MEU LIVRO DA SEMANA - 74
- Carlos A. Buckmann
- 21 de jan. de 2024
- 5 min de leitura
Atualizado: 28 de jan. de 2024

MEU LIVRO DA SEMANA – 74
ASSIM FALOU ZARATUSTRA (Friedrich Nietzsche)
Logo no início desse ano, coincidentemente, dois amigos, conhecedores do meu gosto pela filosofia, e que respeitam o meu jeito de filosofar, vieram me indagar sobre as obras de Nietzsche, e que livro eu recomendaria. (Com a licença que permite nossas amizades recomendei que primeiro lessem Platão, Sêneca e Aristóteles).
Então, pedindo vênia aos grandes estudiosos do filósofo, do qual reconheço que ainda muito pouco sei, me atrevo a trazer aqui uma breve análise sobre uma das suas mais famosas obras: ASSIM FALOU ZARATUSTRA.
Friedrich Nietzsche (1844-1900) filósofo, escritor e crítico alemão que exerceu grande influência no Ocidente, começou sua carreira como filólogo clássico antes de se voltar para a filosofia. Ele se tornou a pessoa mais jovem a ocupar a Cadeira de Filologia Clássica na Universidade de Basel em 1869, aos 24 anos, mas renunciou em 1879 devido a problemas de saúde que o atormentaram durante a maior parte de sua vida.
Nietzsche é conhecido por suas ideias provocativas e controversas sobre moralidade, religião e existência. Ele criticou fortemente os conceitos e instituições estabelecidas de sua época, como a moralidade tradicional e a religião. Ele defendeu a ideia do "super-homem", um ser humano que busca sua própria excelência e cria seus próprios valores em vez de se conformar aos valores impostos pela sociedade. Nietzsche por sua afirmação de que "Deus está morto" e por sua crítica radical à moralidade cristã e à religião em geral, criou à época, e mesmo agora, grandes inimigos de suas ideias.
"Assim Falou Zaratustra" é uma obra filosófica escrita entre 1883 e 1885. O livro desafia valores sociais e morais através do personagem Zaratustra, explorando conceitos como a eterna recorrência, a vontade de poder e o super-homem. A obra é composta de discursos e ensinamentos proferidos pelo personagem Zaratustra, que busca transmitir suas visões filosóficas sobre a existência humana, os valores morais e a busca pelo significado da vida. Escrito originalmente como três volumes separados em um período de vários anos, Nietzsche decidiu mais tarde escrever outros três volumes, mas apenas conseguiu terminar um, elevando o número total de volumes para quatro, que estão condensados nessa obra.
O livro narra as andanças e ensinamentos de um filósofo, que se autonomeou Zaratustra após a fundação do Zoroastrismo na antiga Pérsia.
Então aqui se faz necessário abrir um parêntese, que, com certeza, vai nos ajudar a entender o ZARATUSTRA de Nietzsche:
O Zoroastrismo, também conhecido como Mazdeísmo, foi estabelecido pelo profeta persa Zoroastro (ou Zaratustra) e se tornou a religião do estado persa no século VI a.C.
A religião, que ainda existe, se baseia na existência concreta do bem e do mal, sendo, portanto, uma religião dualista. Os princípios supremos do bem e do mal são representados pelos irmãos gêmeos Ahura Mazda, que é o deus do bem, e Aritmã, que é o deus do mal. Segundo teria sido revelado a Zoroastro, esses dois deuses viviam em luta. O fim dos tempos seria marcado pela vitória de Mazda contra Aritmã.
O nome da religião surge em decorrência do seu fundador, o profeta Zoroastro (628 a.C. e 551 a. C.), também, como já citei, conhecido como Zaratustra. Recebendo revelações divinas quando ele tinha 30 anos, ele começou a pregá-las e logo ganhou inimigos. Em decorrência disso, foi perseguido e teve de fugir da sua terra natal.
O principal símbolo do Zoroastrismo é o Faravahar ou Ferohar que representa a alma antes do nascimento e após a morte. O fogo é outro elemento importante, pois o deus do bem é adorado mediante o fogo sagrado que é mantido acesso pelos sacerdotes nos templos zoroastristas.
