MEU LIVRO DA SEMANA - 57
- Carlos A. Buckmann
- 24 de set. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 29 de jan. de 2024

MEU LIVRO DA SEMANA 57
FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO (Maria Lúcia de Arruda Aranha)
Maria Lúcia de Arruda Aranha, brasileira conhecida por seus trabalhos na área da educação, nasceu em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul e se formou em Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Lecionou para o Ensino Médio, em escolas da rede pública e particular, até se aposentar. Autora de vários livros, incluindo "História da Educação", publicado pela Editora Moderna, com três edições (1989, 1996, 2006)e Filosofia da Educação (1996), aborda a discussão dos aspectos sociais, políticos, econômicos e filosóficos pelos quais os fenômenos da educação e da pedagogia aparecem vinculados ao seu contexto histórico. Apresenta de maneira clara e didática tópicos sobre educação e pedagogia e de maneira entrosada, expõe a história da educação e da pedagogia brasileiras comparadas às experiência de outros países, suas conexões e discrepâncias, dando amplo destaque para educação contemporânea, sugerindo seminários voltados para o aprofundamento de debates e estímulo à pesquisa. Sua obra é importantíssima para a História da Educação brasileira.
Mas vamos abordar aqui em especial esse livro: FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO:
A autora discute os aspectos sociais, políticos e econômicos dos quais o fenômeno da educação não se desvincula. Ela busca nos pressupostos filosóficos o fio condutor que auxilia a interpretação dos fatos históricos.
A obra é estruturada em capítulos que abordam diferentes temas relacionados à filosofia da educação com uma linguagem clara e concisa que transmite os principais conceitos e teorias da filosofia da educação de forma acessível, mesmo aos menos chegados ao estudo, tanto da filosofia quanto da educação.
O contexto histórico em que a obra foi escrita é marcado por grandes conflitos, como as duas Guerras Mundiais, a Guerra Fria e os movimentos de contracultura. Esses acontecimentos caracterizam uma sociedade complexa e cada vez mais diversificada. A obra de Aranha reflete esse contexto, abordando a complexidade da educação em uma sociedade em constante mudança e discutindo os fundamentos antropológicos, epistemológicos e axiológicos subjacentes a toda prática educativa.
Aranha também explora a diferença entre o senso comum e a ciência, destacando a importância de entender esses conceitos ao discutir a filosofia da educação. Além disso, ela aborda os aspectos sociais, políticos e econômicos dos quais o fenômeno da educação não se desvincula. É uma obra que aborda, como o título diz, a filosofia da educação e sua relação com a sociedade, onde a autora discute conceitos como cultura, educação, conhecimento e valores, e apresenta diferentes tendências pedagógicas, como a tecnicista, que é estudada no capítulo 14.
Esse capítulo 14, descreve a tendência tecnicista na educação, onde a escola tradicional passa a sofrer a aplicação de um modelo de racionalização típico do capitalismo americano durante o século XX, mais precisamente na década de 60. Esse modelo, surgido nos Estados Unidos, trazia a ideia de separação de funções (planejamento versus execução do trabalho).
A ideologia, mais do que a simples ideia da tendência tecnicista era produzir indivíduos "competentes" para o mercado de trabalho, deixando de lado toda e qualquer preocupação com as mudanças sociais. No Brasil, com o golpe militar de 1964, foram realizados projetos sigilosos de orientação americana, sendo que, apenas em 1966 os acordos MEC-USAID foram trazidos a conhecimento público. Usando o método taylorista, com o objetivo de apropriação científica, e com essa visão capitalista liberal,
"o professor torna-se um técnico que é assessorado por outros técnicos e intermediado por recursos técnicos".
Para que se cumprisse o acordo MEC-USAID, o governo militar foi obrigado a editar duas leis sobre o ensino no Brasil: - Lei nº 5.540/68 regulando o ensino universitário e Lei nº 5.692/71 regulando o ensino de 1º e 2º graus.
Me atrevo então a uma análise particular sobre esse tema abrindo aqui um parêntese:
A lei nº5.540/68, também conhecida como Lei da Reforma Universitária, foi promulgada em 28 de novembro de 1968. Ela estabeleceu normas para a organização e funcionamento do ensino superior no Brasil e sua articulação com o ensino médio
A lei nº 5.692/71, promulgada em 11 de agosto de 1971, estabeleceu diretrizes e bases (LDB) para o ensino primário e secundário no Brasil. Esta lei modificou a estrutura da educação no país, fundindo o ensino primário e o antigo ginásio em um único curso de primeiro grau. Foi promulgada no contexto da ditadura civil-militar e trouxe permanências e mudanças nas concepções de educação que vinham se desenvolvendo no período.
A ideia de qualificação traria desenvolvimento, mas ao mesmo tempo provocaria reações: por um lado, a demanda de jovens estudantes ou aspirantes a estudantes universitários e professores que exigiam autonomia universitária e mais verbas e vagas para desenvolver pesquisas e expandir o alcance das universidades; por outro lado, a demanda de grupos ligados ao regime instalado com o golpe de 1964 que buscavam vincular mais fortemente o ensino superior aos mecanismos de mercado e a um projeto político de modernização em consonância com os requisitos do capitalismo internacional (criação de mão-de-obra técnica).
Com o sufocamento sobre os professores por conta do aumento da burocracia, ficou demonstrado que a inclusão das disciplinas técnicas teve por consequência a exclusão de outras matérias importantes (filosofia e sociologia, por exemplo) e a diminuição da carga horária. Tal reforma repercutiu na queda do nível de ensino principalmente nas escolas públicas, aumentando a seletividade da educação, como é de praxe em todo governo totalitário.
Então fecho o parêntese, pedindo escusas aos que discordam de minhas ideias.
Mas voltemos ao tema da obra, onde Maria Lúcia nos traz os fundamentos antropológicos da educação, que envolvem a reflexão e investigação das relações entre a sociedade, o indivíduo e a cultura, com foco especial na “educação” e na “escola”, suas funções e relações com a sociedade, o conhecimento e a construção de identidades pessoais, sociais e culturais, mostrando que para isso é preciso estudar sociedades diferentes das suas, citando Harry Wolcot:
Realizar trabalho de campo durante um longo período;
Conseguir conversar com os povos locais na língua nativa;
Observar e registrar, não modificar ou tentar melhorar as circunstâncias observadas;
Realizar trabalho comparativo, com um esforço consciente para identificar temas dominantes na cultura das pessoas: seus modos de pensar e de viver;
Estudar grupos específicos e relutar em generalizar aquilo que observaram pessoalmente.
Enfim, FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO, em sua terceira edição publicada e totalmente revisada em 2006, é uma obra que nos faz refletir sobre os rumos que devemos tomar na busca de uma educação mais inclusiva, que nos liberte do analfabetismo funcional.
Vale a pena.
Boa leitura:
NH, 24/09/2023.
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