MEU LIVRO DA SEMANA - 86
- Carlos A. Buckmann
- 14 de abr. de 2024
- 7 min de leitura

MEU LIVRO DA SEMANA – 86
1984 – (George Orwell)
Como na publicação anterior (Meu Livro da Semana 85), fiz uma análise da UTOPIA de Tomáz Morus e mencionei a correlação antagônica com as DISTOPIAS e ainda, mencionei esse “1984” de GEORGE ORWELL, achei que seria legal comentar sobre ele, para que meus leitores pudessem melhor avaliar essas duas obras.
Então, como de costume, comecemos com a a biografia do autor: George Orwell, cujo nome verdadeiro era Eric Arthur Blair, nasceu em 25 de junho de 1903 em Motihari, Bengala, Índia, e morreu em 21 de janeiro de 1950 em Londres, Inglaterra. Foi um romancista, ensaísta e crítico inglês famoso por seus romances “A FAZENDA DOS BICHOS” (1945) e “1984” (1949), este último um profundo romance anti-utópico ou uma distopia, como preferirem, que examina os perigos do governo totalitário.
Orwell ficou conhecido por suas discussões sobre nacionalismo, totalitarismo, socialismo, propaganda, linguagem, status de classe, trabalho, pobreza, imperialismo, verdade, história e literatura. Ele acreditava que o totalitarismo é uma ordem política focada no poder e no controle. Argumentou que o poder político depende do pensamento e da linguagem. É por isso que o totalitário, que busca poder total, requer controle sobre o pensamento e a linguagem.
“1984” (o ano do futuro em que o autor imaginou o que aconteceria) é ambientado em Oceania, um dos três estados totalitários em guerra perpétua (os outros dois são Eurásia e Lestásia). Oceania é governada pelo Partido (único e sem outra denominação), que controla tudo, até mesmo a história e a língua das pessoas. O protagonista, Winston Smith, é um membro de baixo escalão do Partido em Londres(Londres e a própria Inglaterra, no romance, está situada na Oceania). Ele se sente frustrado com a opressão e o controle rígido do Partido, que proíbe o livre pensamento, o sexo e qualquer expressão de individualidade
Os personagens principais em “1984” incluem Winston Smith, Julia, O’Brien e o Grande Irmão (o Big Brother que tudo vê). Winston Smith é um membro do Partido Exterior que trabalha no Ministério da Verdade. Julia é a amante de Winston, uma bela garota de cabelos escuros que trabalha no Departamento de Ficção do Ministério da Verdade. O’Brien é um membro poderoso e sofisticado do Partido Interior, que Winston acredita ser também um membro da Irmandade, um lendário grupo de rebeldes anti-Partido que se acredita existir, mas que ninguém realmente conhece. O Grande Irmão, embora nunca apareça no romance, é uma figura extremamente importante e centralizadora do poder.
“1984” segue uma estrutura narrativa linear de três partes que permite ao leitor experimentar a desumanização de Winston, e criando tensão e simpatia pelos personagens principais.
Algumas das frases de “slogan” usadas pelo Partido, mostram a lavagem cerebral de um poder totalitário: “O Grande Irmão está te observando”, “Guerra é paz”. “Liberdade é escravidão”. “Ignorância é força” e "Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado".
Orwell escreveu “1984” logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, querendo que servisse como um aviso para seus leitores. Ele queria ter certeza de que o tipo de futuro apresentado no romance nunca se concretizasse, embora as práticas que contribuem para o desenvolvimento de tal estado estivessem abundantemente presentes no tempo de Orwell, assim como presente está em todo mundo atualmente, com as ameaças constantes às democracias.
O Partido em “1984” é uma entidade totalitária que exerce controle absoluto sobre todos os aspectos da vida em Oceania. Vale descrever algumas de suas principais características:
1. Controle Totalitário: O Partido controla tudo em Oceania, até mesmo a história e a língua das pessoas. Ele mantém o controle através da Polícia do Pensamento e da vigilância constante.
