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LIBERDADE, IGUALDADE E A INJUSTIÇA DA NATUREZA

  • Carlos A. Buckmann
  • 10 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

LIBERDADE, IGUALDADE E A INJUSTIÇA DA NATUREZA

            Nascemos desiguais, não por maldade do destino, mas pela própria lógica da existência.

            Uns vêm ao mundo com dedos que dançam sobre teclas de piano como se já tivessem ensaiado na eternidade; outros, com olhos que enxergam equações onde, o comum, vê apenas caos. Há quem nasça com a língua afiada da retórica, capaz de incendiar multidões com uma frase, e há os que, em silêncio, constroem pontes de concreto ou de código binário.

            Essas diferenças não são defeitos, são a própria condição da diversidade humana. E, no entanto, nossa sociedade insiste em querer nivelar por cima ou por baixo, como se a igualdade fosse uma régua moral a ser aplicada à carne viva da realidade.

            Na esfera profissional, essa diversidade se manifesta como vocação, ou como ausência dela. Nem todos estão feitos para liderar, nem todos para criar, nem todos para obedecer. A liberdade, aqui, é o espaço que permite que cada um descubra quem é, e não apenas o que deve ser.

            Mas essa liberdade é incômoda. Ela exige escolha, responsabilidade, risco. E, como bem observou Sartre, “o homem está condenado a ser livre”. Condenado, sim, porque a liberdade nos arranca da zona de conforto da uniformidade e nos lança no abismo da autenticidade. Quem escolhe, erra. Quem erra, aprende. Quem aprende, transforma, a si mesmo e ao mundo.

            Essa multiplicação da liberdade individual ecoa na sociedade como um fractal: cada escolha pessoal gera consequências coletivas.

            Um jovem que decide estudar filosofia em vez de engenharia não apenas altera seu próprio destino, mas também o equilíbrio entre técnicos e pensadores na cultura que o cerca.

             Um empreendedor que ousa inovar rompe com a inércia do mercado e força todos ao seu redor a se adaptarem, ou desaparecerem.

            A liberdade, portanto, não é um bem individual isolado; é um vetor de transformação social. Mas é também, paradoxalmente, uma fonte de desigualdade. Pois, se somos livres para escolher, inevitavelmente uns colherão mais frutos que outros.

Aqui lembro do que escreveu   Alexander Solzhenitsyn e que me surge como um raio de lucidez em meio à névoa ideológica:

            “Seres humanos nascem com capacidades diferentes. Se são livres, não são iguais. Se são iguais, não são livres.”

 

            Solzhenitsyn, escritor russo, sobrevivente do Gulag, testemunha ocular do totalitarismo soviético, sabia, na pele e na alma, o que significava a supressão da liberdade em nome de uma igualdade forçada. Sua obra, sobretudo “O Arquipélago Gulag”, é um monumento à memória dos que foram esmagados pelo ideal de igualdade absoluta, imposto com botas de ferro.

            Ele não negava a dignidade humana comum a todos, mas recusava a ilusão de que todos deveriam ser iguais em talento, esforço ou destino. Para ele, a verdadeira justiça não consiste em nivelar os homens, mas em permitir que cada um realize sua própria natureza, mesmo que isso gere hierarquias, mesmo que isso produza desigualdades.

            Analisemos, então, cada parte da frase. “Seres humanos nascem com capacidades diferentes.” Isso é um fato biológico, psicológico e existencial. Nietzsche já dizia que “não há fatos, só interpretações”, mas aqui há um fato duro: a variação genética, as circunstâncias do nascimento, os acasos do desenvolvimento cerebral, tudo conspira para que sejamos únicos. Negar isso é negar a própria condição humana.

            “Se são livres, não são iguais.” A liberdade permite que as diferenças se expressem. Um músico livre comporá; um matemático livre descobrirá teoremas; um empreendedor livre criará empresas. E essas expressões geram desigualdades, de reconhecimento, de riqueza, de influência. Mas são desigualdades legítimas, fruto do exercício da liberdade, não da opressão.

            “Se são iguais, não são livres.” Aqui está o cerne da crítica ao igualitarismo radical. Para forçar a igualdade absoluta, é preciso suprimir a liberdade: controlar escolhas, limitar ambições, punir o sucesso. É o que vemos nos regimes totalitários e o que ainda vemos, em graus menores, em culturas que punem a excelência em nome da mediocridade igualitária. Como alertou Hayek, a busca pela igualdade de resultados leva inevitavelmente à tirania.

            Nos negócios, essa lógica é ainda mais clara. Uma empresa que trata todos os colaboradores como se fossem idênticos, com os mesmos salários, mesmas metas, mesmas responsabilidades, sufoca a inovação e a motivação. Já aquela que reconhece as diferenças e permite que cada um floresça segundo suas aptidões cria valor, atrai talentos e se adapta ao mundo real. A meritocracia, quando não corrompida por privilégios, é a expressão mais justa da liberdade produtiva.

            Mas não me entendam mal: não defendo a desigualdade como virtude em si. Defendo a liberdade como condição para a autenticidade humana. E a autenticidade, por definição, é desigual. Somos todos dignos, mas não somos todos iguais, e a tentativa de nos tornar iguais, quando imposta, mata a alma.

 

            Voltando à frase de Solzhenitsyn. Ela não é um manifesto contra a justiça social, mas um alerta contra a ilusão perigosa de que a igualdade pode ser fabricada sem custo à liberdade.

            Solzhenitsyn, que viu homens serem transformados em números em campos de trabalho forçado, sabia que a verdadeira igualdade reside na dignidade inalienável de cada ser, não na uniformidade de seus destinos.

            E talvez a maior liberdade que temos seja a de aceitar que somos diferentes… e, mesmo assim, humanos.

 
 
 

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