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IDENTIDADE: UM ESPELHO FEITO DE OUTROS

  • Carlos A. Buckmann
  • 29 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

IDENTIDADE: UM ESPELHO FEITO DE OUTROS

                Por muito tempo acreditei que minha identidade era um núcleo íntimo, inabalável, esculpido em silêncio e solidão. Pensava que me conhecia porque me observava.

                Mas, com o tempo, e com os outros, percebi que não sou um “eu” fechado, mas um entrelaçamento. Minha identidade individual não existe sem as identidades sociais que me cercam: sou filho de uma língua, herdeiro de um tempo histórico, habitante de uma cultura, membro, por escolha ou por acaso, de comunidades que me nomeiam antes mesmo que eu saiba falar.

                 Não me descubro sozinho; me reconheço nos olhos alheios, nas vozes coletivas, nos silêncios históricos que carrego sem ter vivido.

                A psicologia já há décadas abandonou a ilusão do sujeito autossuficiente.    Vygotsky ensinou que o pensamento nasce no social: a mente se constitui na interação, na zona de desenvolvimento proximal, mediada por signos culturais.

                Winnicott falava do “espelho materno” o primeiro outro que devolve ao bebê a imagem de si mesmo, permitindo que ele se sinta real.

                Já a psiquiatria, em sua escuta clínica, observa como transtornos de identidade, como na “borderline” ou na esquizofrenia, revelam uma fratura na capacidade de se situar entre o eu e o outro, entre o desejo próprio e as expectativas sociais.

                E Foucault, embora filósofo, ecoa na clínica quando mostra como os saberes psiquiátricos historicamente definiram “quem é normal” e “quem deve ser corrigido”, moldando identidades sob o peso de instituições.

                Assim, tanto a psicologia quanto a psiquiatria reconhecem: não há identidade sem relação, sem cultura, sem história.

                A filosofia, por sua vez, desmonta a ideia cartesiana do “eu penso” como fundamento absoluto.

                Hegel já afirmava que o reconhecimento é condição da autoconsciência: só me torno sujeito quando outro me reconhece como tal, e esse reconhecimento é sempre conflituoso, histórico, situado.

                Sartre, com sua lucidez existencialista, via o olhar do outro como aquilo que me objetiva, me aprisiona, mas também me constitui.

                Já Charles Taylor, em sua ética do reconhecimento, argumenta que nossa identidade se forma em “horizontes de significado” compartilhados: não escolhemos nossos valores no vácuo, mas os herdamos, contestamos e recriamos em diálogo com nossa comunidade.

                Ricoeur nos lembra que somos “si-mesmos” não por uma essência fixa, mas por uma fidelidade a promessas feitas no tempo, em relação a outros. Assim, a identidade não é um ser, mas um “vir-a-ser”, sempre em trânsito entre o íntimo e o coletivo.

                É nesse entrelaçamento entre o psíquico e o histórico, entre o individual e o cultural, que a psicofilosofia encontra seu lugar. Ela não reduz a identidade a um diagnóstico, nem a dissolve numa abstração metafísica. A psicofilosofia escuta o sujeito como “narrativa situada”. Pergunta não apenas “quem você é?”, mas “em que mundo você foi chamado a existir?”.

                Trata-se de ajudar o indivíduo a compreender como sua dor, seus desejos, seus bloqueios estão entrelaçados com as marcas de sua época, o racismo estrutural, o colapso ecológico, a crise do sentido, a aceleração digital. Mas também a perceber que, mesmo dentro dessas estruturas, há espaço para agência, para reinterpretação, para escolha ética.

                Numa sociedade que oscila entre o individualismo narcisista e a dissolução nas massas digitais, a psicofilosofia oferece um caminho de equilíbrio: nem o eu absoluto, nem o eu apagado. Ela nos convida a assumir nossa identidade como responsabilidade, não como destino fixo, mas como projeto ético e relacional. Em tempos de polarização, de identidades armadas como trincheiras, essa ciência híbrida resgata a possibilidade do encontro: não apesar das diferenças, mas a partir delas.

                Por isso, digo a você que se sente perdido entre o que lhe impõem e o que deseja ser:  Você não está sozinho na construção de si.  Nunca esteve. 

                Sua identidade é feita de heranças que não escolheu, mas também de escolhas que ainda pode fazer. 

                Não se trata de negar suas raízes, nem de se submeter a rótulos alheios.  Trata-se de habitar com lucidez o lugar onde o seu nome ecoa e, nele, semear uma nova forma de pertencer. 

                Porque ser si mesmo nunca foi uma tarefa solitária. É sempre um ato de comunhão, mesmo quando dói. 

                E é nessa tensão entre o eu e o nós que a humanidade se reinventa. 

                Portanto, continue.  Você é necessário, não apesar dos outros, mas por causa deles.

 
 
 

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