GESTÃO DE ESTOQUE - O CAPITAL QUE NÃO PODE DORMIR NA PRATELEIRA.
- Carlos A. Buckmann
- 28 de ago. de 2025
- 4 min de leitura

GESTÃO DE ESTOQUE
O CAPITAL QUE NÃO PODE DORMIR NA PRATELEIRA.
Se há um ativo que define o pulso de uma farmácia independente, esse ativo é o estoque. Ele não é apenas um conjunto de produtos dispostos em prateleiras, é, na verdade, o maior repositório de capital de giro do negócio. E é exatamente por isso que sua gestão deve ser tratada com a mesma seriedade de um centro cirúrgico: precisa ser precisa (com perdão da redundância), ágil e baseada em dados.
Durante uma visita técnica a uma rede de pequenas farmácias no interior de Rio Grande do Sul, perguntei ao titular da empresa: “Onde está seu capital hoje?” - Ele sorriu, apontou para a loja cheia e disse: “Aqui, todo aqui.” Respondi: “Exatamente. E é por isso que você está pobre.”
O capital de giro de uma farmácia só pode estar em três lugares:
1. No bolso do empresário: parado, sem gerar retorno, perdendo valor com a inflação;
2. Nas prateleiras, em forma de estoque: imobilizado, esperando ser vendido, com risco de vencimento, obsolescência ou roubo;
3. No banco, aplicado: rendendo, girando, multiplicando-se com juros compostos.
O problema é que, em muitas farmácias independentes, mais de 60% do capital de giro está preso no estoque. E pior: esse capital só “rende” uma vez ao ano, quando o governo autoriza o reajuste de preços de medicamentos, geralmente em abril, com variação média de 6,9% (IPCA + variação setorial). Enquanto isso, uma aplicação conservadora no CDI rende, em média, 12% ao ano, com liquidez diária. - Ou seja: enquanto o estoque fica parado, o dinheiro perde oportunidade. E o tempo, como sabemos, é o recurso mais escasso no varejo.
Por isso, girar o estoque rapidamente não é uma opção, é uma obrigação. Cada dia que um produto fica parado é um dia de custo de oportunidade. Cada mês de excesso de estoque é um risco de perda por vencimento e, no setor farmacêutico, o custo com descarte de produtos vencidos ultrapassa R$ 1,2 bilhão por ano no Brasil, segundo dados da Abrafarma.
Além disso, o risco de*perdas por roubo, interno ou externo, aumenta proporcionalmente ao volume de mercadoria armazenada. Em farmácias com estoques acima de 90 dias, o índice de perdas operacionais chega a 3,8% do faturamento, quase o dobro do tolerável (2%).
Mas aqui está o ponto crucial: o setor de distribuição entrega pedidos em até 24 horas. As grandes distribuidoras, como Santa Cruz, Panpharma, Cisfarma e outras regionais, operam com logística de última milha otimizada, e muitas já oferecem entregas no mesmo dia. Isso muda completamente a lógica do estoque.
Não é mais necessário estocar meses de mercadoria. O modelo antigo, de comprar grande para garantir está obsoleto. O novo paradigma é o de estoque justo, dinâmico e inteligente: o suficiente para atender à demanda imediata, evitar rupturas, mas sem exceder o necessário.
O benchmark de eficiência no varejo farmacêutico indica que o estoque ideal deve girar em torno de 60 dias. Isso significa que todo o capital investido em produtos deve ser recuperado e reinvestido a cada dois meses. Acima disso, há imobilização. Abaixo disso, risco de ruptura.
Para atingir esse equilíbrio, é essencial considerar a sazonalidade de vendas. Há produtos com demanda previsível:
- No inverno, aumentam as vendas de medicamentos para gripe, bronquite e analgésicos;
- No verão, crescem os pedidos de protetores solares, repelentes e produtos para queimaduras;
- Em março e abril, há pico em medicamentos para ansiedade e depressão (volta às aulas, fim do período de férias);
- Após o Carnaval, há aumento em testes de DSTs e anticoncepcionais de emergência.
Ignorar esses padrões é condenar o estoque a erros crônicos: excesso no momento errado, falta no momento certo.
A solução? Ferramentas de controle de estoque baseadas em inteligência de dados.
- Sistemas de previsão de demanda por SKU;
- Relatórios de rotatividade ABC (classificação por valor e volume de venda);
- Alertas automáticos de reposição mínima e vencimento próximo;
- Integração com fornecedores para “vendor managed inventory” (VMI), em bom português, "Estoque Gerenciado pelo Fornecedor”, um modelo de gestão de suprimentos colaborativo onde o fornecedor é responsável por monitorar e gerenciar os níveis de estoque na instalação do cliente.
- Dashboards em tempo real com indicadores de dias de estoque parado, por SKUs.
Em uma farmácia que acompanho, a implantação de um sistema de gestão reduziu os dias de estoque de 112 para 58 em seis meses, sem aumentar as rupturas. O giro passou de 3,2 para 6,2 vezes ao ano. O capital liberado foi reinvestido em serviços farmacêuticos e marketing digital, gerando um aumento de 27% no lucro líquido do negócio.
A mensagem é direta: estoque parado é prejuízo mascarado de segurança.
O dono de pequena farmácia que insiste em “comprar grande” por medo de faltar está, na verdade, alimentando um câncer silencioso no seu negócio: a imobilização de capital.
A gestão de estoque inteligente não é um luxo. É a base da sustentabilidade financeira. E, mais do que isso, é o primeiro passo para a gestão completa da loja, porque quando você domina o estoque, você passa a dominar o caixa, o mix de produtos, a rentabilidade por categoria e, por fim, o destino do seu negócio.
Se você ainda não sabe quantos dias de estoque tem hoje, se não segmenta seus produtos por rotatividade, se não usa dados para decidir o que comprar e quando comprar, então você não está gerindo uma farmácia. Você está apenas reagindo a ela. E no mercado atual, reagir é o caminho mais curto para a irrelevância.
A pequena farmácia pode e deve prosperar. Mas só prosperará se entender que o verdadeiro medicamento para a crise é a gestão. E o primeiro comprimido dessa receita se chama: estoque inteligente.
Tome-o diariamente.
Sua farmácia vai agradecer.




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