Mais tarde, essa crença foi substituída pelo Islamismo somente por volta do século VII d.C. após a queda do Império Sassânida. No Irã (antiga Pérsia), uma pequena parte da população ainda pratica o Zoroastrismo, cujo maior número de adeptos são de origem indiana.
Basta por aqui. Fechemos o parêntese e voltemos à obra.
Tudo nos leva a crer que, me perdoem os estudiosos de Nietzsche se eu estiver errado, que daí veio o nosso (dele) ASSIM FALOU ZARATUSTRA.
O Zaratustra nietzschiano, também é um personagem que resolve viver isolado, buscando as revelações que o levem as verdades sobre o bem e o mal:
"Querer liberta: eis a verdadeira doutrina da vontade e da liberdade – assim Zaratustra ensina a vós"
"Para longe de Deus e dos deuses me atraiu essa vontade; que haveria para criar, se houvesse – deuses! Mas para o ser humano sempre me impele minha fervorosa vontade de criar".
Mas destacamos a mensagem central da obra, na figura do SUPER HOMEM nietzscheano.
A ideia central do Super Homem (ou Übermensch no original em alemão) nesta obra, é um conceito filosófico que representa a aspiração humana de superar a si mesmo e evoluir.
Nietzsche propõe o Super Homem como um ser humano que transcende as limitações da moralidade tradicional e cria seus próprios valores. Este conceito desafia as noções convencionais de bem e mal (olha aqui novamente - Ahura Mazda e Aritmã que mencionei anteriormente), e argumenta que a humanidade deve criar sua própria moral.
O Super Homem representa a quebra de valores correntes que moldam os indivíduos, a inflexão no comportamento dos homens, se libertando, em especial, da moralidade cristã, e passando a almejar glórias terrenas, desprovidas de senso de culpa ou de pecado. Portanto, o Super Homem simboliza uma maior liberdade para agir, liberado dos dogmas religiosos.
Em suma, o Super Homem de Nietzsche é um chamado para a humanidade buscar sua própria excelência e autenticidade, em vez de se conformar aos valores impostos pela sociedade. Note-se aqui, a influência do estudo de Sócrates, através de Platão, mais do que o “gnóthi seautón” (conhece-te a ti mesmo), como nos explicou Michel Foucault, é mais importante o “epiméleia heautón” (cuida de ti mesmo). Sendo mais direto, (segundo Foucault em A Hermenêutica do sujeito) para se conhecer é preciso primeiro o cuidado de si.
Cumpre-me também ressaltar a relação entre o Super Homem e Deus na filosofia de Nietzsche, que é complexa e multifacetada. Lembremos que Nietzsche ficou famoso por sua afirmação de que “Deus está morto”, que é uma crítica à dependência da moralidade ocidental nos valores religiosos, especialmente os do cristianismo.
Nietzsche propõe o Super Homem como um ideal para a humanidade, um ser que cria seus próprios valores e não é limitado pela moralidade tradicional. Este Super Homem não é condicionado pelos valores sociais de uma época e tem a coragem de lidar a cada segundo da sua vida com o conflito de sua escolha sem colocar a culpa em outra pessoa, ou no destino, ou ainda, em Deus.
Portanto, a relação entre o Super Homem e Deus é que o Super Homem representa uma forma de transcendência e evolução além dos valores tradicionais que são frequentemente associados a Deus e à religião. O Super Homem de Nietzsche é um chamado para a humanidade buscar sua própria excelência e autenticidade, em vez de se conformar aos valores impostos pela sociedade e pela religião. Esse chamado feito por Zaratustra ao longo da obra, é permeado por aforismos filosóficos:
- “Tudo é vazio, tudo é igual, tudo foi.”
- “...há tantas coisas entre o céu e a terra das quais apenas os poetas se permitiram sonhar algo.”
A obra foi escrita no final do século XIX, um período marcado por mudanças significativas na filosofia, ciência, arte e política. Foi um momento de questionamento de muitas das suposições tradicionais sobre religião, moralidade e conhecimento. Nietzsche estava profundamente envolvido nesses debates intelectuais de sua época.
ASSIM FALOU ZARATUSTRA, não é uma obra difícil de ler. É sim, pelo contrário, uma leitura cativante e que eu recomendaria para quem quer começar se exercitar sobre Nietzsche.
Vale a pena.
Boa leitura
NH, 21/01/2024
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