2. Líder Onipresente: Em todos os lugares que Winston vai, até mesmo em sua própria casa, o Partido o observa através de teletelas, isso num tempo em que a televisão não existia, descrevendo uma televisão interativa; em todos os lugares que ele olha, ele vê o rosto do líder aparentemente onisciente do Partido, uma figura conhecida apenas como Grande Irmão.
3. Duplipensar: Uma das palavras-chave do Partido é o duplipensar, que é a crença em ideias contraditórias simultaneamente. Isso se reflete nos slogans do Partido: “Guerra é paz”, “Liberdade é escravidão” e "Ignorância é força".
4. Repressão e Medo: O Partido usa a repressão e o medo para manter o controle. Qualquer forma de desobediência ou pensamento independente é punida severamente.
5. Manipulação da Realidade: O Partido é capaz de alterar a realidade ao controlar a percepção das pessoas. Eles fazem isso através da manipulação da linguagem (Novilíngua) e da alteração constante dos registros históricos para se alinhar com a propaganda do Partido.
Essas características ajudam a criar uma sociedade na qual o Partido tem controle total e inquestionável sobre seus cidadãos. A obra de Orwell é uma crítica poderosa a tais regimes totalitários.
O Partido usa a Novilíngua (um sistema de mudança na escrita e no sentido das palavras) como uma ferramenta de controle mental e político. Vejamos algumas maneiras pelas quais isso é feito:
1. Restringindo o Pensamento: A Novilíngua foi criada para limitar o que as pessoas são capazes de pensar. Ao remover palavras que representam conceitos “subversivos” ou indesejados. O Partido espera controlar o que seus cidadãos são capazes de conceber.
2. Simplificando a Linguagem: A Novilíngua é uma versão controlada e simplificada do inglês, se concentrando na ideologia do INGSOC e na crença de que o Partido é onisciente.
3. Facilitando o Duplipensar: A Novilíngua facilita o duplipensar, que é a capacidade de manter duas crenças contraditórias ao mesmo tempo, sendo útil para o Partido, pois permite que ele mude sua narrativa oficial conforme necessário, enquanto ainda mantém o controle sobre o pensamento de seus cidadãos.
4. Controlando a Comunicação: Ao criar jargões sem sentido que só são compreendidos pelos poucos trabalhadores que os empregam, o Partido limita o potencial de comunicação em massa, que é necessário para uma rebelião bem-sucedida.
5. Eliminando Conceitos Opositores: A Novilíngua remove palavras que representam conceitos opostos. Por exemplo, porque a palavra “bom” pressupõe o oposto de “ruim”, a palavra “ruim” é desnecessária. Assim, a Novilíngua não apenas elimina palavras “desnecessárias”, mas também promove um estreitamento do pensamento e, portanto, da consciência.
Através do uso da Novilíngua, o Partido está tentando controlar o que se é capaz de pensar. É uma das três doutrinas do INGSOC (INGSOC é o acrônimo de “Socialismo Inglês” no idioma fictício Novilíngua), As outras duas são o duplipensar e a mutabilidade (ou alterabilidade) do passado.
Desafiar o uso da Novilíngua em “1984” pode ter sérias consequências. A Novilíngua foi criada pelo Partido para controlar o que as pessoas são capazes de pensar. Portanto, qualquer tentativa de desafiar seu uso é vista como um ato de rebelião contra o Partido e sua ideologia, gerando tirânicas algumas consequências:
Repressão e Punição: Qualquer pessoa que desafie o uso da Novilíngua pode ser considerada um pensador criminoso e ser sujeita a punições severas pelo Partido. Isso pode incluir tortura, reeducação ou até mesmo execução.
Isolamento Social: Além disso, aqueles que desafiam o uso da Novilíngua podem ser ostracizados pela sociedade. Eles podem ser vistos como traidores ou inimigos do Partido e, portanto, ser evitados ou excluídos pelos outros.
