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ESTATUTOS PARA UM MUNDO QUE INSISTE EM NÃO NASCER

  • Carlos A. Buckmann
  • 27 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

ESTATUTOS PARA UM MUNDO QUE INSISTE EM NÃO NASCER

            Lembro-me da primeira vez que li “Os Estatutos do Homem”, de Thiago de Mello.

            Era madrugada, e eu, cansado de planilhas e metas, folheava um velho caderno de anotações onde alguém, talvez um professor, talvez um amigo, havia copiado à mão os versos como quem planta sementes em terra árida. Era 1964. O poema nascia sob a sombra da ditadura, como um ato de resistência lírica, dedicado a ninguém menos que o poeta Pablo Neruda, companheiro de sonhos e de lutas.

            “Artigo I: Fica decretado que agora vale a vida”, lia-se ali, com a força de um decreto divino escrito por mãos humanas. E eu, naquela noite, senti o coração bater mais devagar, como se o tempo tivesse parado para ouvir o que o poeta tinha a dizer ao mundo.

            Thiago não escreveu um manifesto político, embora tenha sido lido como tal. Escreveu um estatuto da alma. Um código ético para a convivência humana, onde o direito à alegria, ao pão, ao riso franco e à liberdade de ser, sem máscaras, sem correntes, era não um privilégio, mas uma obrigação coletiva.

            “Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem”, dizia ele. Que utopia generosa! Que promessa quase bíblica! E, no entanto, tão distante da realidade que construímos, ou melhor, que desmontamos, dia após dia.

            Imagino como seria viver sob esses estatutos.

            No mundo dos negócios, por exemplo, o lucro não seria o único norte, mas um meio, e não um fim, para gerar dignidade. O patrão não veria no empregado um custo a ser minimizado, mas um ser humano cujo tempo, suor e inteligência merecem respeito, justiça e, sim, até carinho.

“Fica decretado que o homem terá o direito de não ter medo”, escreveu Thiago. Quantos de nós, hoje, trabalhamos com medo? Medo de ser substituído, de falar demais, de pedir menos, de existir demais?

            E o vendedor? Não mais um caçador de alvos, mas um facilitador de necessidades reais. O cliente não seria um número, um perfil de consumo, mas alguém cuja confiança deve ser conquistada com verdade, não com artifícios.

            “Fica decretado que o homem terá sempre o direito de escolher o seu caminho”, diz o poema. Mas como escolher, se somos bombardeados por algoritmos que nos vendem ilusões como se fossem verdades?

            Mais profundo ainda é o que o poema propõe sobre o encontro entre homem e homem. Não como concorrentes, não como recursos, mas como espelhos uns dos outros. “Fica decretado que o homem não morrerá de fome”, escreveu Thiago, com a simplicidade de quem sabe que a fome não é falta de alimento, mas falta de solidariedade. E, no entanto, vemos prateleiras abarrotadas enquanto crianças dormem com o estômago vazio. Vemos corporações lucrando bilhões enquanto o planeta arde. Vemos redes sociais cheias de conexões e vazias de afeto, com influenciadores vazios de cultura sendo enriquecidos por influenciados vazios de conhecimento.

            Vivemos numa era em que a economia se tornou uma religião, e o mercado, seu deus implacável. Mas o poema de Thiago nos lembra que há algo mais sagrado: o rosto do outro. A mão estendida. O silêncio que acolhe. A palavra que liberta.

            E, no entanto, insistimos em construir caminhos que nos afastam desse sonho. Caminhos de concreto e dados, onde o valor de uma vida se mede pelo seu consumo, e não pela sua contribuição. Onde o “sucesso” é sinônimo de acumulação, e não de generosidade. Onde a humanidade, em vez de se expandir, se fragmenta em bolhas de ego e medo.

            Thiago de Mello escreveu seus estatutos como quem planta uma árvore cuja sombra jamais verá. Mas nós, que vivemos sob o sol escaldante da indiferença, ainda temos tempo de regá-la. Ou, ao menos, de não arrancá-la do chão antes que dê frutos.

            Se os estatutos do homem ainda não regem o mundo, que ao menos governem nossos gestos. Que cada ato cotidiano seja um levante contra a indiferença. Porque esperar que o mundo mude é confortável, mudar o mundo com o que temos, isso sim é revolucionário. E se insistem em nos vender medo, que compremos coragem. Se nos oferecem silêncio, que devolvamos palavra. Se nos empurram para o abismo, que sejamos ponte. Porque o mundo não nasce sozinho, ele precisa de quem o pare, o embale e o ensine a respirar. Enquanto isso, ele segue girando, rápido demais para quem quer viver, lento demais para quem quer mudar.

            E os estatutos continuam ali, esperando. Não como poesia, mas como convite.

            Ou como advertência.

BETO BUCKMANN

Crônicas entre ideias e pólvora.

 
 
 

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