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LIBERDADE, ONDE E QUANDO?

  • Carlos A. Buckmann
  • 12 de jun. de 2025
  • 4 min de leitura

LIBERDADE, ONDE E QUANDO?

            Desde tempos imemoriais, a humanidade tem se debatido com uma paradoxal busca pela liberdade. Olhamos para trás, para as pirâmides erguidas por milhares de braços escravizados, para os servos atados à terra por grilhões invisíveis, para os operários da Revolução Industrial, cujas vidas eram consumidas pelas engrenagens das fábricas. Em percentagem descomunal, a grande maioria dos seres humanos sempre esteve condenada a uma servidão perene: a de perseguir o trabalho e a comida. A promessa de uma vida digna, para muitos, permanece um horizonte distante, sempre recuando à medida que avançamos.

            Eduardo Galeano, o mestre uruguaio das palavras, lançou luz sobre essa contradição com sua afiada sensibilidade:

                        "É livre um homem condenado a viver perseguindo o trabalho e a comida?",

questionava ele, desnudando a ilusão de uma liberdade que, para a maioria, não passa de uma miragem. Nascido em Montevidéu em 1940, Galeano foi jornalista, escritor e um incansável militante das causas sociais. Sua obra, permeada por uma profunda crítica ao sistema capitalista e à exploração, é um grito em defesa dos oprimidos. De "As Veias Abertas da América Latina" a "Memória do Fogo", ele desenterrou as histórias esquecidas e os traumas silenciados de um continente, mostrando como a opressão econômica e social se enraíza nas estruturas mais profundas. Sua prosa, poética e contundente, nos força a confrontar a realidade por trás das narrativas oficiais.

            No contexto do indivíduo, a frase de Galeano ressoa como um eco amargo. A jornada diária de milhões de pessoas é uma corrida incessante contra o tempo, onde o sustento básico dita o ritmo da vida. A busca por um emprego, a luta por um salário que mal cobre as despesas, a ansiedade constante com o dia de amanhã,  tudo isso transforma a existência em um ciclo de sobrevivência, onde pouco espaço resta para a realização pessoal, a arte, o lazer ou mesmo a simples contemplação. A dignidade humana é frequentemente sacrificada no altar da necessidade, e a liberdade se torna um luxo para poucos.

            Na esfera social, a questão se agrava. Vivemos em sociedades onde a desigualdade é um abismo cada vez maior. Enquanto alguns acumulam riquezas inimagináveis, outros se afundam na pobreza extrema. A precarização do trabalho, a ausência de direitos trabalhistas, a falta de acesso à educação e à saúde de qualidade são sintomas de um sistema que perpetua essa "condenação". A busca por trabalho e comida não é apenas uma questão individual, mas um reflexo de estruturas sociais que marginalizam e excluem vastas parcelas da população. A tão alardeada "meritocracia" muitas vezes esconde as barreiras invisíveis que impedem a ascensão social, perpetuando a ideia de que a pobreza é uma falha individual e não um produto de um sistema.

            No mundo dos negócios, a frase de Galeano se torna ainda mais provocadora. Em um cenário onde o lucro é a métrica principal, a vida humana muitas vezes é reduzida a um custo. A automação, a deslocalização da produção, a exploração de mão de obra barata em países em desenvolvimento, tudo isso é justificado em nome da eficiência e da competitividade. Empresas prosperam enquanto trabalhadores são descartados, e a liberdade de "escolha" para muitos se resume à escolha entre a exploração e a fome. O capital, desvinculado das responsabilidades sociais, dita as regras de um jogo onde a humanidade, em grande parte, é apenas um recurso a ser utilizado e, quando não mais útil, descartado.

            Galeano não estava sozinho em sua visão crítica. Muitos outros pensadores e escritores comungaram desse sentimento, cada um à sua maneira, expressando-o em obras que se tornaram marcos. Karl Marx, por exemplo, em "O Capital", dissecou a lógica da exploração capitalista e a alienação do trabalho, mostrando como o trabalhador é separado do fruto de seu esforço, tornando-se uma mera engrenagem na máquina de produção. Sua análise da mais-valia e da acumulação de capital ressoa profundamente com a ideia de uma vida condenada à perseguição do trabalho.

            George Orwell, em "1984" e "A Revolução dos Bichos", apesar de focar em regimes totalitários, também explorou a ideia de como a liberdade é cerceada pela imposição de uma realidade distorcida e pela constante vigilância. Em "A Revolução dos Bichos", a exploração dos animais pelos porcos, que se tornam os novos opressores, é uma clara alegoria da forma como o poder se perpetua, mantendo a grande maioria em uma eterna busca por sustento.

            Mais contemporaneamente, Naomi Klein, em "A Doutrina do Choque", revela como desastres e crises são explorados para implementar políticas de livre mercado que aprofundam a desigualdade e a precarização. Ela demonstra como a liberdade econômica de alguns se constrói sobre a restrição das liberdades de muitos, reiterando a validade da provocação de Galeano.

            E se pensarmos na literatura brasileira, Graciliano Ramos, com "Vidas Secas", nos apresenta a aridez não apenas da paisagem, mas da existência de Fabiano e sua família, condenados à miséria e à busca incessante por comida e um pedaço de chão. A liberdade, para eles, é um conceito abstrato, distante da realidade de sua luta diária.

            A frase de Galeano, portanto, é um convite à reflexão profunda sobre a verdadeira natureza da liberdade em um mundo dominado pela necessidade. Somos realmente livres quando nossa existência é definida pela incessante busca por trabalho e comida? Ou somos apenas prisioneiros de um sistema que nos vende a ilusão da liberdade enquanto nos mantém acorrentados? Talvez a única coisa mais livre que um homem condenado a perseguir trabalho e comida seja um empregador que pode se dar ao luxo de não perseguir nenhum dos dois.

 

 
 
 

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