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HERÁCLITO E EINSTEIN NO CAFÉ DO TEMPO

  • Carlos A. Buckmann
  • 17 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

HERÁCLITO E EINSTEIN NO CAFÉ DO TEMPO

Uma crônica sobre o que muda, o que permanece, e o que brilha no meio disso tudo.

            Hoje pela manhã sentei-me num café que só aparece quando a alma precisa. É desses lugares que não têm endereço, mas têm atmosfera. Mesas gastas, cadeiras que rangem verdades, e uma luz que parece cair do alto como uma epifania. Pedi um café forte, como convém às conversas que não cabem em xícaras.

            Do outro lado da mesa, estavam Heráclito de Éfeso e Albert Einstein.

Não me pergunte como. Só aceite.

            Heráclito mexia distraidamente a colher em um copo de água, água corrente, diga-se, pois ele insistira que ali tudo devia fluir. Einstein ajeitava o cabelo, mesmo que em vão, e rabiscava fórmulas no guardanapo com o mesmo olhar de menino curioso que olha as estrelas como se fossem enigmas solúveis.

            No centro, eu procurava acompanhar.  Cronista, sim. Mas naquele momento, apenas testemunha de um encontro improvável entre o fogo e a luz.

            Heráclito falou primeiro. Com voz grave, como um trovão que pensa.

            - “Tudo flui”, ele disse. “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio.”

            E eu assenti, pensando nos dias que escorrem pelos dedos, nas ideias que não param quietas, na alma que muda até quando acha que permanece.

            Einstein, tentando acender seu cachimbo, sorriu e respondeu:           

            - “E, no entanto, a velocidade da luz é constante.”

            Era sua forma elegante de dizer que mesmo no fluxo, há estrutura. Mesmo no caos, uma constante se insinua, como uma batida invisível sustentando a sinfonia do cosmos.

            Heráclito, ajeitando o manto que teimava em cair de seus ombros, inclinou a cabeça, e, coçando a barba branca intrigado, retrucou:

.                        - “O mundo é fogo”, afirmou, e o fogo é conflito.”

                        Einstein, com seu sotaque judeu alemão, rebateu com doçura:

            - “Mas a energia do fogo é relativa. E o tempo, meu caro, também é elástico.”

            Heráclito olhou para o teto.       Einstein para o relógio. Ambos sabiam que tempo não é o que parece ser.

            Ali estavam, sob meu olhar atento, dois mestres do movimento.Heráclito, com sua metafísica do devir, tudo se transforma, nada repousa.Einstein, com sua física do espaço-tempo, tudo se curva, até a luz, se a massa for suficiente.

            E eu pensava: talvez sejam dois modos de dizer a mesma coisa.            Talvez Heráclito pressentisse, à sua maneira pré-quântica, a instabilidade das partículas e a constância das moléculas, a fluidez das verdades.            Talvez Einstein intuísse, com suas equações elegantes, que o universo tem alma de poeta.

Perguntei, com humildade de quem serve café aos deuses:

            - “Senhores… e nós? O que fazemos com essa dança entre o fluxo e a fórmula?”

            Heráclito, deixando fluir o tempo, respondeu com olhos de fogo:

            - “Aceitem o conflito. O que vive, arde.”

            Einstein, conseguindo finalmente acender seu cachimbo, replicou com um brilho nos olhos:

            - “E o que arde, brilha. Porque E=mc², meu amigo. Até a matéria é luz adormecida.”

            Nesse momento, o tempo parou. Ou melhor: se dilatou.

            Entendi, ali, que entre o rio e a relatividade, há uma ponte, e que essa ponte se chama consciência.            Que viver é fluir, sim, mas também medir, pensar, transformar.            E que talvez, no fim das contas, a melhor forma de honrar o infinito universo, é sabê-lo inacabado e ainda assim, maravilhosamente coerente.

            Na hora de ir embora, Heráclito apagou o fogo com um gesto. Einstein apagou a luz com uma fórmula.           

            Eu deixei a conta paga com um pensamento:

            - “Talvez o mundo seja feito de perguntas. E viver, seja apenas o ato de amar as que não têm resposta.”

P.S.: Quando saí, vi que o nome do café era “Entre Fluxos”.

            Nunca mais o encontrei desde então. Mas guardei na memória para usar mais tarde. - Dizem que ele aparece sempre que alguém pensa mais diante de um copo d’água...            Ou de um feixe de luz.

 

 
 
 

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