Perda de Identidade: A Novilíngua também é uma ferramenta para apagar a individualidade e a identidade pessoal. Aqueles que desafiam seu uso podem achar cada vez mais difícil manter sua própria identidade à medida que o Partido continua a controlar e manipular a linguagem.
Dificuldade em Expressar Dissidência: A Novilíngua é projetada para limitar a capacidade de expressar pensamentos ou ideias que vão contra a ideologia do Partido. Portanto, aqueles que desafiam seu uso podem achar cada vez mais difícil expressar suas opiniões ou críticas ao Partido.
Não devemos esquecer que “O Grande Irmão” é uma figura central em “1984”, cujas principais características são:
Líder Supremo: O Grande Irmão é o governante supremo de Oceania, o líder do Partido, um herói de guerra realizado, um mestre inventor e filósofo, e o instigador original da revolução que trouxe o Partido ao poder.
Onipresença: A imagem do Grande Irmão aparece em moedas, em teletelas e em grandes cartazes que são colados por toda a cidade com o slogan "O Grande Irmão está te observando".
Manipulação da Realidade: Grande parte da natureza do Grande Irmão é indefinida e sujeita a mudanças, mesmo dentro da realidade do romance. Parte do trabalho de Winston é entrar em artigos antigos e mudar o que o Grande Irmão disse no passado para combinar com o que ele diz no presente. Atualmente ele se enquadraria no perfil de um criador de Fake News
Ausência Física: Apesar de seu papel extremamente poderoso na sociedade, o Grande Irmão não faz nenhuma aparição real no romance. Winston nunca interage com o Grande Irmão de forma alguma.
Incerteza de Existência: Várias passagens ao longo do livro sugerem que o Grande Irmão ou não existe, ou talvez nunca tenha existido, como uma pessoa real. Quando Winston está detido no Ministério do Amor, ele tem uma conversa com O’Brien sobre a natureza do Grande Irmão. Essa é uma passagem a se destacar no texto.
Não posso deixar de citar mais um personagem: Emmanuel Goldstein uma figura importante e enigmática, em “1984”:
Líder da Irmandade: Emmanuel Goldstein é apresentado como o líder da Irmandade, um grupo de resistência organizado comprometido com a destruição do Partido.
Inimigo do Povo: Goldstein é introduzido como o Inimigo do Povo durante os Dois Minutos de Ódio no início do romance. Ele era um importante membro do Partido, mas aparentemente tornou-se um traidor.
Possível Figura Fictícia: Como o Grande Irmão, é muito provável que Goldstein não exista como uma pessoa real, mas sim, seja uma ferramenta de propaganda usada pelo Partido para agitar emoções nos cidadãos.
Autor Alegado: A contribuição mais significativa de Goldstein para a trama do romance é como autor alegado do livro "A Teoria e Prática do Coletivismo Oligárquico". O livro contém a verdade do Partido, bem como um modelo de como derrubá-los.
Símbolo de Esperança e Rebelião: Apesar de sua natureza misteriosa, Emmanuel Goldstein serve como um símbolo de esperança para aqueles que desejam lutar contra o regime opressor. Ele é um lembrete de que o governo tirânico do Grande Irmão não é inevitável, e ainda existem maneiras de se opor a ele.
Incerteza de Existência: Uma das maiores questões não respondidas no livro é se Goldstein existe ou não. É possível que o governo tenha criado Goldstein para que sempre tenha um vilão para culpar.
No final de “1984”(do livro e não do ano) , as consequências para os personagens principais são bastante sombrias, mas não vou estragar a leitura antecipando o final.
Em resumo, “1984” é uma representação sombria, mas realista do poder do totalitarismo e da futilidade da rebelião individual contra um regime tão opressivo. É um brado de alerta para que não deixemos que morram as democracias.
Eis a grande DISTOPIA.
Vale a pena.
Boa Leitura.
NH, 14/04/2024.
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