MEU LIVRO DA SEMANA - 47
- Carlos A. Buckmann
- 16 de jul. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de jul. de 2023

MEU LIVRO DA SEMANA – 47
Tratado Sobre a Tolerância (François Marie Arouet – Voltaire)
Essa é uma obra em que o leitor vai ter contato com todo o estilo sarcástico, mordaz e crítico de Voltaire, que em pleno iluminismo, na França conflagrada, século XVIII, usava sua escrita de forma crítica para expor seu pensamento.
Voltaire, nascido François-Marie Arouet em 21 de novembro de 1694, em Paris, também na capital francesa veio a falecer em 30 de maio de 1778. Seus escritos nesse período foram de grande inspiração para os idealizadores e realizadores da Revolução Francesa, que veio a durar dez longos anos (mas isso é outra história). Foi também um grande colaborador de Denis Diderot e Jean D’Alembert, na elaboração da Encyclopédie, que em tom de brincadeira, podemos dizer tratar-se da tataravó do Google e talvez da IA ChatGPT ou do Bing da Microsoft.
No Tratado Sobre a Tolerância, publicado em 1763, inconformado com o que ele considerava ter sido um erro judiciário da corte de Toulouse, ao condenar Jean Calas, um comerciário protestante, pelo assassinato de seu filho que estaria querendo se converter ao catolicismo. A sentença foi a pena de morte na roda do suplício, sob tortura, em 1762. Na França já convulsionada pela multidão de miseráveis que perambulavam pelas ruas das maiores cidades, Paris, Toulouse, Versailles entre outras, qualquer grito mais alto em meio a turba, servia de motivo para uma agitação maior. Foi o que aconteceu quando Marc Antoine filho de Jean Calas foi encontrado enforcado no andar térreo de sua casa em Toulouse; alguém na multidão gritou que teria sido Jean Calas a assassinar seu filho.
Voltaire, convencido da inocência do condenado, denunciou essa injustiça escrevendo essa obra, mostrando que havia sido fruto de intolerância religiosa e de uma condenação sem provas substanciais e simplesmente baseada no conflito religioso e mostrando a falibilidade do sistema judiciário francês, quando escreve:
- Na assembleia de Atenas, era preciso obter-se cinquenta votos além da metade antes que se ousasse proferir uma sentença de morte. Qual o resultado disso? Algo que todos nós sabemos, embora tenha sido inútil: que os gregos de então eram mais sábios e mais humanos que nós.
Durante a leitura, somos levados a refletir até que ponto as ideologias religiosas podem nos levar, coisa que até nossos dias infelizmente elas tendem a se agravar e a nos levar a atos impensados, principalmente por seguirmos ideias de pregadores de todas as seitas.
Voltaire se declarava ateu e descrente de qualquer religião, mas aqui ele nos mostra a importância de sermos tolerantes com os pensamentos de outrem, o que por isso circula entre nós a frase que ele nunca disse: “posso não concordar com o que pensas, mas morrerei defendendo teu direito de dizê-lo”. Na verdade, que ele escreveu nesse sentido está nessa obra, na página 122, no capítulo XXV:
- A natureza diz a todos os homens (...) Quando todos vocês tiverem a mesma opinião, coisa que certamente não há de ocorrer nunca, caso só haja um único homem com opinião contrária, vocês deverão perdoá-lo: porque sou eu (a natureza) que o faço pensar como pensa.
Irônico, ferino, com um estilo inimitável, o filósofo iluminista, cônscio de sua aversão às crenças religiosas, o que não expressa nesse livro, faz um apelo em prol do respeito a todos os credos e à liberdade religiosa.
De 1763 prá cá, mais de dois séculos se passaram e a obra se mostra atualíssima ante os fatos que historicamente estamos vivenciando.
Seria muito bom que muita gente, religiosos ou não, lessem e relessem essa obra, refletindo sobre a mudança que se faz necessária para sermos tolerantes com as diferenças. Diferenças de todos os tipos, de sexo, de cor, de pensamento político e até mesmo de religião, única maneira de nos transformarmos em seres que, nascidos homens e mulheres, só com o conhecimento e a cultura, nos transformamos em humanos.
Boa Leitura.
NH, 16/07/2023.
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