski)
Para quem gosta dos romances de Dostoievski, essa é uma obra imperdível, ou para quem quer começar a ler Dostoievski, eis aqui uma bom livro para isso, pois trata-se de uma novela publicada em apenas 95 páginas, de fácil leitura.
Mas comecemos pelos dados biográficos do autor: Fiódor Dostoiévski nasceu em 11 de novembro de 1821 em Moscou, Rússia, e faleceu em 9 de fevereiro de 1881 em São Petersburgo. Ele é conhecido por sua profunda penetração psicológica no coração humano, juntamente com seus momentos de iluminação, que, embora escritos no século XIX, tiveram uma imensa influência na ficção do século XX. Dostoiévski é considerado um dos maiores romancistas que já viveram, e eu o tenho como um de meus romancistas preferidos. Ele se especializou na análise de estados patológicos da mente que levam à insanidade, assassinato e suicídio (marcantes em CRIME E CASTIGO, sua maior obra) e na exploração das emoções de humilhação, autodestruição, dominação tirânica e raiva assassina. Foi preso em 1849 por pertencer a um grupo literário, o Círculo Petrashevsky, que discutia livros proibidos críticos da Rússia czarista. Por isso foi condenado à morte, mas a sentença foi comutada no último momento, passando quatro anos em um campo de prisioneiros na Sibéria, seguido por seis anos de serviço militar obrigatório no exílio.
Dostoiévski é associado ao existencialismo, uma corrente filosófica que enfatiza a liberdade individual, a escolha e a responsabilidade que a acompanha (no século XX aprimorada por Jean-Paul Sartre). Seus personagens muitas vezes se encontram lutando com dilemas existenciais, divididos entre imperativos morais e desejos pessoais. Ele viveu durante um período de grandes mudanças sociais e políticas na Rússia, e essas mudanças são refletidas em suas obras. - Foi um observador atento da sociedade russa de sua época, explorando as tensões entre as classes emergentes após a emancipação dos servos em 1861, a luta pela modernização e a resistência a ela, e o impacto da urbanização e da industrialização na sociedade russa.
Além disso, Dostoiévski também foi profundamente influenciado por suas próprias experiências de vida, incluindo seu exílio na Sibéria. Essas experiências deram a ele uma visão única das tensões sociais e psicológicas que caracterizavam a Rússia de sua época.
Por exemplo, nesta obra “Uma Anedota Infame”, satiriza a luta de classes da Rússia do século XIX. A história reflete a tensão entre a nobreza e a classe trabalhadora emergente, bem como a hipocrisia e o autoengano da elite liberal.
Portanto, para entender plenamente a obra de Dostoiévski, é crucial considerar o contexto histórico em que ele estava escrevendo. Isso nos ajuda a entender não apenas as motivações e ações de seus personagens, mas também as questões sociais e políticas mais amplas que estava tentando abordar em suas obras.
“Uma Anedota Infame” é uma novela escrita em meados de 1862, durante a chamada Reforma Emancipadora no Império Russo, iniciada no ano anterior pelo Czar Alexandre II. A história gira em torno de Ivan Ilítch Pralínski, um general e funcionário público,(na Rússia Czarista os militares podiam exercer simultaneamente um ou mais cargos públicos) conhecido como liberal pelos colegas, que ostenta com orgulho uma condecoração no pescoço e sonha em se tornar um grande estadista. Durante uma noite de confraternização com dois amigos, discutindo sobre política, ele apresenta a eles sua filosofia baseada na “bondade” para com pessoas de status mais baixo que o seu. Saindo da confraternização, caminhando em meio a neve, passa em frente a casa de um seu subordinado que está comemorando seu casamento e resolve entrar sem ser convidado. No entanto, sua visita se transforma em uma espiral de constrangimento, pois Pralínski, mesmo querendo interagir com as pessoas, em nome de sua filosofia, desprezar completamente todas elas, considerando-as incultas, grosseiras, bem abaixo de seu status como militar e como integrante do governo.
Nesta novela, além deste personagem principal Ivan Ilítch Pralínski, existem vários personagens periféricos que desempenham papéis importantes na trama. Embora sem muitos detalhes disponíveis, eles são essenciais para o desenvolvimento da sátira.
Um desses personagens é o subordinado de Pralínski, cujo casamento ele decide visitar sem ser convidado. Este personagem e sua esposa representam a classe trabalhadora da Rússia do século XIX. A interação de Pralínski com eles serve para destacar a hipocrisia da elite liberal, que afirma defender os interesses do povo, mas na verdade os despreza e os considera inferiores.
E eis-nos repetindo a história.
“A história é um profeta com o olhar voltados para trás; pelo que foi e contra o que foi, anuncia o que será” (Eduardo Galeano),
Outros personagens incluem os amigos de Pralínski, com quem, no início da novela, ele discute sua filosofia de “bondade” para com as pessoas de status mais baixo. A reação deles à filosofia de Pralínski ajuda a ilustrar a desconexão entre as ideias liberais da elite e a realidade da vida da classe trabalhadora.
Finalmente, há o mordomo de Pralínski, cuja ausência leva Pralínski a caminhar sozinho pelas ruas e, repentinamente, a se deparar com a festa de casamento. Este personagem desempenha um papel crucial na configuração do enredo da história.
Cada um desses personagens contribui para a sátira afiada de Dostoiévski, repito, sobre a luta de classes e a hipocrisia da elite liberal na Rússia do século XIX.
A sátira em “Uma Anedota Infame” é construída principalmente através dos diálogos entre os personagens, que revelam suas verdadeiras personalidades e intenções, muitas vezes em contraste com suas ações e palavras superficiais. Como em toda a obra de Dostoiévski, “um prato cheio” para a psicanálise.
Por exemplo, o diálogo de Pralínski com seus amigos revela sua filosofia de “bondade” para com as pessoas de status mais baixo. No entanto, quando ele tenta colocar essa filosofia em prática visitando o casamento de seu subordinado, suas verdadeiras atitudes e preconceitos são revelados. Ele trata os convidados do casamento com condescendência e desprezo, apesar de suas afirmações de querer interagir com eles em um nível igual.
Embora Dostoiévski não tenha vivido para ver a revolução que depôs o Czar, ele foi considerado um profeta da revolução russa. Em um ensaio escrito em 1906, ele conseguiu resumir os problemas cruciais de sua época e mapear a trajetória do povo e da sua evolução. Ele previu a disseminação do niilismo, do caos e do ódio, que foram alguns dos fatores que levaram à revolução. Ele capturou a essência da luta pela liberdade e justiça social, que foram questões centrais na revolução que depôs o Czar e a família imperial.
Nesta novela satírica, encontramos a eterna e velada, às vezes não tão velada, luta de classes, onde a aporofobia se revela em sua face mais crua e abjeta. Os anos passam e a repetição da desigualdade entre os homens se torna permanente, apesar de toda legislação que tenta controlá-la e que se mostra inútil.
Um livro para ler e refletir.
VALE A PENA.
Boa leitura.
# Fica a dica. Siga meu blog: https://linktr.ee/betobuckmann




Comentários