MEU LIVRO DA SEMANA 42
- Carlos A. Buckmann
- 18 de jun. de 2023
- 3 min de leitura

MEU LIVRO DA SEMANA - 42
A República Guarani (Clovis Lugon)
Conhecer um pouco mais de história, não faz mal para ninguém, ainda mais se a história se refere à cultura, à educação e a uma tentativa de construir um mundo melhor.
Originalmente esse livro tinha como título, A República Comunista Cristã dos Guaranis e foi escrito pelo jesuíta suíço Clóvis Lugon e lançado na França em 1949. A primeira edição brasileira foi publicada em 1970 pela editora Paz e Terra. Com esse título, onde aparecia a palavra “comunista” e, em 1970, em plena ditadura militar, foi imediatamente tirado de circulação. Hoje, restam alguns exemplares que alguns resistentes leitores salvaram e são vendidos como raridade pela internet. Para documentar o que digo, vou adicionar aqui uma imagem que recolhi destas postagens:

A edição que tenho em minhas mãos, foi publicada em 2010, revisada pelo próprio autor, em comemoração ao 10º Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Apenas como complemento de informação, O Fórum Social Mundial surgiu em Porto Alegre, através de uma associação entre ONGs (Organizações Não Governamentais) brasileiras e o jornal francês Le Monde Diplomatique. A ideia era organizar um encontro mundial de pessoas e movimentos sociais contrários às políticas neoliberais do FEM (Fórum Econômico Mundial).
Mas voltemos ao livro de Lugon:
Como integrante da ordem da Companhia de Jesus, Lugon se dedicou à pesquisa das obras realizadas pelos seus confrades nos séculos XVII e XVIII, no sul da América do Sul, mais precisamente na região de Guairá, atual Paraguai, nordeste da Argentina, hoje região de Missiones e noroeste do Rio Grande do Sul, conhecido atualmente como região missioneira, em alusão aos Sete Povos das Missões.
O livro é um relato detalhado de como eram organizadas cada coletividade Guarani, então chamada “Redução”, como definição de reunião, coletividade. Descreve desde a escolha dos locais para a construção das “cidades”, que deveria ter abastecimento rico de água potável, suas plantas arquitetônicas, com a distribuição de casas, Igreja, centros administrativos, escolas, abrigos de idosos, hospitais e o que mais fosse necessário. A partir daí, parte para a análise da organização política:
Quando a exploração do homem pelo homem se perpetua sob aparências democráticas, os direitos políticos são ilusórios, enquanto que, em uma verdadeira democracia econômica, algumas formas de direitos políticos são menos importantes.
Muito antes de Marx publicar suas ideias comunistas em O Capital e juntamente com Engels, lança o Manifesto Comunista, Lugon nos mostra como foi possível criar um verdadeiro estado comunista cristão ao sul da América do Sul, com planos de catequese, mas sem descuidar das vidas terrenas e a educação como base primordial para a civilização. Isso fica claramente demonstrado, quando em suas pesquisas, descobre as citações de um dos jesuítas dessa catequese:
Como em todas as repúblicas bem organizadas, escreve o padre Cardiel, era dada atenção prioritária à educação das crianças de ambos os sexos, porque delas depende a prosperidade da República.
A pesquisa de Lugon entra em pormenores do próprio modo de viver do povo Guarani, dócil por natureza e a ela apegado e que, talvez, pelo pouco desse sangue que corre em minhas veias, herdado de uma bisavó por parte de mãe, também herdei certos costumes:
O Guarani era espontaneamente matinal. Tanto em viagem, quanto em casa, ele janta ao crepúsculo e se deita bem cedo. Levanta-se com o canto do galo, ou até antes, não para trabalhar, mas para tomar mate, fazer a primeira refeição e conversar.
E toda essa pesquisa, leva a sua culminância na guerra guaranítica, quando Espanha e Portugal, temendo o crescimento dessa república e com base no tratado de Madri, se unem para arrasar as povoações criadas pelos jesuítas, de que nos restou, como escreve Lugon:
O maior exemplo da República Guarani está no seu pragmatismo. Para por em prática a religião do amor fraterno, não basta o ensino teórico, mas sim a prática fraterna nas instituições, no sistema coletivo de propriedade, na distribuição dos bens. Enquanto o resultado de todos os esforços for mal distribuído, não existirá fraternidade.
Como escrevi acima, conhecer um pouco mais de história não faz mal a ninguém.
Tenham certeza de que vale a pena.
Boa Leitura.
NH, 18/06/2023
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