MEU LIVRO DA SEMANA - 76
- Carlos A. Buckmann
- 4 de fev. de 2024
- 4 min de leitura
MEU LIVRO DA SEMANA – 76
SATÍRICON – (Petrônio Árbitro)
Muito pouco se sabe para fornecer uma biografia detalhada do autor: o que se sabe, é que Petrônio foi um escritor romano, mestre na prosa da literatura latina e um satirista notável. Acredita-se que seu nome completo tenha sido Tito Petrônio Árbitro, um frequentador distinto da corte do imperador Nero e que teria ocupado cargos de governador e cônsul da Bitínia, na atual Turquia, e depois foi conselheiro de Nero.
A partir de sua obra, pode-se inferir que ele era um crítico mordaz da sociedade romana de sua época.
“Satíricon” como o nome deixa antever, é uma sátira que descreve as aventuras e desventuras do narrador, Encólpio, de seu amante Ascilto e de seu servo, o jovem Gitão. A obra é conhecida por suas descrições detalhadas de um jantar luxuoso, extravagante e decadente oferecido por Trimalquião, um “novo-rico” romano. O título também remete ao personagem mitológico Sátiro, que na mitologia grega, era um ser da natureza com o corpo metade humano e metade bode, equivalente ao fauno da mitologia romana.
A estrutura da narrativa é fragmentada, com passagens cômicas intercaladas com outras trágicas de forma natural e harmônica. A obra é considerada o primeiro romance realista da literatura universal.
Toda a trama se desenrola, além de Trimalquião, com um “quarteto” que, em conjunto, formam os principais personagens:
Encólpio: Ele é o narrador da história e um dos personagens principais. Encólpio é retratado como um intelectual que se encontra em uma série de aventuras e desventuras ao longo da narrativa. Ele enfrenta dificuldades em manter Gitão fiel à relação, pois este é constantemente seduzido por outros personagens.
Ascilto é o ex amante de Encólpio e também um dos personagens principais. Ele é retratado como um trapaceiro que se envolve em várias situações com Encólpio e Gitão.
Gitão é um jovem servo e amante de Encólpio. Ele se intromete entre Encólpio e Ascilto, provocando ciúme e discussão. Gitão é constantemente seduzido por outros personagens, o que causa conflitos entre ele e Encólpio.
Eumolpo é um poeta que se junta a Encólpio, Ascilto e Gitão em suas aventuras. Ele é retratado como um personagem cômico e trágico.
Esses personagens são retratados como trapaceiros que vivem dando golpes e sempre procurando levar vantagem. Eles se envolvem em várias situações absurdas e ridículas que, de forma natural, se transformam em tragédias, sem perder o humor absolutamente negro.
Historicamente sabe-se que na Roma Antiga, a homossexualidade era um assunto complexo, mas considerado natural. Não havia o conceito de homossexual na cultura romana, a aprovação de relacionamentos entre pessoas do mesmo gênero se baseava em fatores como o status social dos praticantes ou em seu papel de dominação ou submissão. A sociedade romana era patriarcal, e a masculinidade tinha como premissa a capacidade de governar a si mesmo e a outros de status inferior. Os homens romanos eram livres para desfrutar do sexo com outros homens sem perda perceptível de masculinidade ou status social, desde que assumissem o papel dominante ou penetrante.
No “Satíricon”, Petrônio descreve uma sociedade que ainda não havia sido “purificada” pelo cristianismo. Não existia repressão, tampouco vergonha com relação à sexualidade. Havia um total desprendimento moral nas pessoas, já que a visão de mundo cristão que “castraria” o sexo como elemento essencial do e para o ser humano, ainda não ameaçava o “estilo de vida” do mundo pagão. Desse modo, não existiam pecados capitais para podar as vontades de homens e mulheres, jovens ou velhos.
“Satíricon” foi escrito provavelmente próximo do ano 60 d.C., durante o reinado do imperador Nero. A obra tinha como objetivo principal ridicularizar a corte de Nero e a alta sociedade romana, mas sem se descuidar de uma crítica social mordaz a essa mesma sociedade que, como em todos os tempos, era já movida pela corrupção:
“De que servem as leis onde só o dinheiro manda ou onde a miséria nada pode superar?
Os mesmos que, com o alforge dos cínicos passam as estações, às vezes têm o hábito de vender seus ditos por moedas.
Assim, o direito não é nada senão rendimento público, e o cavalheiro que cuida do processo bem aprecia o suborno.”
No centro da crítica social da Roma Antiga, Trimalquião é um personagem conhecido pela pompa e ostentação dos seus banquetes, nos quais serve pratos exóticos e extravagantes, como descrito no capítulo “O Banquete de Trimalquião”, onde este é retratado como um “novo rico” romano que oferece um jantar luxuoso, extravagante e decadente.
A festa de Trimalquião, conhecida como “Cena Trimalchionis”, sendo um evento para o qual concorrem personagens das mais diversas estirpes: pobres e ricos, pessoas letradas e pessoas incultas, homens e mulheres, crianças e adultos. Tudo acontece nessa festa regada a muito vinho, muita comida, muitas brincadeiras e muitas histórias.
Nota-se que o papel de Trimalquião na obra é fundamental para retratar a decadência moral e a ostentação vazia da sociedade romana da época. Através de Trimalquião, Petrônio critica a extravagância e a falta de gosto da nova classe rica romana.
Os séculos se passaram e parece que a sociedade humana pouco mudou, ou até mudou, (mutatis mutandis) conservando os velhos hábitos mas com muito mais hipocrisia. Ou estou errado? Você poderá responder lendo essa obra.
Vale a pena.
Boa Leitura.
NH, 04/02/2024.
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